Polícia
Companheiro leva mulher para o tráfico
| NIVIANE RODRIGUES Repórter Uma denúncia anônima leva a polícia a invadir a casa, na Chã do Pilar. No lugar, mãe e filha são presas acusadas de tráfico de drogas. Enquanto as mulheres são conduzidas para a delegacia do município, o marido foge pulando o muro da casa vizinha. Envolvido com tráfico, ele deixa na casa a prova do crime contra a própria esposa e a filha: 290 gramas de maconha e 77 comprimidos de Rivotril, um medicamento utilizado como entorpecente. Consideradas cúmplices, embora garantam não ser viciadas tampouco traficantes, Eliane Gomes de Souza, 43, e Rogéria Gomes, 21, foram julgadas e condenadas e hoje pagam pena no Estabelecimento Prisional Feminino Santa Luzia, no Tabuleiro do Martins. Enquanto isso, o marido e pai continua foragido. Eliane e Rogéria fazem parte de um grupo de mulheres que aumenta as estatísticas de envolvimento com as drogas por influência de homens, sejam eles maridos, companheiros, namorados, pais, tios, irmãos. Um envolvimento que esconde quase sempre histórias de amor e submissão. Uma situação que chamou a atenção da professora universitária Elaine Cristina Pimentel, 28, que após um ano na função de advogada do presídio feminino decidiu estudar, cientificamente e filosoficamente, as causas desse processo. amor bandido O resultado faz parte do trabalho de mestrado apresentado em setembro último no programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e aprovado com distinção. A professora mostra que 40,91% das mulheres presas foram condenadas por tráfico de entorpecentes; dessas, 93,75% se envolveram com homens no crime de tráfico de drogas; 56,25% são consideradas traficantes não usuárias e 74,07% estão na faixa etária entre 18 e 30 anos. Cinqüenta por cento dos flagrantes ocorreram em Maceió e os outros 50% no interior do Estado. O estudo científico inclui uma ampla pesquisa de campo, realizada de agosto a setembro de 2004, e tem como tema Amor bandido, as teias afetivas que envolvem a mulher no tráfico de drogas. A professora manteve contato e entrevistou também alguns dos homens presos com as companheiras por tráfico e que cumprem pena no Presídio Baldomero Cavalcanti, ao lado da penitenciária feminina. Até então acreditava que a questão passava apenas pelo problema socioeconômico; no entanto fui mudando de opinião à medida que ampliava meus contatos com elas, revela a advogada e professora de Filosofia do Direito e Metodologia da Pesquisa Jurídica, Elaine Pimentel. Percebi que, além da questão econômica - todas são extremamente pobres e não possuem escolaridade, as relações de amor ao homem são determinantes para o envolvimento com o crime. Mas o amor bandido, título do trabalho, segundo a professora, não propõe a condenação deste sentimento como criminoso, ilícito ou desprezível. O que ele aponta é a idéia de que há uma forte ligação entre as relações afetivas e as práticas ilícitas das mulheres traficantes de drogas em Alagoas. ### Domínio faz mulher assumir a droga no lugar dos maridos Os relatos das reeducandas, descritos na tese de mestrado, sugerem a predominância da dominação masculina na relação afetiva que, em alguns casos, guarda estreita ligação com o uso de drogas, como afirma Elaine Pimentel. Uma dominação do homem que encontra respaldo, de acordo com a pesquisa, na aceitação das próprias mulheres que, mesmo inconscientemente, reproduzem práticas de sujeição aos maridos, companheiros, irmãos, de acordo com o que pensam acerca do amor e do papel da mulher na afetividade. Para comprovar a afirmativa, Elaine Pimentel descreve em seu trabalho que as entrevistadas, não raro, relacionam suas práticas aos sentimentos que nutrem pelas pessoas que compõem os seus vínculos de afetividade, seja como prova de amor ou como conseqüência dos papéis que assumem no contexto familiar. Essa dependência mostra que elas assumem a droga no lugar do marido, seja por amor ou por problemas financeiros da família. Crítica à Justiça No estudo, que tem como base a teoria das representações sociais, Elaine Pimentel faz uma crítica ao sistema judicial que, segundo ela, tem a tendência de homogeneizar a ação humanae de formar o senso comum que carimba todos os que foram flagrados com drogas como traficantes. Cada sujeito tem uma história de vida, uma realidade. Tanto é que em geral as presas não se consideram criminosas por consumirem ou venderem drogas. O tráfico, para elas, tem uma relação de mercantia e o único arrependimento é o da perda do convívio com os filhos, diz. Nessa tendência pelo senso comum, ressalta a pesquisadora, verificamos que a determinação legal da identidade de traficante, que ocorre quando da aplicação da norma penal, tende a naturalizar o envolvimento com as drogas, situando-o como algo inerente ao sujeito e não acidental e contingente em sua vida. Assim, quando presas por tráfico ou condenadas, as mulheres passam a ser identificadas como traficantes, levando a um processo de estigmatização. Mães, filhas, mulheres Muitas se afastaram dos maridos ou homens envolvidos no tráfico, outras mantêm relação permanente com eles e fazem planos para uma vida em comum quando saírem da penitenciária. Apesar de estarem atrás das grades, conseguem enxergar um futuro melhor. São mães, filhas e companheiras amorosas e dedicadas que apresentam as mesmas características das demais mulheres; enfeitam-se para esperar os maridos nos dias de visita no presídio, preocupam-se com a saúde e a segurança dos filhos e fazem planos para o futuro. Portanto, antes de traficantes, elas são, de fato, mulheres. NR ### Vício transforma mulheres em reféns Mesmo não enxergando nas drogas um crime, na história de vida das mulheres entrevistadas o vício aparece como uma triste realidade que as leva a diversas situações de submissão aos traficantes, especialmente quando estabelecem com eles relações de afeto, segundo atesta a professora e pesquisadora Elaine Pimentel. Em suas conclusões, ela ressalta que os significados e sentidos que as mulheres atribuem ao amor e ao papel que devem desempenhar no contexto das relações de afeto são construídos a partir de práticas interacionais ao longo de suas vidas, e levam-nas a vivenciar relacionamentos afetivos pautados pela cultura da submissão da mulher ao homem. Como suas práticas são referenciadas por essas representações, elas tendem a agir em nome desse afeto. Portanto, há uma estreita ligação entre o amor e as práticas relacionadas às drogas. Em muitos casos, no entanto, a experiência da prisão e as transformações provocadas na vida dessas mulheres acabam ofuscando esse amor, como atesta a pesquisa. Com a experiência da prisão, o olhar que depositam sobre tudo o que aconteceu em suas vidas já não é o mesmo. As representações que tinham acerca das experiências afetivas e que influenciavam suas condutas parecem transformar-se diante de uma realidade que se estabelece. Elas não pensam o amor da mesma forma que o faziam outrora. Muitas se mostram desiludidas com o amor, outras querem distância daqueles homens que as levaram à prisão, e outras, ao contrário, reformam o sentimento pelo homem que amam. A professora Elaine Pimentel teve como orientadora a socióloga Ruth Vasconcelos. Sua vivência na Associação de Proteção e Assistência Carcerária (Apac), uma instituição ligada à Igreja Católica que presta serviços voluntários de evangelização e jurídico aos detentos e no Conselho Penitenciário, contribuiu com a realização do trabalho. Em sua pesquisa, ela faz referência à reportagem da jornalista Bleine Oliveira, Amor bandido leva mulheres à prisão, publicada na Gazeta de Alagoas, em agosto de 2004. Cópia da matéria foi, inclusive, anexada ao trabalho. À época da pesquisa, havia 66 mulheres no Presídio Santa Luzia, dentre elas 27 foram presas por tráfico de drogas. Na última quinta-feira, quando a Gazeta de Alagoas esteve no presídio, havia 88 mulheres, sendo 36 presas por tráfico. A capacidade da penitenciária é para 74 mulheres. NR ### Presas na mesma cela, mãe e filha respondem por tráfico Mãe e filha choram quando relembram o dia em que a polícia invadiu a casa e levou as duas presas. Casada com um traficante há 20 anos, Eliane Gomes de Souza, 43, e a filha, Rogéria Gomes, 21, cumprem há oito meses uma pena de um ano e oito meses em regime fechado por tráfico de drogas. O marido fugiu e o único contato que ela diz ter tido com ele foi por telefone. Ele ligou e pediu pra gente voltar a viver junto quando eu deixar o presídio. Disse que não quero saber dele nem morta; aí ele me ameaçou, revela Eliane. Antes de proferir a sentença condenando mãe e filha, o juiz ainda esperou, segundo elas, durante dois meses para que o marido aparecesse e assumisse o crime, mas ele não se entregou e elas acabaram indo parar na prisão, depois de um mês e 15 dias detidas na delegacia da Chã do Pilar, onde moravam. Mãe de quatro filhos, Eliane chora durante toda a entrevista, lembrando os que ficaram sem sua proteção. Deixei meus três filhos e meus quatro netos soltos no mundo, sem ninguém pra cuidar deles. Meu filho de 17 anos, criado vendo o pai se drogar no fundo do quintal e vender maconha, entrou pra essa mesma vida. Está fumando e bebendo muito. Meu marido antes trabalhava; era um excelente padeiro, mas depois que se envolveu com drogas, achou o caminho mais fácil. Eliane reconhece que durante todos os anos em que viveu com o marido foi cúmplice dele, que ficava violento e a agredia sempre que bebia e fumava maconha. Mas ela tenta justificar: Qual é a esposa e a filha que vai denunciar o próprio marido, o pai? Sabia dos riscos que corria, mas não podia fazer nada; não tinha emprego; não estudei, afirma, ressaltando que nunca usou drogas. Sem mágoas Apesar do sofrimento, ela diz não guardar mágoas do marido. Não sei onde ele anda, mas agora também não adianta nada, a gente já tá presa. Quero que ele seja feliz onde estiver, diz Eliane, que depende de remédios psicossomáticos para dormir e sonha em deixar o presídio, vender o único bem que possui, uma casa no Pilar, e montar um pequeno negócio para sobreviver com a família. A filha, Rogéria, é mãe de um garoto de cinco, que hoje vive com um casal de amigos dela. Mesmo afirmando não guardar rancor do pai, ela se revolta porque acha que ele deveria assumir o crime. Casada, Rogéria passou a dormir na casa da mãe desde que o marido foi preso por porte ilegal de arma. Numa dessas noites na companhia da mãe ela também acabou presa. O marido cumpre pena no Cirydião Durval há nove meses, mas quando ela sair da penitenciária não planeja mais voltar para ele. Tenho pena dele, mas quero ir embora para São Paulo; quero passar um tempo sozinha porque acredito que não tem dinheiro no mundo que pague a liberdade. Foram oito anos me dedicando a minha casa; agora quero um tempo pra mim, diz.|NR ### Eu só fumava, não vendia maconha Uma intensa paixão, associada às drogas, levou Rosineide Ferreira Nunes, 27, à prisão. A morena alta, de cabelos longos, que já foi considerada de difícil temperamento pelas colegas de cela e funcionárias da penitenciária, se converteu a uma religião evangélica e hoje sonha em ganhar liberdade e renascer para a vida. Viciada em maconha, ela se envolveu com um traficante, com quem foi morar. O romance durou dois meses, tempo suficiente para Rosineide ser presa. Ele era um cara mais perdido do que eu. Daí, vivia insistindo para vender minha geladeira e comprar maconha. Resisti muito, mas como gostava dele, acabei concordando, revela. A geladeira foi negociada numa troca com um traficante. Pelo eletrodoméstico, o companheiro de Rosineide recebeu 1,5 quilo de maconha e R$ 200. Nesse dia a gente saiu pra curtir; beber e fumar maconha. Ele tinha uma arma e eu fiquei com medo. Começou a atirar na porta da casa, denunciaram e a polícia chegou lá e pegou ele deitado em cima da droga, com a arma do lado. Tinha 750 gramas de maconha. Daí levaram nós dois, confessa. Não sou bandida Mesmo viciada em maconha, ela não se considera uma criminosa. Eu só fumava, não vendia. Me envolvi por amizades. Não sou nenhuma bandida. Nunca imaginei ser presa, diz. O ex-companheiro cumpre pena no Baldomero Cavalcanti, mas nos dois anos e oito meses de prisão, Rosineide garante que nunca foi vê-lo, nem se relacionou com outro homem. Não quero mais saber dele; não tenho medo, mas também não tenho raiva dele; tudo o que quero é uma vida nova; um namorado para casar e criar minhas duas filhas, que vivem hoje com minha mãe, diz Rosineide, condenada a 8 anos e quatro meses em regime fechado. |NR