Polícia
Caso Juliana: crime mexe com poder político-econômico
REGINA CARVALHO Repórter Murici - Medo, revolta, pressão política e força do poder econômico foram incorporados a uma investigação policial em Murici. O alvo de apuração da Polícia Civil foi um crime que atingiu uma família pobre, moradora de uma das áreas mais humildes do município, mas o caso ganhou repercussão porque acabou envolvendo políticos, empresários, remanejamento de delegados, tentativa de suborno e ainda denúncias de maus-tratos dentro da delegacia. Hoje faz três meses do desaparecimento da adolescente Juliana Cassiano da Silva, de 16 anos, que saiu de casa no dia 10 de abril, um domingo, e foi encontrada morta dois dias depois. O caso foi investigado inicialmente pelo delegado Robson Coutinho, que, durante dois meses de investigação, não conseguiu apontar os culpados pela morte da jovem. O novo titular da delegacia, Élvio Alves Brasil, encerrou o inquérito policial na última quinta-feira, pedindo a prisão preventiva de Fausto Cardoso Batista Neto e Jadson Cansanção da Silva. Eles são respectivamente sobrinho e funcionário do bicheiro Plínio Batista. Para a família de Juliana restaram a saudade e a revolta. Enquanto olha uma foto antiga, Carmem Cassiano, 28, lembra alguns momentos de convivência familiar e a personalidade da sua irmã caçula. Ela era uma pessoa tranqüila e obediente. Quando mãe não deixava, ela não saía de casa sem autorização. O sonho da Ju era ser dançarina. Gostava muito de dançar, contou a irmã de Juliana, que cursava a 6ª série, na Escola Municipal Juvenal Lopes Omena, em Murici. O delegado Élvio Alves mostrou os depoimentos e diz por que pediu a prisão de Faustinho e Jadson. Pelos depoimentos das testemunhas ficou claro que eles eram violentos com as mulheres. Agressivos mesmo, principalmente quando bebiam, destacou o delegado. Uma das testemunhas, Lidiane Silva, 24 anos, disse ao delegado que namorou com Faustinho e foi vítima de espancamento por várias vezes. Ela contou que além de espancada, foi ameaçada de morte. Lidiane disse ainda que era mordida em várias partes do corpo com muita força por Faustinho, relatou Élvio Alves. Principal testemunha, amiga de Juliana e última pessoa a vê-la, Rita de Cássia dos Santos saiu da residência onde morava e os vizinhos não sabem dar informações sobre seu novo endereço. Para os parentes de Juliana, ela foi uma das maiores responsáveis pela morte da adolescente. Elas eram muito amigas. Lavavam roupas juntas no rio Mundaú e trocavam confidências, conta Carmem Cassiano da Silva, irmã da vítima. José Petrúcio da Silva é mais enfático. Tenho certeza de que ela foi obrigada a entrar no carro de Fausto. Acredito totalmente no envolvimento de Rita nesse caso, acrescenta o irmão de Juliana. Para a polícia, houve a consumação do crime porque provavelmente Juliana haveria ameaçado contar que teria sido vítima de estupro pelos acusados. O corpo de Juliana foi encontrado dois dias após o seu desaparecimento, boiando no Rio Mundaú. O delegado mostra a foto da vítima feita pela perícia criminal, onde fica nítida na imagem uma toalha envolvendo o pescoço, um olho ferido e escoriações em um dos seios. A conduta de Juliana somente é questionada por parentes de Faustinho. Para a família e alguns amigos, ela era uma adolescente tranqüila. ### Testemunha teria sido espancada por saber demais De acordo com informações apuradas na delegacia de Murici, um chefe de serviço que já foi remanejado do cargo teria espancado uma das testemunhas do crime, Josivaldo José da Silva, o Tuta, de 19 anos. As informações dão conta de que Tuta teria ido à delegacia para prestar depoimento sobre o desaparecimento de Juliana Cassiano da Silva. Ele falou ter visto o momento em que a jovem foi empurrada para dentro do carro de Fausto Cardoso Batista Neto, o Faustinho. O motivo do espancamento seria porque a testemunha sabia demais. Com medo, num segundo depoimento prestado à polícia, dessa vez ao delegado Élvio Alves Brasil, Tuta negou tudo. Inclusive, que teria visto Juliana sendo coagida a sair com o acusado. Ele sumiu da cidade logo depois. A lei do silêncio impera em Murici. Embora revoltados com o crime, moradores evitam falar sobre o assunto. Foi um absurdo o que fizeram com essa menina. Tenho medo de falar sobre esse assunto. Quem aqui não tem?, disse um aposentado de 66 anos, morador da cidade há quase três décadas. Acusação O promotor de Justiça da Comarca de Murici, Napoleão Franco, confirmou que recebeu na última quinta-feira o inquérito policial que apurou o assassinato de Juliana e terá 15 dias para oferecer a denúncia ou pedir novas diligências. Na última sexta-feira, quatro promotores e o presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Alagoas, Everaldo Patriota, ouviram a principal testemunha do caso, Rita de Cássia dos Santos. Escolhemos um local, em Maceió, para que pudéssemos ouvi-la tranqüilamente. Convocamos a testemunha porque ela prestou dois depoimentos contraditórios, informou o promotor. Napoleão Franco não quis entrar em detalhes sobre o inquérito. Comecei a ler, mas não posso tirar uma conclusão agora porque ainda é cedo e também para não atrapalhar o Ministério Público. Quero analisar o inquérito com muito cuidado, acrescentou. RC ### Isso é uma artimanha política Para o pai de Faustinho, o ex-vereador Fausto Cardoso, sua família está sendo vítima de perseguição política. Eu e a maioria do povo daqui acreditamos que isso é uma artimanha política. Todo o processo foi conduzido de forma a incriminar meu filho. Na verdade eles [grupo político rival] querem que a gente vá embora de Murici. Mas aviso que não vamos sair daqui, declarou Fausto Cardoso, que foi candidato a prefeito, mas derrotado nas últimas eleições. Fausto Cardoso disse ainda que depois do ocorrido, Faustinho sai pouco de casa, mas que no momento não está em Murici. Quando começou essa história conversei com ele, mas a todo tempo meu filho negou o crime. Tinha mais de 20 pessoas no bar, mas somente ele foi apontado como acusado. Meu filho sempre foi um menino tranqüilo, nunca andou sequer armado, contou. Sobre as supostas ameaças denunciadas pela família de Juliana, o ex-vereador nega. Não estamos ameaçando ninguém. Isso tudo é conversa. A Rita foi coagida a dizer que a menina tinha saído com meu filho. O delegado disse que houve contradição no depoimento de Faustinho, mas isso não aconteceu, completa o pai. A mãe de Juliana, Cícera Cassiano da Silva, denunciou que um homem ligado a Fausto Cardoso, identificado como Bira, lhe ofereceu R$ 5 mil para que ela não levasse adiante as denúncias. O pai de Faustinho nega que tenha mandado alguém oferecer dinheiro e disse que sequer conhece o Bira. Bira confessou que ofereceu dinheiro a Cícera, mas que não tinha sido por ordem de Fausto, mas por iniciativa própria, para que ela arrumasse a cova da filha. Ele procurou a família de Juliana, na última sexta-feira, dando início a uma discussão. |RC ### Investigação foi marcada por protestos Juliana Cassiano da Silva desapareceu num domingo 10 de abril. Na segunda-feira, parentes da jovem resolveram ir à delegacia informar o desaparecimento da garota. O delegado pediu que eles esperassem mais um pouco. Na manhã de terça-feira, dia 12, um corpo apareceu na margem do Rio Mundaú. Apesar de o corpo estar muito deformado, o primo de Juliana, José Firmino da Silva, o reconheceu. Vi que era ela, não tive dúvida em nenhum momento, relatou Firmino, emocionado. Técnicos do Instituto Médico Legal (IML) Estácio de Lima emitiram atestado de óbito em que constava que Juliana havia morrido por asfixia em decorrência de afogamento. O delegado que abriu o inquérito, Robson Coutinho Medeiros, do 3º Distrito de Polícia de Murici, disse, na época, que o fato de o corpo estar em avançado estado de decomposição acabou impedindo uma avaliação mais precisa da causa da morte. Fausto Cardoso Batista, mais conhecido como Faustinho, foi citado por testemunhas como uma das pessoas que tiveram contato com Juliana. Ele foi ouvido pelo delegado e confirmou que conhecia a vítima e apenas havia dançado com ela. Ele negou que tivesse relacionamento com Juliana e foi liberado pelo delegado. Ele não será investigado porque comprovou que estava em casa dormindo, disse Coutinho na ocasião. Protesto O crime chocou a cidade e mudou a rotina dos moradores de Murici. Na tarde do dia 16 de abril, parentes e amigos de Juliana fizeram manifestação na frente do prédio da delegacia. Munidos de faixas e cartazes, moradores pediram justiça. A família voltou a fazer novos protestos até que o delegado do caso foi substituído. Em seu lugar, assumiu Élvio Alves Brasil, que, após tomar novos depoimentos e solicitar um novo laudo criminalístico, encerrou o inquérito policial na última quinta-feira, pedindo a prisão preventiva de Fausto Cardoso Batista Neto e Jadson Cansanção da Silva. O novo laudo deixou explícito que a jovem foi estrangulada com uma toalha e que ela foi jogada no rio ainda com vida. Segundo o delegado, Faustinho entrou várias vezes em contradição durante depoimento. A prisão dos dois jovens foi solicitada à juíza Aída Antunes, que só deve se posicionar depois que o Ministério Público acatar ou não a denúncia feita pelo delegado.|RC