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Sistema prisional vira tragédia alagoana

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NIVIANE RODRIGUES GILVAN FERREIRA Repórteres Corrupção, desorganização, superlotação carcerária, lentidão no julgamento de processos e a inércia do governo estadual formam a mistura explosiva que faz mover as rebeliões em série que estouram nos cinco presídios alagoanos, nos últimos anos. Essa é a análise da situação constatada pela Gazeta, depois de ouvir especialistas do setor de segurança, ex-diretores dos sistema prisional, Justiça, OAB e autoridades. A situação de descontrole chegou a tal ponto que são os próprios detentos quem mandam nos presídios, com a conivência de agentes penitenciários mal preparados e que recebem salários de fome. São os próprios detentos que impõem suas regras lá dentro, afirma o advogado Tutmés Ayran, ex-secretário de Cidadania e Justiça, que tentou implantar uma gestão humanista no sistema, mas esbarrou em todo tipo de problema. Em entrevista à Gazeta, Tutmés alerta para um banho de sangue no sistema prisional, principalmente no Baldomero, onde foram colocados no mesmo módulo presos rivais. São dois mil presos nos presídios e mais de 500 trancafiados em delegacias. A selvageria chegou a tal ponto que, na última quarta-feira (16), dois detentos foram assassinados no presídio Rubens Quintella. Um deles teve a cabeça decepada e o número de feridos não foi sequer revelado pela polícia. Agentes vulneráveis Os agentes penitenciários são considerados peças vulneráveis. Como são contratados em regime temporário, sem critérios definidos e com salários aviltantes, esses profissionais ficam sujeitos a todo tipo de pressão, tanto do sistema oficial como dos próprios prisioneiros. Entre as revelações do ex-secretário Tutmés Ayran à Gazeta, ele afirma que os agentes chegam a vender espetos de ferro para os detentos por R$ 15. O Conselho Penitenciário de Alagoas, formado por diversas entidades, entre elas os ministérios públicos Federal e Estadual, OAB, está concluindo relatório para encaminhar ao Ministério da Justiça denunciando a grave situação nos presídios do Estado. Já o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Narciso Fernandes, diz que o Estado precisa cumprir a lei e julgar os presos que estão detidos, mas que já tiveram suas penas cumpridas ou que ainda não foram sequer julgados. Leia mais nas páginas E2, E3 E E4 ### Conselho alerta Brasília para caos em AL Um relatório anual sobre a situação dos presídios está sendo concluído e será encaminhado ao Ministério da Justiça, ao Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária e ao governador Ronaldo Lessa. O documento está sendo elaborado pelo Conselho Penitenciário do Estado de Alagoas, criado obrigatoriamente em todo o País por determinação da Lei de Execuções Penais e cuja principal função é a fiscalização do sistema prisional. No documento, os conselheiros vão apontar como os piores itens dos presídios no Estado a falta de condições de convivência entre os detentos, que deveriam ser separados por sexo, idade e tipo de crime praticado; de segurança e de estrutura dos prédios; o baixo nível de escolaridade e de preparação dos agentes penitenciários, que recebem salário de R$ 400 e em sua maioria não sabem sequer ler. O documento também apontará a precariedade na alimentação servida aos presos e no atendimento de saúde. LEI DESCUMPRIDA Esse conjunto de situações, segundo Elaine Pimentel, advogada, professora universitária e membro do Conselho, não permite que a Lei de Execuções Penais seja cumprida a rigor, o que acaba favorecendo as rebeliões nos presídios. Um preso sub judice [que espera julgamento] é normalmente mais ansioso do que aqueles que já foram julgados, por se sentir injustiçado. Por isso não pode ficar junto dos que cumprem pena, como ocorre em Alagoas, alerta. NR ### Morosidade da Justiça é tida como agravante Segundo a professora Elaine Pimentel, que no Conselho representa a Associação de Proteção e Assistência Carcerária (Apac), ligada à Igreja Católica,o atraso na prestação jurisdicional é o maior agravante para a crise no sistema prisional, tanto para os presos sub judice, que em sua maiora é do interior do Estado, quanto para aqueles que esperam os benefícios da lei. Ela cita como exemplo a Vara de Execuções Penais, comandada pelo juiz Marcelo Tadeu, onde 4 mil processos de presos condenados, que esperam a aplicação de benefícios, como enduto natalino, comutação e remissão de pena, livramento condicional e progressão de regime, estão em tramitação. Além de Maceió, somente o município de Arapiraca dispõe de uma Vara de Execuções Penais, que atende os municípios do Sertão e do Agreste. Os processos dos demais municípios e os da capital são encaminhados para Maceió e acabam encalhados. O juiz e os administradores do sistema podem fazer o melhor trabalho, mas se o detento passa um dia a mais no presídio além do que deveria, cria-se um clima de revolta insustentável, diz Elaine Pimentel. A falta de ocupação nos presídios, de atividades que garantam aos detentos a qualificação para conseguirem um emprego ao deixar o sistema, é outro agravante, na opinião da professora. Sem trabalho, a privação da liberdade acaba não alcançando seu fim maior, que é o da ressocialização. A estrutura administrativa acaba alimentando o crime, no sentido de não dar celeridade a esse processo. Os presos acham que vão ficar ali para sempre e tendem a se rebelar. O Conselho Penitenciário é formado por representantes dos ministérios públicos Federal e Estadual, da comunidade, Defensoria Pública, professores da universidade, OAB e Secretaria de Ressocialização. |NR ### Pode haver derramamento de sangue Nesta entrevista, o ex-secretário de Justiça e Cidadania, transformada com a reformulação no sistema prisional nas secretarias de Ressocialização e de Direitos Humanos, advogado, professor universitário e procurador Tutmés Ayran diz que as rebeliões podem significar uma espécie de solidariedade a Valter Gama. Tutmés Ayran foi responsável pela tentativa de implantação de uma política de humanização nos presídios, o que não vingou por pressões do próprio sistema, inclusive da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, que era contra o modelo proposto. Muitas críticas foram lançadas e ele deixou o cargo. Com a experiência de quem lidou diretamente com detentos e agentes penitenciários durante um ano e quatro meses, ele alerta: É preciso colocar no comando dos presídios uma pessoa capaz de restabelecer a paz; do contrário haverá derramamento de sangue, principalmente no Baldomero Cavalcanti, onde presos rivais foram colocados na mesma cela. NR ### Ex-secretário diz que presos mandam Gazeta - Na opinião do senhor, o que teria provocado essa série de motins nos presídios de Alagoas? tutmés ayran - Essas rebeliões podem significar uma espécie de solidariedade ao ex-secretário Valter Gama, ou seja, um processo comandado por agentes penitenciários para forçar o governo a mantê-lo no cargo. Isso fica claro na manifestação dos agentes em praça pública logo após a decretação de prisão do ex-secretário, do diretor-geral do Baldomero Cavalcanti, Jair Macário e do diretor de Segurança Mário Jorge Gomes Bezerra. Então as rebeliões são uma orquestração? Ayran- Sem dúvida, as rebeliões podem ser um indicativo de orquestração. Eles foram às ruas pedir a cabeça do juiz de Execuções Penais, Marcelo Tadeu, o afastamento dos promotores Alfredo Gaspar de Mendonça e Marcos Mousinho. Os agentes vivem em contato direto com os presos. Vivem o dia-a-dia deles, estabelecem relações de camaradagem, às vezes de privilégios, que certamente têm seu preço. É o jogo do toma lá dá cá. Conseguem impor sua política. Se quiserem podem sabotar qualquer secretário. Derrubá-lo ou mantê-lo no poder. O senhor acredita que o ex-secretário Valter Gama estaria por trás dessa orquestração? Ayran- Acho muito dificil. O Valter Gama sempre foi um homem muito jeitoso no comando da Secretaria de Ressocialização e desenvolveu uma relação de afeto com os agentes penitenciários, que agora apostam no caos para trazê-lo de volta. O senhor diria, então, que esta situação pode se agravar? Ayran- Os presídios são como uma panela de pressão, você vai contendo as demandas até onde pode, para evitar uma explosão. Chega um momento em que não dá mais para conter e aí a panela transborda e explode. É justamente o que está acontecendo, ou as demandas são contidas, ou eles vão explodir. Quais seriam essas demandas? Ayran- A angústia que os presos têm em relação à situação processual deles. Quando isso demora muito, cria-se uma expectativa muito grande e alguns, recolhidos por motivos insignificantes, que não deveriam estar nos presídios, acabam provocando essa erupção. Então os presos estariam percebendo que, de certa forma, o momento favorece uma reação? Ayran- Lógico. Os presos são inteligentes e percebem, até pela decretação da prisão do secretário [ex-secretário Valter Gama] que a coisa está sem comando. Se inquietam quando esse vácuo acontece e então a coisa eclode. Tudo isso, associado às freqüentes denúncias de maus-tratos nos presídios, provoca essa situação. E como reverter esse quadro? Ayran- É preciso entender que rebelião faz parte da essência dos presídios e que não se domina uma cadeia na porrada; não se constrói um ambiente favorável com agressão. O que o senhor defende então? Ayran- Enquanto não forem estabelecidas políticas públicas de segurança consistentes e contínuas, capazes de dar esperança ao preso de que um dia ele poderá sair de lá e ter uma vida melhor, os presídios vão continuar funcionando como uma fábrica de brutalidade. Em vez disso, estão tentando transferir a responsabilidade da crise para o juiz Marcelo Tadeu [da Vara de Execuções Penais]. Isso é possível perceber nas declarações do governador Ronaldo Lessa, quando diz que ele soltou o Garibalde [Garibalde Amorim, ex-policial envolvido na morte do chefe de Arrecadação Fiscal da Secretaria da Fazenda de Alagoas, Sílvio Vianna]. Ora, o preso estava há mais de sete anos na cadeia e tinha, por lei, direito à progressão de pena. Quem manda nos presídios? Ayran- Sem dúvida nenhuma é o preso. Eles desenvolvem regras próprias. É como se fosse um Estado dentro de outro Estado. Nele [o Estado dos presos], os detentos resistem ao controle estatal. Criam ódio entre si e, na primeira oportunidade, provocam tumulto para justificar o acerto de contas. Aproveitam o momento em que o Estado não tem o controle da cadeia e vão à forra. Normalmente, quando isso acontece eles estão drogados. A droga facilita a ação e a violência. Como têm o domínio da farmácia, se valem de comprimidos psicotrópicos para lançar a brutalidade uns contra os outros. Nessa guerra, quem sai ganhando? Ayran- Para entender melhor, comparamos os presídios a um feudo. Nesse feudo, os presos articulam em torno de si vários exércitos de pessoas. Nesse sistema, o preso pode se estabelecer pelo dinheiro, pelas drogas, inteligência ou pela brutalidade. Nele, um senhor quer ocupar maior espaço do que o outro. É como se houvesse um diálogo entre o senhor feudal e o súdito: ou obedece ou morre. O Estado seria a monarquia que não manda em nada. Quando esse conjunto de elementos se encontra, como agora, o sistema explode. Como a maioria dos presos é muito pobre, fica na mão dos que mandam; fazem qualquer negócio. Quando os presos querem desestabilizar alguém, desestabilizam, mas o preço é alto. E armas, como entram nos presídios? Ayran- A maioria compra espetos feitos pelos agentes penitenciários. Pagam R$ 15 pela arma; um ferro com cabeça afiada. Uns pagam para se defender, outros para subjulgar e impor a própria lei. Como era a relação do senhor com os presos? Ayran- Dei o número do meu telefone para eles e recebia ligações diárias sobre ameaças de morte contra presos. Dei meu meu número porque sabia que só se pode evitar a morte de um preso por outro lá dentro se você for avisado a tempo. Do contrário, não há quem garanta a vida do preso ameaçado. E o senhor conseguiu evitar alguma? Ayran- Pelo menos umas 30 vezes fui avisado e consegui evitar assassinatos, inclusive o de um tio de Fernando Fidélis, Aristeu Fidélis. Ele foi transferido do antigo São Leonardo [hoje Rubens Quintella] para o Baldomero Cavalcanti, onde havia um plano para matá-lo. Consegui evitar a morte dele por questão de minutos. Sempre há presos aliados. Não porque sejam caboetas, mas porque alguns querem a paz. Esperam somente cumprir a pena. E o que o Estado precisa fazer agora, para reverter esse quadro e evitar uma tragédia? ayran- É preciso colocar no comando da Secretaria de Ressocialização uma pessoa capaz de restabelecer a paz. Em qual dos presídios de Alagoas a situação é mais grave? Ayran- Sem dúvida nenhuma no Baldomero Cavalcanti. O Rubens Quintella é um presídio menor e lá os detentos não estão divididos por módulos. Já no Baldomero Cavalcanti, o ex-diretor Jair Macário cometeu o equívoco de colocar no mesmo módulo presos que não podem conviver juntos, por serem rivais. O Baldomero então pode ser palco de derramento de sangue? ayran- Se o Baldomero virar, ou seja, se houver um motim, muita gente vai morrer. Haverá um banho de sangue como jamais aconteceu na história de Alagoas. É uma situação extremamente grave. Tão grave que até o presídio feminino [o Santa Luzia] teve problemas esta semana. É como se um rastro de pólvora tivesse sido aceso.|NR ### OAB diz que Estado precisa cumprir a lei O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seccional de Alagoas, Narciso Fernandes, considera que o Estado precisa cumprir a lei. Muitos desses presos privados de liberdade não deveriam mais estar nos presídios. No entanto, como não têm acesso ao julgamento, acabam esquecidos no sistema prisional, aumentando o clima de revolta entre eles, afirma. Na última semana, segundo Narciso, representantes da Comissão de Direitos Humanos da Ordem estiveram no Presídio Rubens Quintella, para onde são mandados os presos sub judice. Durante a visita, os presos, que não têm acesso sequer ao julgamento, reclamaram de maus-tratos. Disseram que apanham nas celas, onde agentes penitenciários também jogam gás e pimenta que provoca irritações, uma agressão totalmente desnecessária, disse Narciso Fernandes. Ele entende que se o preso merece algum castigo, que seja aplicado; é para isso que existe a cela de isolamento, mas não agressões e maus-tratos. Visita íntima Outra denúncia feita pelos presos ao representante dos Direitos Humanos na OAB foi a manutenção da visita íntima, proibida em Alagoas. Mulheres que vão visitar seus maridos, companheiros, filhos estão passando pela humilhação da revista íntima, feita por pessoas totalmente despreparadas; que não são profissionais de saúde. O toque feito sem nenhuma preparação expõe essas mulheres a graves riscos, denuncia Narciso Fernandes diz desconhecer que as últimas rebeliões registradas no sistema prisional de Alagoas sejam um processo orquestrado para garantir o retorno do ex-secretário Valter Gama ao cargo, mas afirma que se isso for verdade, a situação é mais preocupante ainda porque certamente não vai parar por aí. A comissão da OAB, segundo ele, também se reuniu com o juiz de Execuções Penais, Marcelo Tadeu, para discutir a crise no sistema prisional e o restabelecimento das garantias asseguradas por lei aos detentos. O Estado tem direito sob essas pessoas, mas também responsabilidades ao que vier a acontecer a elas. Há normas que precisam, mas não estão sendo efetivadas. Cabe, portanto, ao Estado reagir e fazer cumprir essas tarefas que lhes são atribuídas por lei, inclusive com a reconstrução dos prédios destruídos durante essas rebeliões. Do contrário, a situação nos presídios de Alagoas pode se agravar, evoluindo para uma tragédia. Em Alagoas, funcionam os presídios Baldomero Cavalcanti, construído há cerca de dez anos, para onde são mandados os presos condenados; o Cirydião Durval, o mais novo, com cerca de quatro anos de construído; o Rubens Quintella, para onde vão todos os presos que aguardam julgamento; a Colônia Agroindustrial São Leonardo, o mais antigo, com mais de 30 anos de construído, onde antes ficavam os presos sub judice e que agora trabalha com regime semi-aberto; o Presídio Feminino Santa Luzia e o Centro Psiquiátrico Pedro Marinho Suruagy, antigo Manicômio Judiciário. Já em Arapiraca, no Agreste, funciona o único presídio do interior, que abriga todos os detentos julgados ou não. NR ### Assassinato de Fidélis dá início à crise Tarde do dia 28 de outubro de 2005. Por volta das 14h30, o traficante de drogas e homicida Edson dos Santos Tavares, o Pé de Cobra, 31, que tinha sido transferido havia 11 dias para o módulo III - dispara três tiros de revólver 38 - dois na cabeça e um no tórax - do fazendeiro José Fernandes Neto, o Fernando Fidélis, 43, que morreu dentro do banheiro de sua cela. Fidélis cumpria pena de 52 anos e 10 meses - ele tinha sido condenado por participação em uma chacina de Pindoba, em 1999, quando foram assassinados, a tiros e golpes de facão, o vaqueiro Francisco Xavier, sua esposa, Maria Quitéria (grávida de oito meses) e os filhos do casal, Ginaldo e Maria Gilvânia, menores de 5 anos, e ainda pela morte dos estudantes José Barros e Luiz Carlos Clemente, em 1986, em Viçosa e pelo assassinato do tributarista Sílvio Vianna. Ele também era investigado pela morte do pistoleiro Ebson Vasconcelos, o Eto, assassinado em 2002. Fernando Fidélis tinha fugido do Baldomero Cavalcanti em novembro de 2003, e foi recapturado oito meses depois - em junho de 2004 - pela polícia de Alagoas, no município de Toritama (PE). Primeira Versão Na primeira versão para o crime, Pé de Cobra disse que era inimigo de Fidélis - com quem tinha brigado há dois anos; ele reforçou a sua versão dizendo que Fidélis tinha batido na sua cara dias antes, além de ter tido uma discussão com ele - momentos antes do crime. Era ele ou eu, disse em seu depoimento. Pé de Cobra disse que a arma do crime foi encontrada por ele em uma lata dentro do presídio - em 2003 - durante uma fuga. Aí fiquei escondendo ela dentro de TVs, privada, colchão, para não ser descoberto. No seu depoimento à delegada plantonista Kézia Lira, Pé de Cobra, mostrava sinais de ter utilizado drogas. Depois foi confirmado que Pé de Cobra tinha consumido crak e rufinol antes de cometer o crime. O presidiário David dos Santos foi uma das testemunhas do crime e revelou que teria evitado que Pé de Cobra também assassinasse o irmão de Fernando, Fabiano Fidélis, que cumpria pena no mesmo módulo e estava jogando futebol na hora do crime. David chegou a ser investigado sob suspeita de envolvimento no crime. A primeira versão de Pé de Cobra não se sustenta por mais de 24 horas. Em depoimento ao delegado Marcílio Barenco, que foi indicado - em caráter especial - pelo secretário Paschoal Savastano para apurar o crime, e aos promotores Marcus Mousinho e Alfredo Gaspar de Mendonça, Pé de Cobra negou que houvesse tido algum tipo de desentendimento com Fidélis, o que foi confirmado pelos outros detentos do módulo III. A versão da arma também foi negada - o agente penitenciário Sivaldo dos Santos foi preso acusado de levar o revólver 38. Queima de arquivo Com a negativa da versão de Pé de Cobra, o delegado Marcílio Barenco e os promotores Marcus Mousinho e Alfredo Gaspar de Mendonça começaram a investigar a possibilidade de a morte de Fidélis ter sido uma queima de arquivo e uma vingança por ele ter passado a contribuir com o Ministério Público e com a Justiça. Fidélis, que era considerado um dos principais homens das ações do grupo do ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante, brigou com o ex-oficial e começou a denunciar as ações criminosas do grupo que integrava. GF ### Conflito entre Polícia Civil e MP gera crise nos presídios Já o secretário de Ressocialização, delegado Valter Gama, e o diretor do presídio Baldomero Cavalcanti, delegado Jair Macário, preferiram não se apresentar imediatamente, o que só aconteceu na última quinta-feira, depois da ameaça da entrada da Polícia Federal no comando da operação para prendê-los. A decretação da prisão dos cinco acusados azedou ainda mais a relação entre a cúpula da Polícia Civil e o Ministério Público. O diretor-geral da Polícia Civil, Robervaldo Davino, teria se negado a cumprir os mandados de prisão contra os delegados. Os promotores chegaram a ameaçar pedir a prisão de Davino, que só concordou com a apresentação de Gama e Macário depois de pedir autorização do juiz Braga Neto para levar os dois delegados para a sede do Tigre e não para a carceragem da Polícia Federal. Rebeliões Explodem As rebeliões explodem no sistema prisional. A primeira acontece no sábado, dia 12 de novembro, quando presos do Rubens Quintella destroem parcialmente o presídio e durante o motim quatro deles são feridos. No dia 15, uma tentativa de fuga e uma briga nos módulos II e III - no presídio Baldomero Cavalcanti, provocam tensão e medo entre os mais de 500 presidiários. Como resultado da briga, quatro detentos, que cumprim pena por estupro, foram agredidos pelos outros presos. Horas depois da confusão no Baldomero, estoura uma confusão dentro do presídio Santa Luzia, que fica vizinho ao Baldomero Cavalcanti - parte das 84 detentas iniciam uma briga, que foi controlada pelo pessoal do Grupo de Ações Prisionais (GAP). As presidiárias queimam alguns colchões, mas ninguém sai ferido gravemente. A explosão do caos no sistema prisional acontece no dia 16 - um dia após as confusões no Baldomero e Santa Luzia. Os detentos do presídio Rubens Quintella provocam uma nova rebelião, eles destroem outra parte do presídio e executam dois presidiários - os irmãos Cristiano e Luciano dos Santos. Cristiano recebe 31 perfurações - de espetos e facas - e tem a cabeça degolada e jogada no pátio do presídio. Luciano recebe mais de 20 perfurações, recebe um golpe fatal no pescoço e quase tem a cabeça degolada. No mesmo dia, um motim no presídio de Arapiraca deixa 20 detentos feridos. Perguntas no ar Essas duas últimas rebeliões violentas nos presídios deixaram no ar uma quase certeza. As rebeliões seriam orquestradas? A quem interessava os tumultos e as mortes dentro dos presídios de Alagoas? O juiz da Vara de Execuções Penais, Marcelo Tadeu, tentou responder aos questionamentos. Eu fui ao presídio Rubens Quintella no sábado [dia da primeira rebeliãoio] e numa reunião com a comissão de presos fui informado que eles tinham recebido orientação para virar a cadeia. Isso significa rebelião, revelou o magistrado. O governador Ronaldo Lessa e a cúpula da área de segurança pública levaram seis dias para tentar controlar o caos que tinha se instalado nos presídios desde a morte do fazendeiro Fernando Fidélis. Outra medida adotada por Lessa foi demitir o secretário Valter Gama. Para o lugar de Gama na Secretaria de Ressocialização, o governador nomeou o tenente-coronel Aurélio Rosendo dos Santos, que vai ter a responsabilidade de trazer de volta ao sistema prisional de Maceió a ordem e a legalidade, pois as unidades se transformaram em verdadeiros barris de pólvora. |GF ### Fazendeiro revelou crimes insolúveis Fidélis teria revelado os autores materiais e intelectuais da morte do tributarista Sílvio Vianna e de outros crimes considerados insolúveis. Fidélis também denunciou participação do delegado do 6º Distrito da Capital, Valdir Silva de Carvalho, primo do ex-coronel Cavalcante; do ex- PM Emanuel Guilhermino da Silva, o Fininho, e Ednaldo Bezerra da Costa, o Cigano, na morte do tributarista. Fernando Fidélis estava próximo de mudar de regime e deveria ser beneficiado com a liberdade condicional. Fidélis tinha sido transferido pelo diretor do presídio Baldomero Cavalcanti, Jair Macário, do Centro de Observações Criminalísticas (COC) para o módulo III. Essa transferência tinha ocorrido há 3 meses. Fidélis, que comandava uma das cantinas dentro do presídio Baldomero Cavalcanti, chegou a reclamar da sua transferência e teria sugerido que seria assassinado no módulo III. As suspeitas aumentaram com a transferência de Pé de Cobra para o mesmo módulo. Ele cobrou do diretor Jair Macário a retirada do preso daquela ala, mas foi informado que Pé de Cobra não seria transferido. Delegado sai do caso No dia 10 de novembro, o delegado especial Marcílio Barenco se afastou do caso. Ele alegou que estava com muitos casos para investigar em Rio Lago e também motivos de foro íntimo. A Gazeta apurou que o verdadeiro motivo da saída de Barenco estava relacionado à pressão de setores da Secretaria de Defesa Social (SDS) e por discordar da linha de investigação dos promotores Marcus Mousinho e Alfredo Gaspar de Mendonça. No dia 11 de novembro, o ex-PM Garibalde Amorim decidiu falar à Justiça sobre a morte de Fidélis e de outros crimes considerados insoluvéis em Alagoas. Garibalde passou mais de 5 horas depondo ao juiz da Vara de Execuções Penais, Marcelo Tadeu, e aos promotores Marcus Mousinho, Karla Padilha e Alfredo Gaspar de Mendonça. Depois do depoimento, Garibalde deixa o presídio Baldomero Cavalcanti, beneficiado pelo regime de prisão semi-aberto. Prisão de secretário Um dia depois do afastamento de Barenco, no dia 12, os promotores Marcus Mousinho, Alfredo Gaspar de Mendonça e Karla Padilha pediram ao juiz da 8ª Vara Criminal, José Braga Neto, a prisão do secretário de Ressocialização, Valter Gama, dos diretores do presídio Baldomero Cavalcanti, Jair Macário, Mário Jorge e Jorge Oliveira, do agente penitenciário Cristiano Ferreira e do delegado do 6º Distrito, Valdir Silva de Carvalho, por suspeita de envolvimento na morte de Fernando Fidélis. Habeas corpus O delegado Valdir de Carvalho escapou da prisão por ter antecipado o pedido de habeas corpus preventivo, concedido pelo desembargador José Hollanda Ferreira. Os diretores do presídio Baldomero Cavalcanti, Mário Jorge e Jorge Oliveira e o agente penitenciário Cristiano Ferreira se apresentaram à Polícia Federal (PF), na última segunda-feira. |GF

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