Opinião
Dois alagoanos
Quando se pensa que as coisas podiam estar melhorando para os nordestinos, até para nós alagoanos, os céus despejaram um dilúvio que além da destruição imensa, ainda levaram preciosas vidas humanas e deixaram como saldo as muitas doenças transmitidas pela insalubridade do ambiente devastado. O nordestino voltou a pensar em migrar para o Sul. Velha e nunca descartada hipótese de sobrevivência. A migração para o Sul deixou de ser um apanágio daqueles desafortunados expulsos do campo ora pela seca cruel, ora pelas usinas de açúcar que arrebatam as suas moradias deixando-os a vagar pelas estradas como personagens de Vinhas da Ira de Steinbeck , ora pelo trabalhador desqualificado que procurava trabalho na construção civil da metrópole distante. A migração para o Sul de algum tempo para cá passou a ter um componente outro: o jovem que formado em um curso superior de universidade qualificada, procura o grande centro onde fará o seu aprimoramento, se especializará e não tendo de imediato chances de voltar à terra natal, vai ficando, continua seus estudos, tem alguma condição de mostrar o seu valor, supera os preconceitos contra os nordestinos e vai se estabelecendo até que um dia possa retornar a sua terra. Marcel e Fernanda são dois jovens alagoanos que estão entre estes muitos e valorosos nordestinos. Conheceram-se durante o curso de Medicina da Ufal, onde desde o início os gostos comuns, como a aptidão pelo estudo e o apreço respeitoso pela arte de Hipócrates os aproximou definitivamente. Formados em 2005, Marcel logo fez prova para residência médica em radioterapia, sendo aprovado entre os primeiros lugares para os dois maiores centros brasileiros: o Inca e o Hospital A.C Camargo de São Paulo. Fernanda ainda passou um ano no interior alagoano, no PSF, robustecendo-se para poder enfrentar os custos da grande metrópole. Foi um ano de dolorosa separação. Reencontrados na paulicéia, vararam noites e fins de semana dedicando-se aos livros e aos pacientes. Foram reconhecidos: Marcel não só cursa mestrado na única instituição hospitalar brasileira que tem nota máxima do MEC por três anos seguidos, como foi aprovado para título de especialista do CBR e recentemente obteve o 1º lugar para concurso público de sua especialidade no Hospital do Servidor Público de São Paulo. Fernanda, após terminar a residência em patologia na Santa Casa de São Paulo, foi imediatamente convidada e contratada pela tradicional instituição paulista. Mas, não só a saudade, mas o que podem contribuir com a sua terra natal, um dia os trará de volta. (*) É médico e professor da Uncisal