Polícia
PF impede atentado contra 2 delegados
| GILVAN FERREIRA Repórter A Polícia Federal (PF) iniciou uma investigação para desarticular a maior quadrilha de roubo de cargas em atuação no Estado de Alagoas. A quadrilha, que seria liderada pelo assaltante Júnior Tenório, o Júnior Cicatriz, teria a participação de oficiais da Polícia Militar, de um vereador de São Miguel dos Campos, integrantes da família Fidélis e do pistoleiro Cícero Belém, que foi assassinado no último dia 2 de novembro, em uma emboscada, na Avenida Durval de Goes Monteiro. A denúncia foi protocolada na Superintendência da Polícia Federal no último dia 6 de outubro - 27 dias antes do assassinato de Cícero Belém. As informações sobre a quadrilha, que também seria responsável por assaltos a agências dos Correios, considerada uma das mais violentas e ousadas do Estado, levou a Polícia Federal a desarticular um plano do grupo para assassinar a delegada do município de Pilar, Paula Frachinneti, e o chefe da delegacia da 13ª Superintendência Regional da Polícia Rodoviária Federal (SRPRF), José Edson dos Santos, que comanda o posto da PRF do município de Atalaia. Segundo a denúncia, a quadrilha teria decidido assassinar a delegada Frachinneti e o inspetor José Edson por estarem fechando o cerco contra o bando. Plano de morte A delegada Frachinneti seria assassinada por Júnior Tenório, Cícero Belém, Aldo Tenório, o soldado PM Fred e o braço direito de Júnior Tenório, Cicinho. Para a fuga, o grupo iria contar com ajuda do capitão PM Fortes, que daria apoio à quadrilha, caso houvesse uma perseguição da polícia. A delegada Paula Frachinneti confirmou que foi informada pela Polícia Federal do plano da quadrilha para assassiná-la. Eu fui chamada à Polícia Federal e um delegado me informou sobre detalhes do plano da quadrilha, já que investigava alguns do seus integrantes por envolvimento em um homicídio em Rio Largo. Eu tive acesso ao documento enviado à Policia Federal, mas mesmo com as ameaças decidi continuar as investigações e não deixar o município. A Secretaria de Defesa Social foi avisada do plano da quadrilha e vem me dando todo o apoio necessário, disse Paula Fracchinneti. O inspetor José Edson também confirmou ter tido acesso às informações da Polícia Federal sobre o plano do bando que vem investigando há seis anos. Ele revelou que as informações da Polícia Federal salvaram sua vida, pois considerou que a quadrilha pode ter planejado o seu assassinato. Eu tenho certeza de que se a Polícia Federal não tivesse descoberto esse plano a quadrilha ia tentar me assassinar, desde então venho recebendo todo o apoio. Pelo que tive acesso da denúncia encaminhada à Policia Federal, 99% das informações são verdadeiras, disse. O relatório aponta que a quadrilha ainda seria formada pelo vereador de São Miguel dos Campos Oceano Moura; o ex-prefeito de Pindoba, Aristeu Fidélis; o seu filho, Cicinho Fidélis; o irmão de Aristeu, José Nemézio Fidélis; o filho de Fernando Fidélis, Fernandinho Fidélis; o tenente Júnior Rocha, filho do ex-comandante da PM, coronel Nilton Rocha; o tenente Raimundo Lessa; o caminhoneiro identificado como Chapolim; o assaltante Biano e um soldado do Corpo de Bombeiros, irmão do soldado Fred, que seriam os responsáveis pelos roubos dos veículos usados pelo grupo para realizar os assaltos. ### Quadrilha acusada de triplo homicídio Na denúncia encaminhada à Polícia Federal são reveladas as funções dos vários integrantes do bando criminoso, que, segundo a Polícia Civil, é formado por mais de 20 homens. O relatório também foi encaminhado ao Ministério Público, à Secretaria de Defesa Social, e ao delegado Jobson Cabral, que investiga o assassinato de Cícero Belém, que, segundo a denúncia, receberia proteção de um dirigente da Polícia Civil. O autor da denúncia não foi identificado, mas, segundo a Polícia Federal, pode ter ligação com o grupo criminoso, e acusa os integrantes da quadrilha em um triplo homícidio, em julho deste ano, em um trecho da BR -101, no município de Pilar. O denunciante afirma que Júnior Tenório foi responsável pela morte do caminhoneiro Edivan Alves Peixoto, 31, do seu ajudante José Carlos de Oliveira, 31, e de Francilene Zeba, 33. Eles morreram porque a quadrilha confundiu a carga que ia roubar - batatinhas com charque. Com raiva, mataram os três ocupantes do caminhão, diz um dos trechos da denúncia. Ele também revela que o grupo roubou cargas de cigarro, pneus, frios, charque, cereais e até um caminhão com uma carga de aço inoxidável. Trechos perigosos A Gazeta apurou que a quadrilha já vinha sendo monitorada antes da denúncia da Polícia Federal em uma ação conjunta da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Delegacia de Roubos de Cargas, chefiada pelo delegado Manoel Vanderley, e pela delegada de Pilar, Paula Frachinneti. Um trabalho de investigação da equipe da 13ª Delegacia da Polícia Rodoviária, que abrange os trechos das BRs-316 e BR-101, revela que a quadrilha atua nos trechos considerados mais perigosos das rodovias alagoanas: ladeiras do Varrela, Sumaúma e Terra Nova.Essa investigação teria ajudado a diminuir as ações desse grupo criminoso e das outras quadrilhas de roubo de cargas que atuam em Alagoas. Até julho deste ano, o delegado Manoel Vandeley já tinha aberto 33 inquéritos, mas o número já teria ultrapassado 50 assaltos e roubo de cargas. O grupo de Júnior Tenório, que receberia proteção de autoridades do Estado, também atuaria freqüentemente entre os municípios de Rio Largo e Pilar, onde teria uma das suas principais bases. A quadrilha também teria uma base em Arapiraca, onde parte das cargas roubadas é levada e depois distribuída para os compradores. A quadrilha trabalha por encomenda, segundo a polícia, geralmente, o grupo recebe a encomenda de comerciantes de Alagoas, Pernambuco, Sergipe, Paraíba e Ceará. O bando criminoso também estaria atuando, em consórcio, com quadrilhas de roubo de cargas com atuação no Estado de Pernambuco. |GF ### Líder do bando tem proteção política A Gazeta apurou que o líder da quadrilha de roubo de cargas, Júnior Tenório, vem sendo procurado há vários meses pelas equipes da Delegacia de Roubo de Cargas. No último mês de março, Júnior Tenório escapou de uma operação da Polícia Civil. Ele foi flagrado, com alguns integrantes do grupo, negociando uma carga roubada. Os policiais fizeram um cerco, mas eles conseguiram fugir à ação da polícia, subindo no telhado do galpão e descendo do outro lado, agarrados a cabos elétricos. Os policiais prenderam o comerciante português Jorge Manoel Doutel Lisboa, que negociava, por R$ 5 mil, o caminhão Mercedes-Benz, placa KED 0860/SE, que tinha sido roubado em uma ação da quadrilha num trecho da BR-101, no município de Pilar, pelos integrantes da quadrilha Ângelo Márcio Rodrigues e Sidney Silva Brito, José Carlos Rodrigues e Neusvaldo Pastora Filho. PRIVILÉGIO Os policiais que já participaram de operações para prender Júnior Tenório alegam que o líder da quadrilha recebe proteção de um deputado estadual, que receberia parte dos recursos para financiar campanhas eleitorais. Ele dificilmente vai ser preso, pois recebe proteção de um deputado muito influente na área de segurança pública de Alagoas. O Júnior Tenório só vai cair se for preso pela Polícia Federal ou pela Polícia Rodoviária Federal. Todo mundo da polícia sabe onde ele mora, os locais onde ele age, onde guarda as cargas roubadas e as armas que utiliza nos assaltos, roubos de cargas, agências dos Correios e crimes de pistolagem, desabafa um dos policiais que já atuou nas investigações sobre a quadrilha de Júnior Tenório, que pediu para não ser identificado. Outro grupo Na última quarta-feira, o delegado de Rio Largo, Marcílio Barenco, desarticulou uma outra quadrilha de roubo de cargas, que seria comandada pelo sargento do Corpo de Bombeiros (CB) Marcos Antônio Lira de Souza, preso e recolhido ao quartel da corporação. Também foi preso Ivanildo Ferreira da Silva, o Mea Banda, que confessou a sua participação em vários roubos de cargas. Ivanildo foi preso quando negociava uma carga de 14 toneladas de ração para cavalos, avaliada em R$ 10 mil, que estava escondida na Chácara Giliard, localizada num trecho da Rodovia BR-104, no município de Rio Largo, alugada pela quadrilha do sargento com o objetivo de servir como uma das bases da quadrilha. Segundo Barenco, a quadrilha do militar Marcos Souza não tem ligação com o grupo de Júnior Tenório. Além das duas quadrilhas, a polícia sugere que há pelo menos mais cinco ou seis grupos agindo em Alagoas.|GF