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�guas passadas, futuro no pret�rito

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Passada a enxurrada em Alagoas, 268.186 pessoas foram afetadas por uma das maiores cheias já registradas. Há ainda a contabilização de 26 mortos. Entre desabrigados e desalojados, quase sem referencial e sem documentos, 72.757 pessoas. Bem, águas passadas não movem moinhos, diz o velho ditado. Apesar de muitas histórias que buscaram justificar a causa de tanta tragédia e surpreendente fúria de rios que passam anos e anos quase secos, restou a sensação de que algo faltou. Na verdade, sim ? e há uma louvável mobilização para amparar uma imensa massa de pobres e para recuperar os estragos causados. Agiu com competência o governo estadual e atuaram de forma responsável, solidária e transparente as autoridades, os militares, os técnicos, enfim, os membros de órgãos estaduais e municipais. O desastre já é passado perfeito e no indicativo do presente, muitas ações - como a relocação de cidades ou parte delas, e até a inacreditável proposta de realização de estudos técnicos para contenção das cheias e proteção contra elas ? vêm sendo discutidas. Uma pergunta que fica é: por que isso aconteceu? Uma resposta bem direta é: porque faltam o planejamento urbano e o de bacias hidrográficas. Simples, parece ser. Sem dúvidas, muito seria evitado se as cidades pudessem crescer de forma planejada e, mais que isto, geridas de acordo com suas necessidades, condições ambientais e tendências de negócios. Muito mais seria evitado se as bacias hidrográficas tivessem planos diretores e se os sistemas integrados de gestão fossem reais. Seria, seria, poderia... Há uma enorme importância na interpretação do uso do futuro do pretérito nessas situações, porque ele é um cômodo meio de se encontrar respostas e um grande inimigo da busca persistente por soluções sustentáveis, tanto do ponto de vista ecológico quanto social e econômico. Haveria, então, condições de se imaginar que daqui para frente o verbo irá para o futuro perfeito e será possível ter implantados projetos de gestão de bacias hidrográficas com sistemas de contenção de cheias, monitoramento de tempo, clima e vazão devidamente acompanhados, proteção das margens dos rios, desassoreamento de leitos de rios e, até nas cidades, a construção de obras para proteção das áreas onde não é possível remanejar mais as populações instaladas há anos? Poderia se supor que as prefeituras iriam adotar medidas para não só elaborar, mas também para aplicar os planos municipais de saneamento, ou de urbanização? Um futuro é certo e não é do pretérito. Se as cidades, os Estados e o governo federal não se envolverem ativamente na implementação das medidas que são velhas conhecidas de todos, como a gestão das bacias hidrográficas e das cidades, haverá novas enxurradas, novas cheias, novos desastres, com o agravante de que poderão ser piores do que os que ocorreram recentemente, de acordo com os reais resultados de estudos hidrológicos, normalmente esquecidos. É um grande desafio, no meio de tantas necessidades, que essas cidades pobres do Nordeste e do Norte possuem: impor a realização de obras que não serão inauguradas com festas e banhos de bica. (*) É diretor Nordeste da Abes.

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