Polícia
Mist�rio envolve morte de duas meninas
Coruripe ? Um vento frio sussurra na Mata da Pituba. Árvores e cipós amarram o mistério que atormenta pais, mães, padrastos e madrastas no Litoral Sul de Alagoas. Folhas secas e troncos de vegetação foram a última visão em vida das irmãs de criação Cícera Beatriz dos Santos, 12 anos, e Samara Oliveira dos Santos, 14. Como frutos caídos, os corpos apodreciam no chão, quando encontrados no dia 21 de abril, véspera da Sexta-Feira da Paixão. Tinha fim a agonia do desaparecimento, mas surgia outro mistério pior. Após 23 dias de buscas, duas perguntas começam a martelar o juízo da polícia e das famílias: quem fez isso? E por qual motivo? Tudo começou com uma carona no meio do caminho de casa para a Escola Municipal Cláudio Daniel, em Coruripe. Samara e Bia foram vistas pela última vez entrando num Fiat Pálio verde claro, pouco após o meio-dia, na rodovia AL-101 Sul. Para chegar à mata, próximo ao povoado Lagoa do Pau, o carro pode ter dado meia-volta ou retornado por dentro da cidade. Desviou da pista de asfalto, atravessou um trecho de canavial e parou na beira da reserva de Mata Atlântica. Abraçadas aos livros e cadernos, as alunas foram levadas cerca de dez a quinze metros mata adentro. Duas cápsulas de pistola 380 ficaram na cena do crime, que tem claras evidências de execução sumária. Não havia sinais de briga, elas não tiveram qualquer chance de reação ou fuga. A mais velha estava com as costas no chão. A mais nova caiu de bruços, com as pernas dobradas, como se estivesse de joelhos. Ambas tinham tiros na cabeça. Caso está cercado por acusações mútuas Coruripe ? O caso está cercado por acusações e desconfianças entre os três núcleos familiares das meninas, que não tinham relação consanguínea, mas viviam como irmãs. Elas moravam em Coruripe com José Raimundo, 39, (pai de Samara e padrasto de Bia) e Cosma Maria dos Santos, 28 (mãe de Bia e madrasta de Samara) e três outros filhos dos casamentos anteriores do casal. A mãe de Samara, Cícera Rosivan dos Santos, 32, reside em Jequiá da Praia com o tratorista Marcus Vinícius Alves dos Santos, 43, o Paraíba (padrasto de Samara). E o pai de Beatriz, o pescador José Fidélis dos Santos, 38, vive com outra mulher em Piaçabuçu. Separadas por casamentos malsucedidos, as três famílias se uniram na dor do desaparecimento e realizaram buscas por vários pontos nos 23 dias de desaparecimento. Mas constatado o duplo homicídio, formou-se uma rede de intrigas, com suspeitas e cobranças mútuas. Pai de Beatriz apresenta versão estranha Jequiá da Praia e Coruripe ? Esquisita também é uma versão apresentada pelo pai de Beatriz, José Fidélis, que mora em Piaçabuçu. Antes de os corpos serem encontrados, ele distribuía cartazes e procurava as meninas, quando contou que foi abordado por um homem num carro com as mesmas características do veículo usado no rapto das meninas (Pálio verde claro). ?Este cara do carro ainda gritou: ?essas meninas não vão aparecer nunca mais!?, aí ele disse que tirou fotos desse carro, da placa e dessa pessoa?, informou José Raimundo. Depois disso, José Fidélis disse que passou a ser perseguido por pessoas de moto e receber ameaças. Num primeiro depoimento à polícia, ele disse que, não sabia como, mas as fotos simplesmente foram apagadas do seu celular. Com medo, o pai de Beatriz revelou que planejava deixar Piaçabuçu para morar no interior de Minas Gerais. Diante disso, o delegado de Coruripe, Josias de Lima, convocou Fidélis para prestar depoimento na última quinta-feira. Padrasto se defende das acusações Jequiá da Praia ? Nessa época, há mais de um ano, Cícera Rosivan dos Santos, mãe de Samara, decidiu se separar de Marcus. ?Fui embora da casa que era minha para morar no Poxim?. Mas alguns dias antes do desaparecimento das meninas, ela decidiu deixar as suspeitas de lado e reatou o relacionamento, não por amor, mas por necessidade. ?Eu tenho pedra nos rins e não consigo mais fazer faxina ou trabalhar nas casas do povo. Tenho problemas de saúde e estou cansada. Pelo menos ele não deixa faltar nada dentro de casa?, confessa. Mesmo sem querer incriminar o companheiro, ela revela o perfil ciumento e agressivo de Marcus Vinícius. ?Ele me esculhambava, ficava com ciúme, tomava cachaça e dizia coisa que eu não fazia. Também batia em mim, teve uma briga que eu até puxei a faca para ele parar?, conta Cícera, com naturalidade. Polícia não tem laudos para apurar caso Jequiá da Praia e Coruripe ? Marcus Vinícius não esconde a raiva e vergonha que passou, mas assegura que nunca fez ameaças ou pensou em se vingar. ?Quando eu passava nos cantos, na rua, só ouvia o pessoal falar: ?óia, lá vai o cabra que estuprou a filha?. Só tinha vontade de achar um buraco para me enterrar. Agora tem gente querendo me acusar das mortes e dizendo que a mãe sabia de tudo. A gente vive um inferno aqui?. O padrasto de Samara levanta outras suspeitas que possam ajudá-lo a provar sua inocência. Segundo parentes e amigos das meninas, Beatriz vivia dizendo que sempre tinha um homem que a seguia. Para Marcus Vinícius, este indício traz a esperança de que a polícia conclua que o alvo principal era a menina mais nova e que a enteada dele só teria morrido por estar junto com a irmã de criação. ?Temos um grande quebra-cabeça? O delegado já pediu a prorrogação do inquérito por mais trinta dias. Diante de tantas suspeitas e contradições nos depoimentos, Josias de Lima tenta puxar o fio da meada por meio de falhas nos depoimentos. Por isso, o pai de Beatriz, José Fidélis, foi reinquirido para prestar depoimento sobre as fotos que teria tirado do carro e as ameaças que vem recebendo. ?Ele tem que explicar como estas fotos foram apagadas do celular dele?, afirma o chefe de operações. Para Bráulio Miguel, a questão maior desse crime é a ?dor na consciência pesada? dos parentes. ?O Raimundo poderia ter seguido o carro, mas sequer se preocupou em ir à escola checar se a filha tinha chegado. O Fidélis deixou a filha aqui em Coruripe, entregue a outra família, sem ajudar, e fica pensando nas atitudes que poderia ter tomado anteriormente?. O chefe enfatiza que o ?x da questão? é o que motivou esse crime.