Polícia
Ouvidor: crime organizado demonstra for�a
EDNELSON FEITOSA ?O atentado contra o deputado Cícero Ferro, em Minador do Negrão, foi uma nova demonstração de força do crime organizado no Estado?. A afirmação é do chefe da Ouvidoria Nacional da Secretaria Especial de Direitos Humanos, advogado Pedro Montenegro. Segundo ele, a ação do sindicato do crime em Alagoas tem duas características particulares: a da execução ? quando as vítimas são amarradas ou algemadas, mortas com vários tiros, sendo um deles na cabeça, e seus corpos são levados para um local de desova ? e o da pistolagem ? que se constitui em emboscada praticada por matadores profissionais, utilizando carros ou motocicletas para praticar o homicídio. Montenegro afirma que pela maneira como a ação foi praticada, revela qual foi o grupo responsável. ?Nesses crimes, em geral até se sabe quem foi o mandante ou mesmo participou, mas o difícil é reunir provas?, admite o Ouvidor da Secretaria Especial de Direitos Humanos. No caso de o mandante se tratar de políticos, a polícia enfrenta dificuldades ainda maiores. O advogado destacou haver claros indícios de crime de execução, praticada por grupos de extermínio, em chacinas no Estado. Na chacina ocorrida em União dos Palmares, lembrou ele, quatro adolescentes foram executados a tiros. O crime tem como suspeitos policiais militares destacados no município. No entanto, lamentou o ouvidor federal, o crime continua impune. Há impunidade também, no entender de Pedro Montenegro, em chacinas acontecidas há quase dez anos. Por exemplo, os nove assassinatos praticados pela polícia no Condomínio Solares, em Cruz das Almas. As vítimas eram pessoas suspeitas de assalto a banco. O chefe da Ouvidoria da Secretaria Especial de Direitos Humanos declarou-se preocupado com a ação de pistoleiros assalariados no Estado. Diferente do que acontecia no passado, quando tinha ?gente que procurava um pistoleiro como se tivesse indo consultar um profissional liberal. Hoje existe a figura dos intermediários, o que atrapalha a apuração da polícia. Nem sempre o intermediário que fez o contato com o pistoleiro sabe informar quem foi o mandante do crime, pois o contato foi feito por outro intermediário?. Sindicato do crime Na opinião de Montenegro, a promiscuidade do sindicato do crime alagoano e seus profissionais da morte com o mundo formal foi explicitada pelo assassinato da deputada Ceci Cunha ? executada junto com três parentes, segundo as polícias Civil e Federal, a mando do ex-deputado Talvane Albuquerque. Na época, o então integrante do fórum permanente contra violência em Alagoas afirmou em entrevista à agência AJB que: ?em que outro lugar um renomado e confesso pistoleiro iria entrar na Polícia Federal como convidado para prestar depoimento e ainda dar entrevista coletiva antes de voltar calmamente para casa??. O advogado referiu-se a Maurício Novaes, o Chapéu de Couro, que acusou Talvane de tentar contratá-lo para executar o crime. Pedro Montenegro garantiu que a instalação de delegacias especiais e treinamento de policiais especializados no trabalho de inteligência - um grupo de elite -, com participação direta de peritos dos institutos de Criminalística e de Medicina Legal, apoiados por um Programa de Proteção a Vítimas e a Testemunhas, pode reverter o quadro de impunidade. Destacou que o governo federal está preocupado com a ação do crime organizado em todo o País e que defende uma ação integrada de todos os Estados, no combate à violência. Justiceiros se envolvem em chacinas Entidades da sociedade civil organizada acompanham os resultados dos trabalhos da polícia em crimes supostamente praticados por grupos de extermínio no Estado. O levantamento foi publicado em relatório recente (2003) da Organização Não-Governamental Justiça Global, citando como fonte o setor de Direitos Humanos da OAB/Alagoas. O documento reforça as denúncias do advogado Pedro Montenegro de que ?justiceiros? estão envolvidos na maioria das chacinas ocorridas em Alagoas, nos últimos dois anos; bem como, de que na maioria dos crimes não há uma rigorosa investigação. Vale da Morte (Marechal Deodoro) ? Um único indiciado. Este é o resultado das investigações para os oito corpos e duas ossadas encontradas em um matagal, na fazenda Humaitá, em Marechal Deodoro. O local foi conhecido com o ?Vale da Morte?, em razão do estado avançado de putrefação de alguns corpos. A morte foi violenta, efetuada por armas brancas e de fogo. No começo deste ano, o agente policial, motorista da Secretaria de Defesa Social, José Albérico Gomes Lima, foi indiciado. Chacina da Santa Lúcia ? Quatro policiais militares mataram quatro jovens, que conversavam em casa. Segundo a OAB, um dos policiais tinha se encontrado com uma das vítimas horas antes para fumar maconha. Os policiais Adelson Tenório da Conceição, João Costa Pereira, Valdir Antônio Pereira e Adriano Christian dos Santos foram pronunciados pela Justiça, conforme demonstra o relatório da Justiça Global. Chacina do Conjunto Margarida Procópio (Rio Largo) - Dois adolescentes foram executados por supostos policiais militares. Eles se encontravam em um campo de futebol. Há possibilidade de que os mandantes tenham sido do ?Movimento Ninja?, e também da Polícia Militar. Ninguém foi punido. Chacina da Praça Arnon de Mello - Dois indiciados. Este é o saldo dos seis mortos na famosa chacina. Geovânio de Brito Silva e Ronaldo Barbosa da Silva foram indiciados ainda em 1996. Chacina do Edifício Solaris - Policiais militares invadiram o prédio, em Jatiúca, com a acusação de que os jovens tinham assaltado uma agência bancária. Houve troca de tiros. Dois foram os indiciados: o agente de polícia e o chefe da Delegacia de Roubos e Furtos, Marcos Antônio Barbosa Guimarães. Chacina de Palmares (Pernambuco) - Sete corpos de alagoanos foram encontrados depois de serem presos pela Polícia Civil, dias antes, em Maceió. Eles eram acusados de roubo em uma Serraria, em Maceió. Foi aberto inquérito para apurar a possibilidade de irregularidade da Polícia Civil. Existe um procedimento administrativo apurando a responsabilidade de policiais. O procedimento, de acordo com a OAB, não é criminal, mas apenas informa os profissionais que estavam no dia da chacina. Chacina do Jardim das Acácias ? Dois adolescentes foram mortos e mais dois foram atingidos por disparos de pistola calibre 380, num suposto assalto, ocorrido em uma locadora. Três pessoas (Fábio Moraes de Souza, Márcio dos Santos e José Cícero dos Santos) foram presas. O que chamou a atenção foi o fato de que o detento Francisco José de Assis, o ?Tico?, deixou o presídio para comandar a chacina.