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Sem-terra exigem punição no adeus ao líder morto

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BLEINE OLIVEIRA Repórter Atalaia - Centenas de trabalhadores rurais acompanharam ontem o sepultamento do corpo de Jaelson Melquíades dos Santos, 25, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), em Atalaia. Jaelson foi assassinado no início da tarde de terça-feira, 29, na estrada de acesso ao acampamento São Luiz, onde vivia com a mãe e a esposa. Em clima de estarrecimento com o brutal assassinato, mas de punhos erguidos, eles gritaram palavras de ordem, cantaram hinos do movimento pela reforma agrária e exigiram a apuração do crime e a punição dos mandantes e dos executores. Um ato político no galpão da extinta Usina Ouricuri, onde estava sendo montado o Centro de Formação Política do MST, reuniu por mais de duas horas familiares, amigos e companheiros de Jaelson. Em todos os discursos, a manifestação clara de que o crime foi político, ou seja, Jaelson foi assassinado em decorrência de seu trabalho em defesa da reforma agrária e pela organização dos trabalhadores do campo. Isso não ficará assim. A dor da morte deste valoroso companheiro exige punição, disse João Daniel, da direção nacional do MST. Ele veio a Alagoas para, juntamente com as lideranças estaduais, cobrar o esclarecimento do crime. Considerado um importante quadro do MST, Jaelson Melquíades militava na organização desde 1997 e é apontado como um dos maiores responsáveis pela conquista das terras da usina, onde centenas de famílias já estão assentadas. Sua morte revoltou os trabalhadores, que caminharam por mais de três quilômetros levando o caixão até o cemitério onde o corpo do dirigente foi enterrado ao som de hinos e aplausos. Para eles, fazendeiros da região, inconformados com os projetos de reforma agrária, mandaram assassinar Jaelson. Temos certeza de que foi um crime encomendado por fazendeiros na tentativa inútil de conter a luta pela terra, disse José Carlos da Silva, da direção estadual do MST. A mesma avaliação fez o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Carlos Lima, que foi ao sepultamento manifestar solidariedade à família do dirigente morto e ao MST. É um crime do latifúndio. Não vamos aceitar outra versão, disse Lima. De acordo com números da direção do MST, em Alagoas, nos últimos 12 anos, 40 líderes sem-terra foram assassinados, e até hoje nenhum suspeito foi julgado ou condenado. ### Polícia intima oito pessoas para depor sobre o assassinato Atalaia - Oito pessoas já foram intimadas e deverão comparecer hoje à delegacia de Atalaia, onde serão ouvidas sobre o assassinato de Jaelson Melquíades dos Santos, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). O delegado do município, Gilson Rego, começa a ouvir os depoimentos às 8h e, segundo ele, não tem hora para terminar. Embora ressalte que já tem algumas informações, ele admite que só poderá definir a linha de investigação que vai seguir para apurar o crime após ouvir as pessoas intimadas no início do inquérito. Algumas delas ouviram os disparos, outras chegaram a ver os dois homens que, numa motocicleta, atiraram em Jaelson. Além dos depoimentos, Gilson Rego espera os laudos dos Institutos de Criminalística (IC) e Médico Legal (IML) para elaborar o plano de investigação. Mas um caminho o delegado admite seguir: vai priorizar as informações prestadas pelos trabalhadores assentados e acampados que conviviam com o dirigente assassinado. Precisamos do apoio deles próprios, disse Gilson Rego. Enquanto o delegado ouve as pessoas intimadas, em Maceió os dirigentes de todos os movimentos de sem-terra e organizações sociais se reúnem, provavelmente no Palácio Floriano Peixoto, com o vice-governador Luis Abílio de Sousa e com a cúpula da Secretaria de Defesa Social (SDS). O ouvidor agrário nacional, Gersino Lopes da Silva, que representa a direção nacional do Incra, deverá participar do encontro. José Carlos Silva, da coordenação estadual do MST, avisa que na reunião vai cobrar mais ações do governo no sentido de conter a violência no campo. Em Atalaia, três dirigentes do MST já foram assassinados e nenhum dos crimes foi apurado, não há ninguém punido por essas mortes. Isso é inaceitável, afiRmou Silva. BL ### Foi um atentado contra nossa unidade O MST recebeu a solidariedade de todos os movimentos que lutam pela reforma agrária em Alagoas. Vladimir Agostinho, do Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL), disse que o assassinato ocorre no momento em que os movimentos deixam as divergências de lado e se unem para garantir o futuro da reforma agrária. É um atentado a nossa unidade. Mas não vamos parar de lutar pela vida, não vamos nos desunir, acrescentou Agostinho. Sindicatos e partidos Representantes de entidades sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato dos Trabalhadores em Educação e dos Previdenciários, e de partidos políticos, como o PT e o PSol, também foram a Atalaia, acompanhar o sepultamento do dirigente do MST. Jaelson Melquíades dos Santos, 25, foi assassinado na terça-feira, por volta das 13h, com cinco tiros de revólver na cabeça, enquanto dirigia uma motocicleta, na Fazenda Timbozinho, no município de Atalaia. Os dois pistoleiros suspeitos do crime fugiram em outra moto, e a polícia ainda não tem pistas deles. Segundo testemunhas, eles usavam capacetes, e um deles era magro e tinha olhos claros. |BL ### Sem-terra acusam governos de omissão MARCOS RODRIGUES Repórter O movimento unificado dos trabalhadores rurais sem-terra de Alagoas divulgou ontem nota de repúdio pelo assassinato do dirigente Jaelson Melquíades dos Santos, em que aponta os governos federal e estadual pelo brutal assassinato. O Estado brasileiro e o Estado de Alagoas são responsáveis pelo assassinato de Jaelson, que tem como origem a demora no processo de reforma agrária, diz um trecho da nota, assinada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST). Representantes dos movimentos protestaram ontem pela manhã, no Palácio Floriano Peixoto, e cobraram do governo uma ação enérgica contra o crime. A comissão foi recebida pelo secretário de Articulação Colegiada, Pedro Alves, e pelo secretário-geral de governo, coronel Jadir Ferreira, em substituição ao governador Ronaldo Lessa. Os trabalhadores rurais voltaram acusar o Estado de omissão. Não somente o Executivo, mas o Judiciário e o Legislativo. Já são 40 assassinatos nos últimos 12 anos, sem nenhum mandante ou pistoleiro na cadeia, diz Edir Paulo do MST. Alves lamentou o assassinato, mas não aceitou a crítica. Não podemos nos responsabilizar por processos que são de responsabilidade da Justiça. ### Assassinato pode levar a novas invasões O assassinato do trabalhador rural em Atalaia pode ser o combustível para a realização de novos protestos em Maceió. A reunião de ontem entre lideranças de sem-terra e representantes do Executivo foi marcada por lágrimas e revolta. O governo tenta minimizar a crise com o segmento agrário. Enquanto a reunião transcorria, o carro de som que comandava um protesto de famílias em frente ao Palácio Floriano Peixoto anunciava: Nós estamos em guerra. O lado de lá já decretou, pois contratou pistoleiro para matar trabalhador. Se matar um daqui, dez de lá vamos matar, dizia a música cantada em coro pelos trabalhadores rurais. Após o protesto, para evitar que os sem-terra se engajassem no movimento feito por estudantes secundaristas que também desciam para a Prefeitura Municipal, que fica defronte do Palácio, na Praça dos Martírios, os manifestantes foram orientados a retornar aos assentamentos. Antes iriam acompanhar o sepultamento do líder do MST, em Atalaia. Resposta à altura A morte de Jaelson Melquíades dos Santos aconteceu no mesmo dia da aprovação do relatório paralelo da CPI da Terra pelo Congresso Nacional, em Brasília, com indicações de transformar invasão de terras em crime hediondo. Para o relator da proposta, deputado federal Abelardo Lupion (PFL-PR), as ações em fazendas e prédios públicos se comparam a atos terroristas. A resposta a esta proposta e ao assassinato em Alagoas virá com mais ocupações, garantem as lideranças. Isso deve acontecer ainda este ano. Esse companheiro em especial era um dos que mais evitavam o confronto. Sempre com um sorriso, procurava unir os movimentos e encontrar saídas organizadas. Sua luta deve continuar, disse o coordenador da CPT, Carlos Lima.|MR

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