Opinião
Reconstruir � preciso!
Tão logo tomei conhecimento da tragédia que se abateu sobre Alagoas com as últimas chuvas, apressei-me a visitar as regiões atingidas. Uma verdadeira calamidade! Jamais havia presenciado tanta destruição e tanta tristeza! Cidades arrasadas em toda sua extensão pela enchente dos rios Mundaú e Paraíba, uma visão trágica da devastação que a força colossal da natureza pode produzir sobre as esquálidas estruturas urbanas da maioria dos municípios brasileiros. O torvelinho das águas não poupou nada: casas, praças, ruas, edifícios públicos, instalações elétricas e hidráulicas - nem mesmo vidas humanas. Assistimos pelos canais de televisão de todo o País - e vimos nas imagens exibidas pelos jornais - o drama de inúmeras famílias desalojadas de suas casas; a aflição de pequenos empresários, despojados de tudo que haviam construído ao longo de uma vida inteira de luta e sacrifício; o desespero e a perplexidade das autoridades públicas, impotentes diante da dimensão da catástrofe. No primeiro olhar, diante das águas turvas do Rio Mundaú, próximo à cidade de Murici, fui tomado pela lembrança dos versos de Jorge de Lima, o poeta da alma alagoana, que reluzem no poema ?Caminhos da minha terra?: ?Mundaú - soube depois/que quer dizer rio torto./Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras seminuas,/dos meus pescadores de traíras?/Mundaú! - rio torto - caminho de curvas,/por onde eu vim para a cidade/onde ninguém sabe o que é caminho?. Não havia caminho certo por onde andei. Só escombros e vidas partidas, vidas precocemente interrompidas pela fúria das águas - e dor, refletida como máscara mortuária no rosto molhado daqueles que, vítimas da intempérie, estão agora à procura de um novo caminho. Estes os meus sentimentos de homem e de cidadão. Tive ali mesmo a certeza de que, sem uma poderosa corrente de ajuda humanitária e oficial, aquelas cidades não têm condições de se recuperar. E logo se formou uma cadeia nacional de solidariedade, através da qual continua a chegar aos desabrigados e desalojados um constante fluxo de donativos na forma de gêneros alimentícios, água, roupas, colchões, lençóis e outros itens absolutamente indispensáveis ao socorro das populações atingidas. O próprio Ministério Público, por meio de sua associação de classe, integrou-se a essa corrente do bem em prol dos necessitados. Chegou o apoio. Dedicação absoluta da Defesa Civil estadual. Veio a ajuda do governo federal, que aportou recursos emergenciais da ordem de 100 milhões de reais para Alagoas e Pernambuco, também fortemente castigado pelo excesso de chuvas. Como instituição, o Ministério Público tem emprestado todo o seu apoio às cidades afetadas. Para tanto, constituímos comissão cujo propósito é acompanhar o desenrolar dos acontecimentos decorrentes do estado de calamidade pública reconhecido por decreto do governo do Estado. Vamos ajudar em tudo que estiver ao nosso alcance, inclusive quanto à preservação da ordem social e à regular e adequada aplicação dos recursos estaduais e federais destinados ao combate das consequências diretas e indiretas dessa tragédia. Já expedimos recomendações aos gestores municipais e a seus auxiliares diretos visando à escorreita administração das verbas públicas, com a adoção dos procedimentos estritamente de acordo com a legislação vigente. O Ministério Público, acompanhando de perto as ações a serem implementadas no âmbito dos municípios, exigirá de todos os responsáveis o compromisso com a transparência, a equidade e a lisura, para que se possa dar o máximo aproveitamento e alcance aos recursos recebidos - proporcionando apoio mais efetivo ainda àquelas pessoas que perderam tudo ou quase tudo, e agora voltam seus olhos umedecidos à sociedade e aos governos. Então vamos poder evocar o nosso Jorge de Lima outra vez, dizendo otimista: ?O rio cheio,/barrigas cheias./mulheres cheias, Zefa!/Águas nas locas,/pitus gostosos./Carás, cabojes,/e chuva e mais chuva!Vai nascer tudo: milho, feijão,/até de novo/teu coração, Zefa!?. Paz e prosperidade para Alagoas! (*) É procurador-geral de Justiça.