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Grotas se levantam contra crime organizado

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MARCOS RODRIGUES As grotas quebram o silêncio. Pela primeira vez na história do combate ao crime organizado, as vítimas mostram a cara e abrem o jogo. É o que vem acontecendo nas áreas da periferia de Maceió, que há uma semana vêm sendo visitadas por vereadores da Comissão Especial que investiga a violência e o tráfico de drogas. O presidente da Comissão, vereador Marcos Alves (PSB), está surpreso com a facilidade de encontrar depoimentos tão reveladores sobre o esquema de matança com a conivência do aparelho de segurança estadual. Além dele, fazem parte do grupo os vereadores George Sanguinetti (PSDB) e Thomaz Beltrão (PT), que será o relator. Esta semana o vereador Jorge VI poderá substituir Joab Nicácio (PTB), que foi indicado, mas não compareceu a nenhum atividade da equipe. ?Encontrei um jovem de aproximadamente 20 anos que detalhou sem receio algum que no conjunto Carminha ele mata e depois chama a polícia para recolher os corpos. Eles agora estão apurando, julgando e executando?, disse o vereador. Ele acredita que já está se criando um Estado paralelo com tribunais de execução. Há três semanas Alves, em plenário, chegou a pedir intervenção federal para a área de segurança pública do Estado. Seu discurso provocou uma crise dentro do governo, principalmente porque o vereador é do mesmo partido do governador Ronaldo Lessa (PSB). O vereador afirmou que o fato de ser do PSB poderá dar mais credibilidade ao relatório que será produzido nos próximos quinze dias quando forem concluídas as visitas aos bairros da periferia. ?Eu acredito que faremos um bom trabalho e com credibilidade, porque atuamos independentemente da questão partidária. O que queremos é ajudar o governo e a população. Para mim já está identificado qual o problema, é a ausência do policial na periferia?, completou o vereador. Testemunha Ele, juntamente com os outros membros da comissão, iniciou, na semana passada, visitas e reuniões com moradores do complexo Benedito Bentes que engloba os conjuntos Freitas Neto, Selma Bandeira e Carminha. Em todas as áreas o grupo encontrou vítimas da violência que não suportam mais serem coagidas por ?gangues de traficantes? e pistoleiros ligados ao crime organizado. O mais importante foi a descoberta de um jovem que revelou um esquema de roubo, tráfico e receptação. Por motivo de segurança, o rapaz foi ouvido com capuz. Ele é até agora a principal testemunha de como age o crime organizado. Segundo o rapaz, os jovens vêm sendo aliciados a integrarem gangues de traficantse e de assalto, as chamadas galeras. ?Eu trabalhei para um grupo desde que era menor e tive acesso a drogas e também roubava?, contou o rapaz. Um detalhe que chamou a atenção dos vereadores durante o depoimento foi como esquema envolve pessoas de fora das grotas. A Comissão preferiu não revelar nomes dos citados no depoimento do ?encapuzado? para não tirar o peso do conteúdo do relatório que será entregue ao governador Ronaldo Lessa, ao Ministério Público e à Secretaria de Segurança. ?Os dados são estarrecedores principalmente porque atualmente envolvem até menores?, adiantou o relator da comissão Thomaz Beltrão. Na periferia, os jovens de galeras levam o medo e o terror. As vítimas são desempregados que têm como único bem um imóvel doado pela prefeitura. ?Se eu viajar para visitar parentes e ficar três dias fora de casa, quando chegar encontrarei pessoas morando dentro de minha casa e não poderei fazer nada?, revelou o desempregado Damião Freitas da Silva, 35, pai de uma filha. Mesmo com medo ele confirmou que é comum encontrar pessoas armadas circulando pelo conjunto, principalmente no período da noite. Geografia As grotas são realmente um dos locais de maior exclusão da cidade. A geografia do lugar contribui para a atuação das gangues. São morros que convergem para baixo de difícil acesso, onde o esgoto sanitário formam lagos e as casas uma espécie de labirinto, com pequenas passagens chamadas vielas por serem estreitas. Para o arquiteto Dilson Batista esses fatores contribuem para um empobrecimento nas relações das pessoas. ?A ausência de espaços de lazer provoca o convívio forçado por conta das necessidades básicas, mas também atrai naturalmente outro fator: a violência?, analisa. É assim em todas as 66 grotas catalogadas pelo Movimento de Humanização das Grotas (MHG), nascido em dezembro. Ao todo estima-se que pelo menos 300 mil pessoas vivam nestas condições. Ainda assim o movimento não pretende sair dos locais, mas humanizá-los. Segundo o vereador Marcos Alves que acompanhou o nascimento do movimento, os moradores não querem deixar os locais, mas sim fazer com ele funcione com o mínimo de estrutura. Para Marcos Correia dos Santos, morador do Vale do Reginaldo, uma das maiores grotas da cidade, o MHG quer conquistar espaço de reivindicação organizada junto ao poder público. ?Nós vivemos a margem de uma série de coisas. Falta tudo. Escola, saúde, segurança e emprego. Quem mora na grota é porque não conseguiu nada melhor em outro lugar. Além disso tem muita gente que só mora lá porque veio do interior tentar a vida por aqui. Não só tem bandido como muitos pensam. E os que existem só estão lá porque o local os ajuda a se esconder?, explicou Marcos, que é integrante do movimento. Ele disse ainda que o ?povo das grotas? quer espaço para ser ouvido pelas autoridades. Social No caso dos moradores do Carminha, Freitas Neto, Selma Bandeira e da Favela de Lona a maioria vivem sem trabalho. Eles foram retirados de favelas localizadas no Jaraguá, Vergel do Lago e Dique Estrada. Segundo a presidenta da Associação Nice da Silva, apenas 100 pessoas no universo de 1.500 adultos têm emprego fixo. ?O restante vive de bicos ou ajuda de parentes?. O resultado é a presença maciça de pessoas nas ruas sem fazer nada. Além dos bicos, como alternativa de sobrevivência uns trabalham para políticos durante os períodos de campanha outros se agregam a igrejas evangélicas que oferecem alimentos. Um exemplo é Jaílson do Nascimento dos Santos, 25, pai de dois filhos. ?Me encontro desempregado e sobrevivo da graça de Deus e da ajuda da igreja. Sou evangélico e vivo sem vícios por isso tenho ajuda?, confessou o morador do Conjunto Jornalista Freitas Neto. Um outro morador do conjunto acredita que o maior problema é a falta de opção de renda. ?Nós não temos como conseguir sobreviver. Se precisar descer tem que ter pelo menos R$ 2,50. Lá na beira da Lagoa pelo menos quando estávamos com fome a pesca dava para garantir o sustento?, argumentou Manoel dos Santos Silva, 47, que também está sem emprego. O vereador George Sanguinetti confirmou a falta de planejamento na transferência dos moradores para a parte alta da cidade. ?Entendo como se a cidade tivesse afastado do centro os mais pobres. Eles foram jogados nestes conjuntos distantes, sem infra-estrutura, sem uma coleta de lixo, sem escola, sem transporte e o mais importante, sem emprego. São quase conjuntos rurais. É claro que vai proliferar a marginalidade. Não se pode falar em combater a criminalidade sem se resolver estas situações?, avalia o vereador. Continuidade A continuidade das visitas dos trabalhos da Comissão Especial poderá revelar ainda mais detalhes e principalmente soluções. Os vereadores querem concluir o relatório até o fim do mês. Uma das certezas do grupo é quanto à necessidade da intensificação da polícia. O vereador Sanguinetti, ex-coronel da PM, defende a volta das subdelegacias nos bairros, bam como a presença de viaturas. Indagado sobre a segurança paralela montada em alguns conjuntos, ele disse que ninguém além do Estado tem essa função. ?Soubemos que, nos conjuntos do deputado cabo Luiz Pedro, a violência diminui quando ele está presente, mas isso não é atribuição do deputado. Isto deturpa o papel do Estado e também do deputado?. O relatório final agregará todos os casos de crimes insolúveis na capital.

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