Polícia
Testemunhar pode ser indicativo de morte
Se depender da preservação de testemunhas para desmantelar, Alagoas será sempre refém do crime organizado. As pessoas que ajudaram a polícia a esclarecer os casos mais rumorosos registrados no Estado foram assassinadas, algumas delas às barbas da polícia, em assassinatos anunciados. É, por isso, que a maioria das testemunhas preferem respeitar a Lei do Silêncio, deixando nas mãos da família das vítimas o risco de divulgar os responsáveis pelos homicídios. Nos últimos dez anos, as ocorrências de mortes de testemunhas se sucedem. O servidor público Valmir da Silva, que colaborou com o delegado Mário Pedro, designado pela então Secretaria de Segurança, para apurar a execução do delegado Ricardo Lessa, então diretor do Departamento de Polícia da Capital (Depoc), foi assassinado quatro anos depois, logo após depor na Justiça, com quase uma dezena de tiros, quando se encontrava numa barraca, localizada na orla da Lagoa Mundaú, no Dique Estrada, bairro do Vergel do Lago. Outra testemunha da morte do delegado, o funcionário da SSP, Cícero Carlota, filho do segurança de Ricardo, também assassinado no atentado de outubro de 1992, apontou como envolvido no duplo homicídio um grupo de militares que seria liderado pelo então major Manoel Francisco Cavalcanti. ?Carlotinha?, como era conhecido, morreu em 1997, após ser perseguido e baleado, por dois pistoleiros, nas imediações do Mercado da Produção, no bairro da Levada. Após a desarticulação da ?gangue fardada?, ocorrida em 1997, uma testemunha, o caseiro Cristóvão dos Santos, chamou a atenção da Justiça, por ter tido a coragem de afirmar, em depoimento, que o oficial da PM Manoel Cavalcanti era receptador de veículos roubados, fato que levou o militar a uma pena de mais de 20 anos de prisão. A testemunha não chegou a ver o militar ser condenado, pois foi morto, com mais de uma dezena de tiros, dentro de um bar, em Santana do Ipanema. A morte do ex-chefe de Arrecadação do Estado, Sílvio Vianna, poderia ter se tornado mais um crime misterioso em Alagoas, caso o vigilante Ebson Vasconcelos se mantivesse calado. Ele quebrou a ?lei do silêncio?, revelando dados significativos como o envolvimento do fazendeiro ?Fernando Fidélis? e do ex-tenente coronel Manoel Francisco Cavalcante, de quem era amigo, como suspeitos do crime. ?Eto? teve segurança da Polícia Federal até deixar Alagoas em 2000, indo embora para São Paulo. No ano passado, ele precisou retornar ao Estado para resolver problemas particulares. Não passou dois meses, foi assassinado com mais de cinco tiros de revólver e pistola, num trecho da Rua Barão de Alagoas, defronte da Igreja de São Benedito, em pleno centro de Maceió. Até hoje, ninguém sabe quem cometeu o homicídio. Testemunhar nunca parece uma atitude sensata, em Alagoas. O eletricista José Joaquim denunciou à Justiça ter sido torturado dentro da carceragem da Delegacia do 1º Distrito, logo após ser preso como suspeito da matar um policial, identificado como Melo. Ele chegou a ser levado ao presídio como acusado do crime, mas foi colocado em liberdade pela Justiça. Em menos de um semana, ele passou da condição de torturado para executado. Ele foi morto com mais de uma dezena de tiros dentro de sua residência, em Ponta Grossa, crime ocorrido em 1999. Chacina Uma chacina ocorrida na Praça Arnon de Mello, no Farol, que revoltou a população maceioense, parecia esclarecida, após as declarações à polícia de Isaura Maria José dos Santos, 25, que escapou por milagre do atentado, onde morreram quatro pessoas, a maioria adolescentes. Ela deveria ser ouvida este mês pela Justiça, mas não chegou a depor, pois teve sua residência, no Pinheiro, invadida por um homem, não identificado, e foi morta com vários tiros. A testemunha apontava militares como suspeitos do crime, inclusive tendo revelado o soldado Ronaldo como cúmplice do crime. No Jardim das Acácias, no Farol, outra chacina trouxe revolta à população pela forma cruel como foi praticada. Homens, armados de pistolas 380, invadiram uma videolocadora atirando. Mataram o proprietário Henrique Gonçalves de Albuquerque Santos, 25, além dos menores Pedro Luiz Lessa Costa da Silva, 15, e Luiz Felipe Araújo Soares, 15, deixando outros três adolescentes feridos. Nas investigações, a polícia descobriu que o alvo do atentado era Henrique, o dono do estabelecimento. Os motivos: ele era testemunha de um assalto e tinha apontado à polícia como suspeito um traficante, identificado como José Bento de Souza, o ?Tico?, que teria deixado o presídio São Leonardo, e comandado pessoalmente a chacina. Além do detento, outros três acusados foram presos e estão indiciados no inquérito que apura o caso.