Polícia
Secretário defende bico e afirma que prática é comum
EDNELSON FEITOSA Repórter O secretário de Defesa Social, delegado Robervaldo Davino, não esconde: é a favor do bico. Um dinheirinho a mais não faz mal a ninguém, desde que seja honesto, diz. Segundo ele, isto não depende de se ganhar pouco ou muito. O secretário não tem idéia de quantos policiais em Alagoas ganham dinheiro extra. No entanto, adverte que não são apenas os policiais que fazem bico. Existem funcionários públicos de todos os níveis e de todas as instituições que têm outra atividade sem qualquer tipo de problema, disse ele. Para Robervaldo Davino, desde que não esteja cometendo crime, é normal. Se ele exercer sua atividade dentro da corporação com dignidade, eu não tenho nada contra. Prisão A prisão de seis policiais alagoanos, cinco militares e um civil, quando faziam segurança para sacoleiros em viagem para Caruaru, iniciou o debate sobre a questão do bico ser ou não legal. Eles foram presos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), na madrugada da última segunda-feira, na cidade de Cachoeirinha, no Agreste de Pernambuco, a 174 quilômetros do Recife. Os policiais foram acusados de fazer escolta clandestina e de portar grande quantidade de armas e de munição. O policial civil Sérgio Costa e os militares Givanildo Santana, Sérgio Barbosa, Ailton Izídio da Silva, Jair Gouveia e Adriano Jorge dos Santos faziam a escolta de 10 veículos - ônibus e vans - de Alagoas para compras no Agreste pernambucano, principalmente em Caruaru. Eles já estão em liberdade. Trabalho arriscado O secretário de Defesa Social considera arriscado um policial sair de Maceió para trabalhar numa escolta em pleno Sertão nordestino. No entanto, alertou que não é significativo o número de acidentes envolvendo policiais realizando outros serviços. É verdade, que é igualmente perigoso quando ele trabalha como segurança, comentou Davino. No ano passado, um sargento da Polícia Militar foi morto na porta de um mercadinho, localizado na Ladeira do Calmon, no bairro de Bebedouro, por dois assaltantes. No último dia 27 de junho, o soldado PM José Carlos também foi executado por bandidos na feirinha do bairro do Tabuleiro do Martins. Ele fazia a segurança de um supermercado, atacado por assaltantes. ### Fazer bico não é crime, diz secretário Pela legislação, segundo o secretário Robervaldo Davino, um servidor público só não pode fazer parte como sócio de uma empresa. Eu desconheço outros casos, admitiu ele. Fazer bico não prevê processo criminal, pois não é crime. No máximo, existe um procedimento administrativo. Não é o caso de demissão sumária, pois o suposto infrator tem amplo direito de defesa. Ele informou que não existe nenhum policial civil ou militar sendo investigado atualmente pelas corregedorias das duas instituições por realizar um serviço extra. Para se abrir um processo administrativo é preciso que haja denúncia e ele não se recorda nos seus vários anos de polícia de uma queixa sequer, em virtude de um policial estar fazendo bico. Efetivo insuficiente Na opinião do secretário de Defesa Social, Robervaldo Davino, o efetivo das duas polícias, pouco mais de dez mil homens, não é suficiente para garantir a segurança pública no Estado. Ele anunciou que já existem estudos no sentido da realização de novos concursos para as polícias Civil e Militar; bem como para o Corpo de Bombeiros. Estaremos recebendo em breve os policiais temporários e assim teremos mais 600 homens da PM nas ruas, revelou ele. Os policiais temporários vão assumir funções burocráticas. Robervaldo Davino destacou que, apesar de pequena, a distribuição de pessoal é feita de forma eqüitativa dentro das possibilidades do efetivo. Hoje existem delegacias e Grupamento de Polícia Militar (GPM) em todos os municípios, inclusive nos menores. No começo da década de 90 havia cidade que não tinha equipes da Polícia Civil e todo trabalho de segurança era feito pela PM. Bico oficial Questionado se existe algum tipo de projeto direcionado à polícia para prestar serviço remunerado por empresários, um bico oficial, como ocorre em estados norte-americanos, onde os policiais trabalham em horário de folga e ganham horas extras, chegando a dobrar o salário, Davino garantiu que não tem, nem terá enquanto for secretário. Uma experiência no passado, quando militares davam apoio aos veículos de transporte de valores em viagens ao interior do Estado, demonstrou que a eficiência é duvidosa e terminou após denúncias de irregularidades na aplicação dos recursos. Hoje, as empresas estão autorizadas a realizar este tipo de escolta. O secretário destacou que acha melhor que o servidor público consiga uma renda extra de forma honesta do que como aconteceu no passado, quando policiais ganhavam dinheiro matando e roubando, a exemplo de inúmeras quadrilhas desarticuladas pela própria polícia como as gangues fardada e da pistolagem. Esta semana, o presidente da Associação de Cabos e Soldados de Alagoas, Wagner Simas, disse que a entidade dispõe de um documento onde o diretor-geral da Polícia Civil, Roberto Lisboa, teria autorizado os policiais a fazerem bico, ou seja, a escolta de sacoleiros até Caruaru. Lisboa reagiu e disse que o documento apresentado pela associação é falso. Já o comandante-geral da PM, coronel Edmilson Cavalcante, assegurou que os policiais não tinham autorização dele para realizar escolta e podem ser punidos administrativamente. EF ### Baixo salário é justificativa para extras Apesar de proibido, o chamado bico é comum dentro das polícias Civil e Militar. E a explicação é a mais lógica possível. Com salários baixos, obter renda extra se tornou uma questão de sobrevivência para aqueles que deveriam estar preparados para combater a criminalidade. Mas a realidade é outra. Alguns passam fome; outros tentam até o suicídio para fugir de credores. Na última segunda-feira, dia 18, a sociedade alagoana assistiu à prisão de seis policiais do Estado, em território pernambucano, fazendo a escolta de dez ônibus fretados por sacoleiros oriundos de Arapiraca e Penedo. A população se diz indefesa nas rodovias. Muitos fazem o percurso todas as semanas e temem assaltos e mortes. Há mais de um ano os passageiros resolveram pagar um grupo de policiais para acompanhar os ônibus. Espera e frio A caminho da feira da Sulanca de Caruaru, onde os alagoanos são responsáveis por cerca de 40% do movimento, os policiais foram surpreendidos pela Polícia Rodoviária Federal de Pernambuco. A viagem parou da zero às cinco horas da manhã. Algemados e num frio de 10 a 15 graus, eles tiveram que esperar na rodovia a chegada de uma outra equipe de policiais, esses de Sergipe, também fazendo bico, acompanhando sacoleiros. Armas e munições foram encontradas com os dois grupos. Os alagoanos portavam armas próprias registradas pelo Sistema Nacional de Armas (Sinarm) e conduziam carros particulares. Já os sergipanos usavam armas da Secretaria de Segurança Pública, um carro clonado com placa de São Paulo e transportavam um carregamento de DVDs piratas no porta-malas de um dos veículos. Trinta e seis policiais de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte foram alocados para executar a operação batizada de De Olho na Rota. O alvo, segundo Eder Rommel, chefe da operação, eram traficantes de produtos do Paraguai. Os policiais não podem usar armas em outros estados, nem realizar atividades extras sem autorização do comando, disse, justificando a prisão dos 19 policiais, entre eles, seis alagoanos. Após pagamento de fiança - R$ 300 cada - os policiais foram liberados. Na madrugada de quinta-feira, dia 21, eles chegaram em Maceió e na mesma manhã se apresentaram ao comando da Polícia Militar. Eles, além de inquérito policial por porte ilegal de armas, vão responder a processo administrativo dentro da polícia. CS ### O que tenho consegui fora da polícia Formado em Engenharia Agrônoma há 14 anos pela Universidade Federal de Alagoas, foi o desemprego que fez Sérgio Costa Cavalcante entrar para o quadro da Polícia Civil. No concurso público de 2001, concorreu com 2.500 candidatos e conseguiu preencher uma das 840 vagas ofertadas. Entre os concorrentes, 70% tinha curso superior. Antes, tentou ser comerciante, mas a crise econômica de 1997 levou à falência um mercadinho que mantinha no Feitosa. Tentou alugar carros, mas as despesas com multas e manutenção eram grandes e o lucro, quase nenhum. Nunca tive problemas com ninguém, não tenho a índole ruim, disse. Ele é um dos policiais alagoanos que ficaram presos por três dias em Pernambuco. Todos os outros policiais que estavam comigo são homens de bem. Estavam trabalhando para sustentar a família com dignidade, garante. Casado e pai de dois filhos adolescentes, o agente Sérgio Costa recebe cerca de R$ 700 líquido. Desafio qualquer um a manter uma família com um salário desses. Com carro e casa própria, ele afirma: Nada do que eu tenho hoje veio do salário como policial. Sérgio reconhece que errou por não estar informado sobre a legislação. Ele está respondendo a um processo criminal por porte ilegal de arma. Eu não sabia que, apesar de ser policial e estar com a minha arma regularizada, não poderia transitar em outro Estado, diz. É um absurdo. Conheço policiais que trabalham em Alagoas e moram em Recife. Eles vão ter que se desarmar para voltar para casa?, questiona. O policial vai responder ainda a um processo administrativo por estar fazendo bico sem autorização do diretor-geral da Polícia Civil. De férias, Sérgio Costa quis aproveitar a folga para complementar a renda. Já havia participado de duas escoltas e em nenhuma encontrou problemas. Tudo foi muito constrangedor. Minha família soube pela imprensa. Minha mãe está sofrendo demais com tudo isso. Há cerca de um mês, o irmão de Sérgio faleceu quando uma árvore caiu sobre o carro que dirigia, no Tabuleiro do Martins. A cunhada de Sérgio também estava no veículo, foi levada às pressas para o hospital e conseguiu sobreviver. Todo mundo tem conhecimento dos freqüentes assaltos na região de Caruaru. Estávamos dando suporte a essas pessoas, correndo o risco de não voltar para casa, relata Sérgio. Se tivesse dado certo, a escolta iria render para ele R$ 250 já que viajou com seu carro e se responsabilizou pelo combustível. Os demais receberiam em torno de R$ 80. Sérgio disse que se sente bem promovendo a segurança. Mas vou me preparar para outro concurso e deixar a polícia o quanto antes. |CS