Polícia
Caso Beto Campanha ser� reaberto
Uma rede de intrigas, corrupção e mortes mutila o esclarecimento do Caso Beto Campanha. Como navalhas afiadas, as várias fases da investigação decepam peças ou membros que ajudariam a incriminar os verdadeiros mandantes do crime. Entre idas e vindas da Polícia Civil, do Ministério Público (MP), da 17ª Vara Criminal e do Tribunal de Justiça (TJ), o processo volta para um ponto bem próximo à estaca zero, quase cinco anos após o assassinato do vice-prefeito de Pilar. O pano de fundo da trama homicida seria uma disputa por recursos públicos desviados com fraudes em licitações, no município que arrecadou R$ 4,5 milhões de royalties da Petrobras. Gilberto Pereira Alves, 45 anos, o Beto Campanha, foi atingido com doze tiros de pistola, em uma emboscada em frente ao Makro, no Tabuleiro do Martins, em 19 de janeiro de 2007. De lá para cá, a apuração do caso está envolta em ?cortinas de fumaça? e encharcada por um rastro de sangue. Testemunha provoca reviravolta O depoimento bombástico de uma testemunha-chave é considerado um divisor de águas para o caso. Revelações contradizem quase tudo o que foi apontado no primeiro inquérito, concluído pelo delegado Mário Jorge Barros, em maio de 2007. A partir do que esta pessoa revelou, o caso foi reaberto, novos depoimentos são tomados, a polícia volta a fazer buscas e realizar diligências. O relato tem o efeito de uma tocha no ninho de vespas em que se tornou a disputa política em Pilar. E não é só: dois ou três dos réus pronunciados são seduzidos pelo benefício da delação premiada e revelam detalhes nunca antes ditos. Os próprios arquivos secretos da investigação também têm muito a desvendar; testemunhas acusam a polícia de induzi-las a acusar inocentes, falam em mudar o teor dos depoimentos, álibis são contestados e o teor de interrogatórios anteriores passa por análises. Uma fonte da Gazeta revela que o pistoleiro Dogival Silva de Barros é um dos ?colaboradores? da Justiça. Se o que ele fala for verdade, será a principal testemunha do caso. Acusado por dezenas de crimes de pistolagem, Dogival foi preso pela Polícia Federal (PF) em abril de 2008. Na época, o então superintendente da PF, José Pinto de Luna, já apontava ?fortes indícios? da relação do pistoleiro com a trama para matar Beto Campanha. Justiça questiona morte de acusado Diante de fatos nebulosos e estranhezas processuais, nada é mais esquisito nos autos do que a situação do réu José Dimas Barbosa. A notícia do assassinato do sargento PM Barbosa foi amplamente divulgada pela polícia e pela imprensa, na ocasião da chacina de Arapiraca, ocorrida no restaurante do Pangola, em fevereiro de 2008. Entre as vítimas, havia ainda outro denunciado pela morte de Beto Campanha, José Maurílio dos Santos (o Di Lampião), além do empresário Orlando Farias. Apesar de ter sido reconhecido e haver notícias do enterro, Dimas ainda não estaria morto ?para os olhos da Justiça?. É o que consta na página 12 do acórdão do recurso crime de número 2008.001181-8, datado em 8 de setembro de 2010. O documento, assinado por quatro desembargadores, atesta que a morte de Dimas não foi comprovada por certidão de óbito, bem como sua identidade não foi confirmada em nenhuma das cinco certidões de nascimento analisadas. Diz o texto do TJ: ?Notícia de morte surgiu quanto ao recorrido José Dimas Gonçalves Barbosa, muito embora não tenha sido confirmada pelos respectivos Registros Civis de Pessoas Naturais (fls. 4222, 4228, 4230, 4231 e 4234)?. Onze pessoas teriam agido em crime Uma coisa é certa: Beto Campanha foi assassinado em uma tocaia grande, montada com a participação de vários ?profissionais da morte?. Trabalho meticuloso, minuciosamente planejado, para nada dar errado. Pelo que consta no processo, pelo menos onze pessoas teriam agido de alguma forma para contribuir com o crime. Todos os passos do vice-prefeito foram acompanhados desde o momento em que ele saiu de casa, na Chã do Pilar, até o destino final, no Tabuleiro dos Martins, em Maceió. ?No desenrolar das investigações, apurou-se que o crime fora fruto de um complexo sistema organizacional, cuja execução estaria a cargo de diversos grupos de pistoleiros?, escreve o desembargador Sebastião Costa Filho, relator do acórdão. Decisão de Câmara Criminal põe em xeque instituições Se a decisão da 17ª Vara Criminal da Capital de não aceitar os argumentos da polícia e do Ministério Público (MP) contra quase todos os acusados já causou surpresa, o reverso do julgamento dos recursos no Tribunal de Justiça (TJ) foi ainda maior. Na primeira instância, apenas Telma Prado e Petrúcio Cavalcante foram pronunciados, mas os desembargadores concluíram que os juízes se basearam em ?meras presunções quanto aos supostos autores intelectuais?, inclusive com ?ausência de indícios mínimos consistentes de autoria?. Mais adiante, ao decidir pelo provimento do recurso, a Câmara Criminal assinala: ?Não havendo quaisquer elementos a vincular os supostos autores intelectuais àqueles cujos indícios apontam como executores do delito, não há como se manter uma decisão de pronúncia amparada apenas em presunções?. As investigações apontam que Beto Campanha usufruía de esquema de fraude a licitações, por meio de uma empresa de fachada que tinha contratos de locação de veículos e equipamentos. A peleja dele com a então primeira-dama se acirrou porque Telma teria organizado uma maneira para excluir o vice-prefeito do esquema de licitação para coleta do lixo urbano. Filhos de vítima se dizem enganados pela polícia Além do medo e da dor pela morte, os filhos de Beto Campanha sofrem com o sentimento de culpa. ?A gente se sente enganado pela polícia. Fomos usados no inquérito para incriminar pessoas que agora estamos vendo que são inocentes?, afirma o vereador Oscar Cavalcante Alves, 29, o Oscar Campanha, que herdou o codinome, a empresa e a carreira política do pai. Ao lado dele, a irmã Rafaela Cavalcante Alves, 30, a Rafaela Campanha, participa da entrevista e compartilha da mesma tristeza. ?Os investigadores fizeram um monte de coisa que prejudicou a gente e outras pessoas, inclusive fomos induzidos durante os depoimentos. Na época, eu tinha 24 anos e não sabia muito bem das coisas?, continua Oscar. Novas investigações apontariam para outros mandantes O promotor de Justiça Cyro Blatter confirma que o Ministério Público requisitou diligências e vai cobrar diretamente o delegado-geral Marcílio Barenco sobre as respostas necessárias. ?Muitas vezes, a gente trabalha sem passar informações, mas o caso não está parado, pode ter certeza?, enfatizou o representante do Gecoc, grupo que remeteu o inquérito de volta à polícia para que os erros encontrados pela Justiça sejam consertados. Com a chegada de uma nova testemunha-chave, as investigações apontam para outros mandantes, mas o promotor evita falar sequer se o crime foi político ou não. ?Estamos atentos à credibilidade da origem das informações que chegam. Isso precisa ser profissionalmente aferido. O trabalho da polícia, neste momento, é meticuloso. Ainda não é possível afirmar se foi crime político, passional ou motivado por uma dívida?. Ex-deputado rebate acusações O ex-deputado federal e ex-prefeito de Pilar, Carlos Alberto Canuto, atribui todas as acusações contra ele a uma manobra política, garante ser amigo da família Campanha e cobra empenho da Justiça para não deixar o caso impune. ?Este assassinato não pode ser mais um como tantos outros que aconteceram em Pilar e ficaram sem solução até hoje, como o do Fernando da Banda ou do Pedrinha, que eram ligados ao nosso grupo político?, diz Canuto. Questionado sobre denúncias de que teria induzido o delegado Barros a cometer erros no inquérito, Canuto volta a falar sobre manobra dos adversários. ?Não passa de questão política, essas conversas surgem quando vai se aproximando a eleição, sempre tive uma amizade com o Beto Campanha e toda a família dele. Se estão falando que a primeira investigação foi equivocada, deve haver agora uma apuração mais séria, para não ter impunidade?.