Polícia
Nas ruas e becos de Macei� explode a viol�ncia
ROBERTO VILANOVA Na Ponta Verde, dois oficiais da Polícia Militar foram assaltados e perderam as armas; em Cruz das Almas, um escrivão da Polícia Civil foi assaltado e perdeu o carro; no Farol, a filha de um juiz de Direito, com 13 anos de idade, foi assaltada e levou um tiro nas costas ? a violência em Maceió está disseminada e o poder público dá sinais de que perdeu a guerra. Essa é a constatação, quando se analisa os números da violência engrossando as estatísticas das ocorrências policiais na capital alagoana ? uma das menores do país, mas com índices de cidade grande. Para explicar a falência do poder público, o sociólogo e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luiz Sávio de Almeida, foi buscar ilustração na citação do escritor Bertold Brecht ? segundo o qual todos questionam a violência do rio, sem discutir a distância entre as margens. ?Todos se queixam da violência, sem discutir a pressão social causada pelo desemprego, pela falta de oportunidade e até de reestruturação da cidade. A violência de hoje é conseqüência de tudo isso: Maceió, que começou a expansão urbana na década de 1950, deveria ter sido repensada na década de 1960?, ensinou. Ruptura Orientador de vários trabalhos de mestrado e doutorado em Estudos Sociais na Ufal, o sociólogo, que foi secretário da Educação na década de 1970 (governo Afrânio Lages), comparou a citação de Brecht com a realidade de Maceió. ?Outro dia me apresentaram um trabalho sustentando que Maceió tem quarenta e nove favelas e eu disse que Maceió toda é uma favela, cercada por ilhas de riquezas. Não podemos culpar as administrações atuais, nem mesmo a administração anterior, porque esses problemas têm causas antigas. Uma delas é que a cidade não foi repensada, como deveria, na década de 1960?, completou. ?Brecht mostrou que o rio só é violento quando o canal por onde escorre é estreito. Se aumentar a distância entre as margens, o rio correrá manso, tranqüilo, ou seja, deixará de ser violento. Enquanto isso não ocorre, o rio continuará buscando passagem pelo caminho mais fácil e mais rápido. Isto quer dizer que poderá haver uma ruptura social com conseqüências imprevisíveis. Eu não estou dizendo que poderá haver uma guerra civil, mas entendo que do mesmo modo que o rio vai procurar o seu curso, a pobreza e a miséria também vão procurar a saída para os seus males?, observou. Vivendo do lixão Sávio apontou o exemplo do lixão, que provoca sérios problemas ambientais em Maceió e, ao mesmo tempo, é a única fonte de renda para várias famílias. ?Um dos meus alunos fez uma pesquisa no lixão e comprovou que as famílias dali têm uma retirada média mensal de quatrocentos reais. Precisam do lixão para sobreviver. Onde poderiam ganhar igual? Veja também o exemplo de um pedinte que consegue uma retirada de nove reais por dia. São duzentos e setenta reais por mês!?, completou. O sociólogo mostrou que a miséria acaba mostrando o caminho para essas famílias buscarem o sustento. Mas ele chama a atenção para o risco de se atribuir à miséria e à pobreza toda a responsabilidade pela violência urbana que vem crescendo em Maceió. ?A violência tem duas vertentes: uma psicológica e a outra social. Mas é preciso que a sociedade fique alerta para não radicalizar em cima da pobreza, ou seja, considerá-la como causa da violência?, observou, indagando o que é mais violento: o ato de um cidadão que rouba uma galinha para matar a fome da família ou daquele cidadão que roubou o Produban (Banco do Estado de Alagoas). ?Onde está a verdadeira violência? Essa é a questão fundamental?, disse. Os sem Quando se refere à falência do poder público, o professor Sávio Almeida cita os exemplos das Polícias Civil e Militar ? uma continua com a orientação recebida durante os governos militares e a outra que nunca conseguiu desempenhar a função de Polícia Judiciária. Além disso, tem o problema da falta de estrutura e de condições de trabalho. ?Em 1997, um policial me pediu dinheiro para colocar combustível na viatura e fazer uma diligência. Acredito que a situação não mudou muito de lá para cá?, destacou. Sávio foi enfático: ?Enquanto houver os sem-teto, sem-terra, sem-emprego, sem-saúde e os sem-educação, a violência permanecerá fora do controle oficial. Esse processo, para o sociólogo, é natural, considerando-se que os indicadores sociais negativos alimentam a violência. ?Evidentemente que a solução para esses problemas passa pela função social da propriedade, pela melhor distribuição de rendas, além da saúde e educação. Hoje, a distância entre o poder aquisitivo da classe pobre e da classe rica é muito grande. Precisamos encurtar essa distância, para reduzir as desigualdades?, completou.