Opinião
Um S�o Jo�o de desigualdades
As festas juninas no Nordeste são eventos aguardados o ano todo. A festa das cores, sabores, ritmos alegres, anunciados por todo tipo de fogos de artifício, lembram qualquer desavisado que junho chegou. As fogueiras em cada casa mostram que ali se reúnem pessoas para os festejos. A tradição conta que São João (Batista), teve sua chegada ao mundo anunciada desta forma. A mãe de João fez um trato com a sua prima Maria, Mãe de Jesus, que no dia em que o menino nascesse faria uma fogueira para avisá-la. Vi com pesar no coração, semana passada, véspera de São João, como muitas pessoas do interior acostumadas a reunir a família e fazer sua fogueira, regada a uma culinária baseada no milho, se recolher cedo para o abrigo mais próximo oferecido. Sem fogueiras, sem energia elétrica, sem forró, sem graça. Enquanto alguns iam dormir mais cedo, em outras cidades a festa só terminava quando o dia já dava o ar da graça. Confesso que a festa de São João, extrapolou em muito os limites do recado que está por trás da pregação deste último profeta. João foi tão celebrado, uma porque seus pais já eram anciãos, e outra porque Deus lhe anunciava 700 anos antes de seu nascimento como aquele que traria consolo ao povo sofrido e maltratado no cativeiro. Era aquele que prepararia o caminho para o Senhor passar, suas palavras soavam como os fogos de artifícios para as pessoas. Uma mensagem bem dura, centrada no arrependimento que aponta para Cristo. Na verdade só há preparo do caminho, só há consolo àqueles que reconhecem sua fragilidade, fraqueza. Só há ajuda eficiente quando nossas vidas viram desertos, escombros, cheiram a morte e desilusão. Por isso, mesmo que não celebraram o São João, as pessoas do interior, os desabrigados, estão vivendo na pele a mensagem de São João Batista. Muitos terão caminhos para aplanar, sujeira para retirar, muito consolo para receber. Assim como Deus enviou João para consolar seu povo, assim como Deus nos envia a cada um, para ir de encontro e dar a mão aos que atravessam os desertos e precisam que seus caminhos sejam aplanados. Viver a mensagem de São João que aponta para Jesus é planejar uma reconstrução, olhar para o futuro. É como diz o próprio não construir aleatoriamente, mas sobre Ele, a rocha, base segura. (*) É teólogo e pastor da Igreja Luterana em Maceió.