Polícia
Pol�cia quer ouvir deputado sobre assassinatos
CÉLIO GOMES O deputado estadual João Beltrão (PMDB) deve ser ouvido pela Polícia Civil, nas próximas semanas, sobre o assassinato do comerciante de jóias, José Cerqueira. A informação é de um dos diretores da Secretaria de Defesa Social. O comerciante desapareceu em agosto do ano passado, junto com seu motorista, Magelo da Silva. Em novembro, a polícia encontrou duas ossadas. Esta semana, exames de DNA comprovaram que as ossadas eram de Cerqueira e Magelo. Era a certeza que faltava para que a investigação ganhasse um novo ritmo. Beltrão será ouvido porque até agora os principais suspeitos de autoria material do crime são dois policiais do município de Coruripe (um PM e um Civil), que trabalhariam na sua segurança pessoal. Na primeira fase da apuração do caso, o delegado Cícero Torres levantou pistas que apontavam para os dois policiais. Torres não está mais na investigação que, como a GAZETA revelou ontem, contará com pelo menos três delegados. Na última quarta-feira, a Secretaria de Defesa Social informou que pediria a prisão dos policiais, mas não revelou a identidade deles, para ?não prejudicar a investigação?. O diretor da secretaria, Roberto Lisboa afirmou que não poderia dar qualquer informação sobre o assunto, a não ser que ?a investigação, agora, será muito mais aprofundada?. Notificação Para ouvir o deputado, a polícia não precisa de autorização da Assembléia Legislativa. Basta notificá-lo, comunicando o assunto. Este é o entendimento do Ministério Público Estadual (MPE), diante do que estabelece a Constituição brasileira, quando se refere às prerrogativas de políticos com mandato. Mesmo assim, Beltrão tem o direito de escolher dia, local e hora para o depoimento. Dúvidas A investigação quer saber qual a real ligação do deputado com José Cerqueira. Quando sumiu, ele estaria em Coruripe para cobrar dívidas. Em declarações à imprensa, no ano passado, o deputado negou que tivesse alguma dívida a pagar ao comerciante. Confirmou que já teria feito negócios com ele, na compra de jóias. O valor da transação estaria entre R$ 5 mil e R$ 8 mil. Testemunhas contaram que o comerciante e seu motorista teriam feito contato pessoalmente com o deputado João Beltrão na véspera ou no dia em que foi visto pela última vez. Outro mistério a ser desvendado é o paradeiro das jóias que estavam com Cerqueira no dia em que ele sumiu. Segundo seus parentes, os objetos estariam avaliados em R$ 60 mil. Cerqueira e seu motorista também levavam notas de cobrança para vários clientes, entre eles fazendeiros e comerciantes da região de Coruripe. Depoimentos Num claro sinal de que esta não é uma investigação como outra qualquer, na sexta-feira, o diretor-adjunto de polícia, delegado Mário Jorge Marinho, disse que a investigação terá, a partir do começo desta semana, um grupo de delegados atuando no caso. Segundo ele, isso ?agiliza as apurações? e também ?despersonaliza? a investigação. Ou seja, a Secretaria de Defesa Social não quer um delegado isolado no caso, o que evita um alvo fácil para pressões. Com a nova etapa de investigação, todas as testemunhas ouvidas na primeira fase do inquérito serão novamente convocadas para falar. Beltrão Desde quarta-feira, a GAZETA tenta falar com o deputado João Beltrão. Seu irmão, Márcio Beltrão, disse que ele está fora de Alagoas e voltaria ?talvez até este fim de semana?. O chefe de gabinete do parlamentar, Luciano Rocha, confirmou a viagem do patrão e disse que o deputado ?deve estar de volta domingo ou segunda-feira?. Em Arapiraca, a família do comerciante José Cerqueira cobrou do governo do Estado a solução do caso. Nilda Cerqueira disse que o crime não pode cair no esquecimento: ?Que os culpados sejam presos e mofem na cadeia?. Carro e jóias sumiram: entenda o caso O comerciante José Cerqueira e seu motorista, Magelo da Silva, partiram de Arapiraca no dia 16 de agosto de 2003. Eles viajavam no carro Fiat Palio, modelo 2002, rumo ao povoado de Pontal do Coruripe, município de Coruripe, distante 130 quilômetros de Maceió, no litoral sul do Estado. Hospedaram-se numa pousada, de onde saíram para cumprir o objetivo da viagem: cobrar dívidas de clientes que têm casa de veraneio no lugar. José Cerqueira fez o último contato com a família na segunda-feira, 18 de agosto, e marcou para o dia seguinte almoço com sua mãe. Avisou que estava saindo da pousada junto com o motorista, Magelo, e que dormiria na casa de um amigo. Ele foi visto pela última vez na manhã do dia 19 de agosto, quando deveria retornar a Arapiraca. O veículo em que viajavam até agora não foi encontrado. As jóias, o dinheiro e as promissórias que Cerqueira levava, além dos documentos pessoais, seus e de seu motorista, também sumiram. Os restos mortais dos dois foram encontrados no dia 21 de novembro de 2003, três meses depois do desaparecimento. Estavam enterrados numa cova rasa em um canavial pertencente à Usina Guaxuma, em Coruripe. Depois de cinco meses, quando o assunto já parecia andar meio esquecido na polícia, a confirmação do DNA das ossadas força o andamento das investigações. (CG)