Polícia
Claro que tenho medo, mas sou m�e
Ex-empregada doméstica, desde que o filho mais velho foi embora, não teve mais chance de trabalhar. O primeiro marido morreu de leptospirose e o pai dos mais novos deixou a família. Os pequenos nunca foram para a escola. Água, luz e aluguel estão com três meses de pagamento atrasado. A ameaça de despejo é outra preocupação. Cleonice sente vergonha de dizer que a comida das crianças vem da esmola. Tudo que quer é se mudar da casa onde mora, em frente à de traficantes. Semana passada, foi ao Ministério Público Estadual pedir socorro. Informada que o caso era da polícia, seguiu para a delegacia. Mas para iniciar investigação, tem que assinar um Boletim de Ocorrência, documento que ela sabe bem, pode significar o próprio atestado de óbito. ?Eu até assino, mas primeiro tenho que me mudar. Se eles sonharem que estou buscando ajuda da polícia, eles derrubam a minha casa com todo mundo dentro?. Perguntada se os traficantes teriam coragem de eliminar uma criança, ela diz que as dela não seriam as primeiras. ?Por incrível que pareça, quando estou assim, na rua, mesmo para pedir ajuda, me sinto aliviada. Quando é hora de voltar para casa, sinto o coração apertar?. Se é vista saindo de casa, tem que explicar direitinho para onde vai e o que vai fazer. ?Sempre digo que vou buscar comida. Saio mais quando a casa dos traficantes está fechada?. Quando volta, também é interrogada. Além dos filhos, o medo é o único companheiro. CS