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Casa de taipa

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Procurava uma informação. Distante avistei uma casa de taipa que se erguia soberana e solitária numa colina perto da serra. Atravessei um brejo, caminhei por uma vereda e dei de cara com um senhor. Boa tarde, disse-lhe. Após responder, me ofereceu um tamborete e sentamos no copiar. Depois de dois dedos de prosa, perguntei o que desejava. Infelizmente, não soube informar. Mesmo assim, começamos a conversar. Em pouco tempo descobri que aquela casa abrigava uma numerosa prole: quatro criancinhas que, com os cabelos cheios de piolhos e o nariz escorrendo catarro brincavam, alegre e inocentemente, debaixo de uma pequena árvore com o guardião da casa ? um vira-lata preto e cheio de pulgas ? sob o olhar vigilante de duas moças, uma com vinte e poucos anos e a outra adolescente e, finalmente, uma senhora que não deixou de escutar uma só palavra de nossa conversa porque em nenhum momento se afastou da pequena janela que dava para o alpendre. Perguntei quem eram as duas moças e as crianças. Respondeu: ?são minhas ?fias? e seus ?fios??. Com os olhos cheios de lágrimas contou-me que a mais velha tinha voltado para casa porque o marido todas as vezes que se embriagava lhe maltratava. Uma filha ou um filho é o que existe de mais sagrado em nosso santuário - o coração. Por isso, em respeito a sua dor, nada disse, pois se falasse o sentimento de revolta que de mim se apossou ia aconselhá-lo a fazer o que não devia. Aquele homem, de cabelos grisalhos, rosto triste e enrugado, braços cortados pelo mato, mãos repletas de calos, unhas sujas de barro e pés cheios de feridas de tanto andar descalço, vive para trabalhar. Trabalhar, não para que possa ter uma vida melhor, mas para que os outros fiquem mais ricos e ele, de pobre, passe à triste condição de miserável. Eis a centenária e cruel verdade! Nas poucas horas de descanso, do copiar vê, ao longe, passar os carrões. Pensa: em alguns pode transitar, imponentemente, velhos gabirus e futuros catitas que contribuirão para o gradual aumento do nefasto processo de apodrecimento do poder político e enfraquecimento da democracia! Novamente, pensa: vivemos mais um ano de eleição! No Brasil, ano de eleição devia ser chamado de Ano das Promessas. Farto de tantas promessas, pergunta-se: quais os candidatos à eleição e reeleição que teriam coragem de se apresentar a ?Meu Padinho Ciço? como um autêntico romeiro sem levar um puxão de orelha? Diz-me, Senhor: quantos são os escribas, fariseus, sepulcros caiados e falsos profetas? (*) É professor da Ufal.

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