Polícia
O poder das mil�cias nos bairros de Macei�
A justiça torta das milícias infesta uma segurança de mentira na periferia de Maceió. O dinheiro é a lei: só pode ter paz quem paga por ela. A vingança é a pena: quem não se enquadra é assaltado, ou morto. Os ?juízes? são donos de empresas ilegais que escalam homens armados para extorquir comerciantes e moradores em troca de uma falsa vigilância. Onde a segurança pública não chega, turmas de vigilantes se unem em cooperativas, que terminam se aglutinando em empresas maiores, fundadas por policiais. Misturam-se a ?justiceiros? e formam organizações paramilitares. O Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc) do Ministério Público já constatou a participação de vários policiais (civis e militares) em milícias que derivam para grupos de extermínio. Oficiais da Polícia Militar (PM), policiais civis, militares, ex-policiais, agentes penitenciários e vigilantes foram denunciados pela execução de sem-teto, flanelinhas e outros assassinatos. As investigações sobre a chacina dos quatro garotos do conjunto Cidade Sorriso, no Benedito Bentes, apontam que o crime foi obra de milícias, que se uniram para fazer uma demonstração de força na região. O CENÁRIO DA INSEGURANÇA Conjunto Henrique Equelman, loteamento Alvorada, Conjunto Frei Damião, Benedito Bentes 1 e 2, Sítio São Jorge e Jacarecica, todas essas regiões foram percorridas pela reportagem da Gazeta de Alagoas. Cada uma delas tem suas milícias e seus problemas. São histórias de protegidos e assaltados que se cruzam numa teia armada pela violência urbana. As milícias e os grupos de extermínio são apenas os tentáculos de uma estrutura maior, que inclui policiais, agentes públicos e é financiada pelo crime organizado. Conjunto Parque das Américas O dono de mercadinho José Aparecido Silva não aguenta mais os assaltos e quer vender o ponto. ?Mas ninguém quer comprar, quem é doido?. Os prejuízos com roubos o deixaram sem dinheiro para pagar as taxas das milícias. Foi uma bola de neve, os ataques aumentaram. Colocou um vigilante franzino na porta, cedendo apenas uma ajuda de custo, mas não adianta, até os caminhões dos fornecedores são roubados. Conjunto Frei Damião O comerciante Luiz Fernando Camelo nunca mais foi assaltado depois que começou a financiar um serviço de vigilância diferenciado. ?A gente paga um pessoal que passa de moto por aqui, eles juntam três, quatro pessoas e abrem uma firmazinha?. Mas o motivo da paz conquistada pode ter outra explicação. ?Se tem 2 mil policiais no 5º Batalhão da PM, eu conheço mil, sou amigo de quase todos. Quem é que vai mexer comigo?? Conjunto Cidade Sorriso Toda vez que sai de casa, Gildete da Silva vê o cenário onde o filho foi assassinado, com mais três amigos. ?Uma testemunha viu um pessoal de farda, parecida com a roupa dos seguranças do loteamento que fica do outro lado, espancando e levando os meninos para dentro da mata. Logo depois, ouviu os tiros, conta a mãe de Diego Henrique da Silva Galvão, finado aos 15 anos, um dos mortos na chacina da sexta-feira 13, de agosto passado. Loteamento Monte Verde Quatro empresas de segurança ilegal controlam a área. A Delegacia de Homicídios descobriu que moradores e comerciantes cobravam uma ação mais firme dessas empresas para reduzir o alto índice de assaltos. ?Tudo indica que a chacina foi uma demonstração de força das milícias, na tentativa de impressionar os financiadores e assustar assaltantes que agem na região?, informa um policial que atua nas investigações do quádruplo homicídio. Residencial Bela Vista Por trás do que resta de mata, o condomínio fechado em fase de construção também avista o Cidade Sorriso e outros conjuntos populares do Benedito Bentes. ?Aqui vai ser tudo cercado, com segurança garantida. E do lado de fora, a gente vê o tempo todo os vigilantes passarem de moto com sirene. Também tem viaturas com giroflex. Bandido aqui não tem vez?, relata o pedreiro José Aparecido da Silva. Conjunto Carminha Sebastião Ferreira, o ?Bola?, não confia em ?vigilantes?, não paga taxas a milícias e é alvo constante de assaltos. Já colocou grades no mercadinho para se proteger dos bandidos, mas a medida não deu certo. ?Decidi abrir a grade porque afastava a clientela?. Após o sétimo assalto, os nervos não resistiram. ?Passei seis meses sem vir trabalhar no caixa, o susto é muito grande, o coração fica pequeno. Na hora, o cara só pensa que vai levar um tiro, que vai morrer?. O medo é ainda maior por causa do perfil imprevisível dos assaltantes. ?Todos são meninos de 13, 14 anos, muitos chegam drogados, com armas pesadas nas mãos e nervosos?, relata Bola. O dono de mercadinho afirma que acha um absurdo pagar para ter segurança, seja de empresas, de vigilantes, de milícias ou de policiais. ?Sempre me oferecem segurança, mas eu não quis. Tem comerciante que paga para ter apoio do pessoal da PM, mas ninguém pode nem falar muito para não sofrer mais represálias?. Conjunto Selma Bandeira A implantação da polícia comunitária, financiada pelo Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci), reduziu a violência, afastou as milícias e praticamente extinguiu a figura do vigia de rua. ?Quando chegamos aqui era cheio de vigilantes, agora não há mais necessidade de se pagar por segurança. A polícia está presente na comunidade, nós somos vistos pela população como amigos, ajudamos até a resolver brigas de vizinhos?, garante o cabo José Cícero Pereira. Capitão teria sido privilegiado Um oficial da Polícia Militar (PM) foi privilegiado na megaoperação montada pela Polícia Civil, no último dia 23, para prender suspeitos no inquérito que apura a chacina do Benedito Bentes. No mesmo dia em que foram presos três seguranças, um cabo PM e o capitão Paulo Eugênio Freitas, um mandado de busca e apreensão em dois endereços de outro capitão da polícia, Everaldo Liziário dos Santos Júnior, deixou de ser cumprido. Outras ordens assinadas pelos juízes da 17ª Vara Criminal, que atua no combate ao crime organizado, também foram deixadas de lado. O delegado-geral da Polícia Civil, Marcílio Barenco, por meio de sua assessoria, confirma que solicitou as buscas, mas não informa se os mandados deixaram de ser cumpridos. Alegando que o caso corre em segredo de Justiça, Barenco se recusa a comentar por quais motivos a ordem não foi cumprida. Oficial se diz surpreso ao ser questionado sobre ?imunidade? A polícia alagoana vai ter de apresentar uma boa justificativa à Justiça por não cumprir os mandados de busca e apreensão que havia solicitado. O que aconteceu para o capitão Liziário deixar de figurar na lista de suspeitos? O juiz da 17ª Vara Criminal, Maurício Brêda, estranhou o fato, mas disse que não poderia tecer nenhum comentário sobre qualquer tema que ainda está em fase de investigação. ?Vamos aguardar a conclusão do inquérito policial. Caso ocorra sem o cumprimento de algum mandado judicial, a polícia terá de justificar por que não o cumpriu?, afirma Brêda. Segundo ele, cabe à polícia decidir qual o melhor momento para executar uma prisão temporária ou cumprir uma busca e apreensão. Os advogados dos outros acusados no caso já usam o privilégio concedido ao capitão Liziário e a outros suspeitos para reforçar suas teses de defesa. Mais de dois meses após a chacina, a polícia dá sinais de que deve pedir a prorrogação do prazo para conclusão do inquérito. Outro mandado de busca, na casa de José Wellington Ferreira Barros, supostamente ligado a Liziário, também teria sido ignorado. Integrantes da polícia fazem parte de grupos de extermínio As investigações do Gecoc sobre as mortes de moradores de rua no Centro e na Levada constataram o que todo mundo já suspeitava. Policiais que trabalham em milícias estão formando grupos de extermínio para fazer uma ?limpeza social?. São contratados para assassinar sem-teto, ?flanelinhas? e suspeitos de roubo. Ou simplesmente agem como ?justiceiros? para fazer favor, atendendo a pedidos de parentes e amigos. Só nos últimos meses, o Ministério Público (MP) ofereceu denúncia contra três policiais civis, um ex-policial e um oficial da PM envolvidos com milícias e assassinatos. O capitão PM Rocha Lima cumpriu prisão temporária entre junho e julho, sob suspeita de formação de quadrilha armada, envolvimento com homicídios, apologia à violência, extorsão e outros crimes. Comunidades são intimidadas por grupos de paramilitares O medo é a garantia de faturamento das milícias; a extorsão é a principal ferramenta de trabalho. O servidor público R.L. sabe bem o que é isso, passou maus bocados antes de se render às pressões para colaborar com a taxa de segurança de uma das empresas que intimidam a comunidade do Conjunto Henrique Equelman. ?Há cerca de cinco anos começou a chegar um pessoal que é diferente dos vigilantes comuns. Tem uns caras de moto, fardados como se fossem policiais, e um intermediário que chega com uma pasta na mão, mostrando uma lista de quem já aderiu ao serviço. Na época, cobravam R$ 15 por mês, hoje já aumentou para R$ 20?, conta R.L.. Bastou questionar que tipo de empresa era aquela e o morador começou a ser intimidado. ?Disseram que era um tipo de cooperativa, que era melhor eu aceitar para minha casa não ficar exposta?. Após começar a pagar, R.L. notou que o serviço de segurança simplesmente não era prestado, apenas o agenciador aparecia, uma vez por mês, para fazer a cobrança e receber o dinheiro. Mapeamento está sendo feito A Delegacia de Homicídios apurou que quatro empresas de segurança ilegais atuam no Loteamento Monte Verde, onde ocorreu a chacina dos garotos do Conjunto Cidade Sorriso. ?Lá a cobrança é semanal?, revela o chefe de operações policiais Luciano Pereira. Segundo o investigador, a polícia está fazendo um mapeamento das milícias, empresas ilegais de segurança, grupos de extermínio e de traficantes. ?A gente precisa ter provas concretas, já identificamos grupos que fazem segurança e ameaças na região, mas estamos investigando para constatar as suspeitas?. Apesar das declarações reticentes do policial, o relatório de investigação a que a Gazeta teve acesso exclusivo é bem claro ao apontar os suspeitos como ?elementos integrantes de milícias que fazem o serviço de segurança para comerciantes e casas do Conjunto Cidade Sorriso e Loteamento Monte Verde, bem como do Posto Jacutinga?. Vendas do Força Delta crescem Entre os presos no inquérito da chacina, o segurança e artista Leonardo Francisco da Silva, o ?Léo?, é um caso à parte. Quando não atua como segurança fardado, com a tarja identificando o ?capitão da Silva?, Léo é o produtor, diretor e ator principal da sequência de filmes Força Delta, um amontoado de cenas trash que mostram milícias espancando e matando suspeitos. Se o filme já era um sucesso na região do Benedito Bentes, está com as vendas esgotadas nos camelôs e locadoras, após a repercussão do caso na mídia. Muita gente que assiste ao vídeo pensa que os integrantes da tal Força Delta também são policiais na vida real.