Polícia
IML: 91% dos homicídios atingem negros
| REGINA CARVALHO Repórter Os negros são as maiores vítimas da violência em Alagoas. Isso é o que revela a mais recente estatística do Instituto Médico Legal Estácio de Lima, que aponta que das 144 necropsias por homicídio no mês de setembro, 90,97% foram de pessoas negras e apenas 4,17% de brancos. O restante não foi identificado na pesquisa. Segundo o último censo do IBGE, a população alagoana de negros e pardos corresponde a 68,5%. O coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab), Moisés Santana, ressalta que a violência urbana atinge principalmente a juventude negra brasileira. Essa juventude mora em condições mais adversas e sofre com a violência, acrescentou Santana. Ele reforça que a estatística do IML assusta, mas que o grande número de homicídios entre negros ou descendentes é uma realidade nacional. Assustador Essa quantidade de vítimas negras assusta, como esses dados oferecidos pelo IML. Sabia que era muito, mas não sabia que era tanto assim, lamentou o coordenador do Neab, núcleo temático ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Para o ex-secretário de Defesa das Minorias, Zezito Araújo, a expressão pardos não deve ser dissociada da raça negra. Para ele, não existe diferença entre elas. Sem dúvida eles (os negros) são a maioria das vítimas. Seja da violência urbana ou de doenças naturais. Isso pelas condições de vida deles, explicou Araújo. Mortes naturais As chamadas mortes naturais também atingem em cheio os negros. Segundo o ex-secretário, estudos apontam que parte deles vive em situação de risco, com pouco ou nenhum acesso aos serviços de saúde e de educação, o que acaba contribuindo para deixar esse segmento bastante vulnerável a problemas, como a violência. A pesquisa feita pelo IML abrange a capital e mais 70% das cidades alagoanas, já que o instituto cobre todas essas localidades. Com exceção de parte das regiões Agreste e Sertão, sob responsabilidade do Instituto Médico Legal de Arapiraca. ### Negros condenam abordagem policial A avaliação do movimento negro sobre a relação da raça com a violência é retratada na música do grupo Rappa. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, de autoria do músico Marcelo Yuka, ex-integrante da banda. Essa tese é defendida pelos próprios negros que se dizem vítimas constantes de abordagens abusivas pela polícia. Zezito Araújo ressalta que a violência contra o negro não é característica apenas de Alagoas. Infelizmente essa é uma realidade do Brasil. Os negros também costumam ser vítimas da polícia, acrescentou. A mesma informação é compartilhada pelo coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Moisés Santana. Para Santana, o movimento negro em Alagoas tem obtido avanço, principalmente em termos de discussão sobre o assunto. Uma dessas conquistas, segundo o coordenador do Neab, foi a criação da secretaria em Defesa das Minorias. Foi um avanço a criação dessa secretaria, mas ela ainda não foi equipada como deveria. A intervenção para diminuir os índices de violência em Alagoas e outros problemas que sofrem os negros infelizmente ainda é muito pequena, ressaltou. De acordo com ele, inúmeras ações poderiam ajudar a mudar estatísticas como a feita pelo IML de Maceió. Na minha visão não tem uma ação isolada. Tem que ser na educação, saúde, direitos humanos e na geração de empregos, destacou Moisés Santana. Ele acrescentou que o fato de a juventude negra estar ociosa contribui para o envolvimento em delitos, especialmente num Estado que ainda lidera índices sociais preocupantes. Alagoas é o Estado com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país e isso conta muito, relatou Santana. A estatística, que deve continuar nos próximos meses, mobilizou toda a equipe do IML. Outras foram realizadas, mas essa traz mais dados e informações mais específicas. Além de identificar raça, o estudo mostra faixa etária, causa da morte e estado civil das vítimas que deram entrada no instituto. Além de negros, as maiores vítimas da violência são jovens, em idade produtiva, dos 18 aos 29 anos. RC ### Homicídios crescem durante campanha A mesma estatística levantada pelo IML de Maceió aponta para o aumento do número de vítimas fatais por arma de fogo em Alagoas. Em setembro deste ano, 59 pessoas morreram em conseqüência delas e no mês passado esse número saltou para 79. Um acréscimo de 33,9%. O diretor do IML, Arggeu Pessoa, um dos que lideraram a estatística, ressalta que o aumento do número de vítimas ocorreu justamente durante a divulgação pelos meios de comunicação do referendo sobre a comercialização de armas de fogo no Brasil. Essa crescente violência se torna um prejuízo para o governo, porque há vários gastos, inclusive com a previdência social. Realmente custa caro, ressalta o diretor do IML. Com base na mesma pesquisa, em setembro deste ano quando deram entrada no instituto 144 corpos, as armas de fogo foram a maior causa de mortes em Alagoas. Acidentes de trânsito ocupam a segunda colocação com 41 mortes, um percentual de 28,47%, contra os 40,97% de vítimas fatais por armas de fogo. As armas brancas foram responsáveis pela morte de 16 pessoas. Sentimos que tem crescido nos últimos meses o número de vítimas por armas de fogo, acrescentou Arggeu Pessoa, confirmando que mesmo não dispondo de dados no momento, sabe que já houve aumento desses casos em setembro em relação ao mês de agosto deste ano. Ficou constatado ainda a diferença entre o número de óbitos da capital e do interior. Respectivamente foram 24 e 17 no mês de setembro e 40 e 15 em outubro. O levantamento realizado pelo IML mostra que a quase totalidade das vítimas de arma de fogo é homem, ao todo foram 57 homens e duas mulheres. Em relação à quantidade de atendimentos, envolvendo exames cadavéricos e sexo das vítimas e todos os tipos de ocorrências que desencadearam na morte, ficou constatado a morte de 129 homens e 13 mulheres. Mulheres espancadas Lesão corporal foi o exame de corpo de delito mais requisitado e realizado pelo IML de Maceió. As mulheres lideram o ranking de vítimas que mais procuraram especialistas para identificação da agressão. No sexo feminino o percentual, em setembro, foi de 51,19% e no masculino 48,81%, respectivamente 259 e 247 casos. Essa estatística deve-se principalmente à violência doméstica. A procedência confirma: somente a delegacia da Mulher encaminhou pedido para a realização desse tipo de exame, que para a Polícia Civil é uma das provas materiais do crime, em 146 vítimas de agressão. A especializada ocupa a primeira posição da lista, seguida da delegacia da criança e do adolescente com 28 casos. No total foram 554 pessoas que passaram pelo IML para fazer exames de lesão corporal, conjunção carnal e ato libidinoso. Esse último foi procurado com mais freqüência por conselhos tutelares. Uma das titulares da Delegacia da Mulher, a delegada Fabiana Leão, reforça os dados colhidos pelo Instituto Médico Legal Estácio de Lima. Segundo ela, vítimas de lesão corporal leve e ameaças correspondem a 70% dos casos registrados na delegacia. A maioria é por violência doméstica, provocada por pessoas da convivência dessas mulheres, lembrou a delegada. Fabiana Leão relata que todos os dias a delegacia registra em média 20 ocorrências que envolvem vários tipos de agressão e ameaça. Na segunda-feira chega em média a 30 ocorrências. O exame é importante como prova material do crime, acrescenta. Na capital e no interior, jovens de 18 a 29 foram maioria no IML, com 34,72% dos casos. Seguida de adultos de 30 a 50 anos, com 30,56%. A maioria deles era solteira. Os fins de semana continuam sendo os dias mais violentos, com o registro de vítimas fatais. Dos 144 casos registrados, somente de sexta-feira a domingo, do mês de setembro, corresponderam a 80 deles. RC