Polícia
Pedofilia escandaliza munic�pio de Alagoas
Água Branca ? Desde o assalto de Lampião à casa da Baronesa de Água Branca, em 1922, o município sertanejo não passava por um episódio de tanta repercussão como o que chocou o País, na semana passada. Ao invés das joias da viúva do Barão, dona Joanna Vieira Sandes, o alvo do ataque é bem mais precioso: a inocência de meninas de 6 a 14 anos de idade, vítimas de abusos sexuais cometidos por homens sem caráter e idosos de até 90 anos. Assusta ainda mais a informação que o sexo entre velhos e crianças é atribuído a uma certa ?cultura? ou ?tradição? existente no local. Mais de vinte homens do município com 20 mil habitantes situado a 304 quilômetros de Maceió são acusados pelo crime de estupro presumido contra crianças. Treze deles já foram presos por determinação do juiz Kléber Borba. Sem os rifles ou cartucheiras de cangaceiros, os criminosos de idade avançada são mais vorazes. Roubam a infância e matam a pureza. Cinco meninas já confirmaram sofrer constantes e reiterados ataques. Mas todos sabem que o número de vítimas é bem maior. Na primeira vez, são forçadas ou enganadas, levadas para lugares onde não podem se defender e até ficam trancadas. Depois, cedem aos favores em troca de picolés, biscoitos, refrigerantes, outras guloseimas e dinheiro, algumas vezes centavos. Acusados se dizem injustiçados Delmiro Gouveia ? Mesmo com tantos acusados, a polícia descarta o crime de formação de quadrilha e não suspeita da existência de uma rede de pedofilia ou de prostituição infanto-juvenil. Para o delegado Wanderley, os casos aconteceram de forma isolada, com vítimas e agressores diferentes. Alguns nem se conheciam, mas uma peculiaridade os une: os idosos e homens de meia-idade acham que não estavam fazendo nada demais. Alguns até confessam atos como sexo oral ou bolinação, mas parecem não entender que o estupro presumido (em menores de 14 anos) acontece mesmo sem a penetração vaginal ou com a permissão da criança enganada. ?Tem um velho que, na cabeça dele, é inocente. Ele disse ?eu não estuprei, não forcei, não fiz nada??, explica Manoel Wanderley. O delegado se refere ao comerciante José Alvino Sandes de Lima, o ?seu Alvino do Picolé?, 90 anos, dono de uma sorveteria, que oferecia picolés e dinheiro para as meninas. Menina foi abusada aos 9 anos Delmiro Gouveia e Água Branca ? Todos os presos foram indiciados por estupro de vulnerável (contra menores de 14 anos) e tiveram a prisão temporária decretada. Como se trata de crime hediondo, a temporária é de trinta dias (e não cinco), podendo ser renovada por mais trinta. Se assim entender, o juiz ainda pode decretar a prisão preventiva, e alguns acusados podem ter de aguardar o julgamento atrás das grades. O delegado informa que todas as vítimas são pobres e a maioria dos indiciados tinha boas condições financeiras, possuindo carro, casa própria, fazenda, lanchonete, sorveteria ou emprego público. ?Eles indiretamente davam subsistência aos pais das crianças, que se acomodavam porque estavam recebendo ajuda. É uma coisa de cultura mesmo. Tem um lá pedindo ao juiz e ao promotor para casar com uma menina de 13 anos?. Dinheiro do sexo era usado para comprar guloseimas ?Não aguentava mais. Depois que espalharam, os meninos arriavam meu vestido, beliscavam minha bunda e diziam desaforo. Não quero que aconteça com a minha sobrinha (a amiga de brincadeiras de 1 ano) o que aconteceu comigo. Não quero que ela entre no mesmo rumo que a Rosivânia entrou e que eu entrei também?. A mãe de J. percebeu que a menina tinha um corrimento que exalava um cheiro forte. ?Disseram que eu estou com gonorreia?, conta a menina, revelando ainda que sequer foi levada a um médico ou posto de saúde para tratar da Doença Sexualmente Transmissível (DST). Mesmo com tantos infortúnios, a sertanejinha lembra que o dia mais feliz da sua vida foi quando viu o mar pela primeira vez. ?A minha irmã me trouxe para Maceió, no ano passado, e a gente chegou na praia duas horas da tarde?. Se a visão foi tão boa, J. não pode dizer o mesmo do paladar. Indagada se o banho foi bom, fecha os olhos, espreme a boca, faz uma careta e diz: ?água saigada, fui tomar banho e com toda aquela água fui beber um pouco. Vi que era saigada, saigou a minha boca, gostei não (sic)?. Escândalo divide opiniões Água Branca e Delmiro Gouveia ? Em pleno Festival de Inverno, a cidade tenta esquecer o escândalo de pedofilia envolvendo habitantes conhecidos. Mas é impossível, não se fala em outra coisa no município. O assunto está nas rodas de baralho e de tricô. A tal ?cultura? citada pelo delegado é um assunto evitado por todos. Ninguém apoia abertamente o envolvimento de homens mais velhos com as crianças que pedem dinheiro ou lanche para tapear a fome. Mas, aos poucos, a conversa avança e alguns comentários começam a defender os idosos, criticam o que consideram ?excessos? da polícia e apontam para o desleixo do pais. Em pouco tempo, algumas opiniões já derivam até para a inversão da culpa, alegando que as meninas são muito danadas e seduzem os homens. De todo modo, a maioria sabe que eles cometeram um crime, sente-se indignada e preocupa-se com a imagem que o escândalo traz à cidade. O chefe Castelo, da Polícia Civil, afirma que já foi questionado por causa das prisões dos acusados. Prisões podem mudar ?cultura? no interior Água Branca ? As denúncias de exploração sexual contra crianças e adolescentes partiram de telefonemas anônimos na cidade e chegaram a Brasília pelo Disque 100, número de telefone criado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Terminaram voltando para o Sertão alagoano, pela Delegacia Regional de Delmiro Gouveia e Vara Única da Comarca de Água Branca. Por mais que algumas pessoas não entendam, o juiz Kléber Borba deixa claro que os presos estão indiciados pelo crime de estupro, mesmo que o acusado argumente que houve o consentimento da vítima. ?O artigo 217 do código penal aponta como estupro de vulnerável ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos. É um crime com pena prevista de 8 a 15 anos de prisão?.