Opinião
Acendedor de lampi�es
Zagreb, Croácia, 19 de outubro de 2009. Frio arretado! - seis ou sete graus. Malgrado o tamanho da cidade (mais de oitocentos mil habitantes), não houve dificuldade: setas colocadas desde a entrada da cidade conduziram-nos diretamente ao hotel. Bom seria que outras cidades adotassem a experiência croata. Acomodados, Yvette e eu fomos conhecer a cidade. Em pequeno trem sobre pneus (passeio gratuito), conhecemos o Centro moderno. Cidade tipicamente europeia: sóbria, elegante, bonita, belo teatro. Sobrou tempo para conhecer alguns monumentos antigos, indicados no guia turístico - nada especial. A noite de outono alcançou-nos cedo e nos conduziu a um gostoso restaurante. Cozinha croata Delicioso assado de cordeiro, acompanhado de ótimo vinho dálmata, marcou nosso quadragésimo quinto aniversário de casamento. No dia seguinte, obrigatória e gratificante visita ao Museu Nacional do Naïf (a Croácia é tida como a pátria dos mais importantes pintores ?ingênuos?). Os artistas croatas elaboram as figuras, de forma espelhada, sobre uma lâmina de vidro. O vidro é posto na moldura, com a face pintada voltada para dentro; assim aprecia-se o avesso do que foi efetivamente pintado. Essa técnica faz com que as tintas adquiram um brilho que lhes dá vida, produzindo belíssimos quadros. Saímos do pequeno museu encantados. Só descansamos quando, após revolvermos várias galerias, aumentamos com dois quadros o peso de nossa bagagem. A noite reservou-nos uma surpresa: subíamos uma ladeira, na cidade antiga; uma motocicleta ultrapassou-nos e estacionou poucos metros adiante; transportava sobre o guidom algo parecido com uma vara de pesca; o jovem que a conduzia apanhou a vareta dirigiu-se a um poste de iluminação, com ela, cutucou a luminária; sem demora, retirou-a e partiu, apressado, em direção a outro poste, onde repetiu a operação, caminhando apressado, para repetir a operação em outros apliques. Imaginamos que o rapaz tentava roubar lâmpadas eventualmente mal fixadas. A sofreguidão com que agia fazia-nos pensar assim. Essa impressão, contudo, durou pouquíssimo. Alguns segundos após o cutucão, uma pequena claridade começou a escapar da lamparina; a mesma coisa aconteceu no segundo poste. Só então, percebemos. O suposto larápio era algo que imaginávamos extinto: um acendedor de lampiões. Tentamos bater alguma foto, mas não havia luz suficiente. Em seu apressado roteiro, o rapaz desapareceu na escuridão. Um acendedor de lampiões em plena Europa, na capital da Croácia! fiquei a imaginar como seria, em Maceió, o homem que, ?parodiando o sol e associando-se à Lua?, inspirou Jorge de Lima. Ao ver aquele jovem apressado, fiquei a imaginar como seria minha cidade, no tempo em que o poeta o descreveu a circular, lépido, entre os lampiões. Espalhando luz, iluminando o caminho dos notívagos, será que o croata, como o acendedor meu conterrâneo, mora em alguma choupana, sem luz para livrá-lo da escuridão? Não acredito. A Croácia, embora fique nos Balcãs, é país europeu; certamente não convive com a miséria. Afundados nessas cogitações, fomos ao restaurante mais badalado: Boban - ótima cantina italiana. Lá, despedimo-nos de Zagreb e comemoramos o aniversário de Yvette. (*) É ministro aposentado do STJ.