Polícia
Modelo fala sobre morte de designer
Da passarela do São Paulo Fashion Week para o corredor da Casa de Detenção em Maceió, a trajetória do modelo Frederico Safadi, de 19 anos, foi meteórica ao extremo. Despencou como meteoro de um mundo de glamour para o underground da prisão. Os holofotes agora são outros. Ao invés de iluminá-lo para o público, estão postados em muros que o separam da sociedade. Preso há dois meses pelo assassinato do designer e produtor de moda Flavius Durval Lessa, 47, Fred decidiu falar pela primeira vez sobre o assunto, em entrevista exclusiva para a Gazeta de Alagoas. Quem antes desfilava roupas da alta costura seguia a passos trôpegos entre as grades, na última terça-feira, para encontrar o advogado Rodrigo Ferro e a equipe de reportagem numa sala reservada do Cadeião. Vestido com uniforme de preso, escoltado por três agentes penitenciários, cabisbaixo, sempre mirando o chão, o ex-modelo trazia a desolação expressa em todos os gestos. Acusado diz que vive em ?falência emocional? As perguntas previamente redigidas foram mostradas a Fred, que começou a lê-las avidamente, suspirou e segurou o choro. ?É muita coisa, as perguntas por escrito são muito objetivas e ficam mais frias, não é melhor a gente gravar??, ainda insisti ? coisa de repórter. Mas Fred estava firme na sua decisão, sequer aceitou a oferta de um computador dentro do presídio para digitar as respostas. Pediu cinco folhas de papel e uma caneta. ?Eu escrevo e peço para o meu advogado passar a limpo e enviar para você?. Um agente abre a porta, Fred está prestes a se levantar para sair e faço a tentativa final: ?Pelo menos uma pergunta, é importante gravar um depoimento seu?. Ele olha de lado (o advogado sinaliza que não tem nada contra) e finalmente cede: ?Depende da pergunta?. Difícil escolher uma entre tantas. Se fosse muito crítica, poderia não ter resposta. Consegui fazer duas. Foram dois minutos e dez segundos de gravação, tão contundente como as 34 perguntas respondidas na ponta da caneta. E, sem dúvida, mais espontâneos. *** Gazeta ? O que mudou na sua vida? Frederico Safadi ? Eu vivia uma vida de ilusão. Tanto pela droga, pelo consumo, pela facilidade, como pela exposição da própria profissão, pela maneira que ela me colocava. E hoje não, hoje eu vivo uma completa falência. Falência emocional, falência como ser humano, como... coisas que eu renegava, que eu fiz. Hoje eu vivo em completa tristeza... [para; respira; chora; enxuga as lágrimas]... A humilhação que a minha família tem passado... [tenta, mas não consegue mais falar]. O seu sonho era virar um modelo internacional, mas hoje qual o seu principal objetivo? Meu objetivo hoje é dar orgulho ao meu pai. Depois de tanto..., depois disso tudo, de tanta humilhação, filho de um homem honesto, de um homem que venceu na vida, e hoje eu estou aqui, estou preso. Foi um crime cruel... comigo e com todo mundo. A vida antes do crime Gazeta - todos contam que na escola você sempre foi um cara muito paquerado. O que você lembra dos bons tempos de adolescência? Frederico Safadi ? Sim, é verdade. Lembro muito dos meus amigos e de como eu era feliz antes de começar a usar drogas. Você sempre quis seguir a carreira de modelo? Teve outros sonhos? Eu tinha, sim, o sonho de ser modelo. Mas um outro sonho que tinha era de ser um bom gastrônomo. Quando e como você começou a usar drogas? Faz muito tempo, era muito novo, não me lembro bem. A relação profissional Como era a relação de trabalho entre vocês? Além de modelo você atuava como assistente do Flavius? Seja modelando ou carregando caixas para seus eventos, trabalho era trabalho, sempre com respeito, eu dava apoio no simples para que ele não se sobrecarregasse. Amigos disseram que Flavius era pressionado para deslanchar sua carreira internacional. É verdade? O empenho e a pressão eram feitos por ele mesmo, no trabalho ele sempre foi dedicado. Até porque com contrato fechado ambos ganharíamos, ele com porcentagem de empresário. Havia uma viagem prevista para Milão? Há registro de que vocês carimbaram passaporte na Policia Federal. Ele falou várias vezes de milão, mas não era certo. Quem iria cuidar de minha carreira internacional era a agência que ele havia feito contato na nossa última viagem a São Paulo. |MG ?Foi a pior noite da minha vida?, diz Fred Gazeta ? Quando e como você conheceu o Flavius? Frederico Safadi ? Conheci no primeiro trabalho que fiz para Felipe Jonathan. Ele nós apresentou. O relacionamento com o Flavius fez você se sentir mal em algum momento? Sim, estava em uma relação que não me fazia bem. Já que não sou homossexual. Você tinha ou tem namorada? Tive várias. Inclusive quando estava trabalhando com ele, namorei uma garota. Flavius tinha ciúme? Sim. Muito. No depoimento à polícia o senhor declarou que era intimidado por Flavius, que ele ameaçava revelar o relacionamento de vocês. Como foi isso? Quando resolvi parar o que estava fazendo, ele não gostou e usou de chantagem. Disse que revelaria sobre a relação que nos tínhamos e sobre o uso de drogas. A vida após o assassinato No dia seguinte ao crime o que você pensava? Não consegui pensar em nada com clareza. Porque você não confessou no primeiro depoimento? Eu fui à delegacia para confessar, mas tive medo da revolta da família do Flavius. Você pensou em fugir? Em momento algum, muito pelo contrário, logo que soube do mandado de prisão contra mim, me entreguei e confessei. Iria confessar de qualquer jeito, para responder pelo meu ato. Estava esperando os advogados marcarem minha apresentação com segurança. Crime chocou sociedade alagoana Véspera de carnaval. O Rei Momo já tinha a chave da cidade quando a Morte pediu passagem e abriu alas dentro do veículo Citroën C3 em que estavam Fred e Flavius, naquela noite de sexta-feira, 4 de março. O corpo do empresário do modelo foi encontrado no banco do carona, com sinais de asfixia e um corte no pescoço, numa rua em frente à fábrica da Coca-cola, no Benedito Bentes, por volta das 23 horas. Fred e o irmão adotivo dele, um rapaz de 16 anos que também estava no carro, fugiram. A partir daí, o crime que chocou a sociedade alagoana foi marcado por uma série de vacilos nas investigações. Da madrugada do Sábado de Zé Pereira até a Quarta-Feira de Cinzas, a polícia e as perícias do Estado devem ter tomado um porre de incompetência, que gerou uma tremenda ressaca moral na cúpula da segurança pública. Após sumir por mais de 24 horas, o modelo prestou depoimento como principal suspeito, no domingo de carnaval, a polícia encontrou uma blusa dele suja de sangue e, mesmo assim, Fred ainda foi liberado. Nos primeiros dias, o inquérito passou pelas mãos de nada menos do que seis delegados. Os bastidores da entrevista Os bastidores e caminhos percorridos pela equipe da Gazeta até conseguir a entrevista com Frederico Safadi merecem um registro, o que podemos chamar de uma matéria sobre a matéria. A ideia de entrevistar o pivô do crime de maior repercussão deste ano em Alagoas foi lançada pela chefia da redação, há um mês. De lá para cá, foram muitos telefonemas, envios de documentos, entraves burocráticos, surpresas, decepções e muita persistência. Logo no primeiro contato, o advogado Raimundo Palmeira apoiou a ideia e disse que os advogados e a família concordavam que ele falasse à imprensa, mas com uma condição: teria que ser entrevista exclusiva à Gazeta de Alagoas. Melhor impossível, pensamos. Fred ainda estava na Casa de Custódia da Polícia Civil, no Jacintinho, e dependíamos do consentimento do delegadogeral Marcílio Barenco para entrar na cadeia e entrevistar o preso. INTENDENTE Antes dele chegar à Pajuçara, nosso carro já estava na guarita de acesso ao sistema prisional. Com a ordem do juiz na mão, decidimos adiantar o serviço. Além de um banho de chuva, a expectativa foi por água abaixo. Os agentes penitenciários, em greve, disseram que era preciso a assinatura do intendente do Igesp, coronel Carlos Luna, para endossar a autorização do juiz. Adiei o compromisso com o advogado para a manhã seguinte e parti para a sede do Igesp. O intendente confirmou que já tinha sido informado pelo juiz e encaminhado a demanda para a Assessoria de Comunicação. Um novo nó precisava ser desatado. Era preciso entrar no Cadeião com dois assessores do Igesp, o jornalista Hélder Bayma e o fotógrafo da assessoria. NOVA MUDANÇA Questionamos por que a entrevista não poderia ser na sala dos advogados, no Cadeião mesmo, mas Bayma tinha dito que era por questões de segurança. Já o diretor do DUP achou ótima a ideia, ligou para o diretor do presídio e ele também concordou. Beleza, finalmente, entramos. Antes da entrevista, foi preciso esclarecer que se tratava de uma entrevista exclusiva, por exigência de Fred, da família e dos advogados. Mesmo assim, soubemos que o outro jornalista e o fotógrafo ficariam na sala. ?É uma determinação do intendente. A assessoria acompanha todo evento que acontece no sistema, mas é apenas acompanhamento interno, a gente não vai divulgar nada para fora?, disse Bayma.