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Jesse James se apresenta e fica preso no Tigre

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GILVAN FERREIRA O policial civil Jesse James Viana, ?o Neno?, assessor do deputado João Beltrão e acusado de ser o mandante das mortes do vendedor de jóias José Cerqueira e do seu motorista Majelo da Silva, está preso desde ontem em uma das salas do Grupamento Tigre, no Farol. Jesse James chegou à sede do Tigre, às 14 h, uma hora antes da expedição do mandado judicial que autorizava sua prisão. O mandado foi assinado, ontem à tarde, pelo juiz de Coruripe, Carlos Henrique Pitta Duarte, acatando o pedido apresentado pelo delegado Marcílio Barenco. Jesse James chegou ao Tigre sorrindo, acompanhado de seu advogado e cumprimentando os policiais civis que estavam de plantão no grupamento. A imprensa foi impedida de ter acesso ao local e não pôde fazer imagens ou fotografias de Jesse James. A apresentação de Jesse James surpreendeu o chefe do Grupamento Tigre, José Laurentino, que preparava sua equipe para as buscas ao assessor do deputado João Beltrão. Surpreendeu também o delegado Marcílio Barenco, que foi informado por um dos advogados do acusado da sua apresentação antes da expedição do mandado de prisão pelo juiz Pitta. ?Jesse James chegou ao Tigre acompanhado de um de seus advogados, muito antes de recebermos o mandato de prisão, que só chegou às nossas mãos cerca de uma hora e meia depois da sua apresentação?, explicou José Laurentino. Para o delegado Barenco, o fato de ter se antecipado à decisão do juiz Carlos Henrique Pitta Duarte reforça a tese de que Jesse James e os outros acusados de envolvimento no duplo assassinato estão recebendo informações privilegiadas que estariam atrapalhando as investigações. Na reapresentação do pedido de prisão provisória, o delegado Barenco cita que foi necessário suspender uma operação de busca e apreensão, autorizada pela Justiça, porque a informação havia sido repassada antecipadamente ao acusado. ?Acho muito estranho que Jesse James venha recebendo informações tão privilegiadas. Ele já sabia que iríamos fazer uma busca domiciliar; o advogado dele me ligou perguntando o dia em que faríamos essa busca. Hoje (ontem), o advogado dele me ligou novamente, dizendo que estava levando Jesse James para se apresentar ao Tigre. Mas nós ainda não tínhamos a expedição do mandato de prisão pelo juiz Carlos Henrique Pitta. Esses fatos nos levam a acreditar que os acusados estão recebendo informações privilegiadas, que podem atrapalhar as investigações?, alertou Barenco. Prisão especial Segundo o delegado Laurentino, Jesse James, por ser policial civil, deve ficar recolhido no alojamento dos policiais do Tigre ou em uma cela especial, isolada dos outros presos. A decisão ainda iria ser tomada pelo secretário de Defesa Social, Robervaldo Davino, que não tinha se posicionado sobre essa decisão. Ele poderá receber visitas três vezes por semana e comida vinda de fora. Laurentino disse que o assessor do deputado João Beltrão não deve receber outras regalias durante seu período de prisão temporária, que pode ser prorrogado por mais 30 dias ou revogada pelo juiz Pitta Duarte. Fita revela ameaças feitas em conversa com uma irmã A polícia revelou ontem à GAZETA o conteúdo da fita com a gravação de um telefonema entre Jesse James e uma irmã, que ele trata como ?Nena?. O policial foi grampeado com autorização judicial, depois que indícios levantados pela polícia revelaram sua suposta participação nos assassinatos do vendedor de jóias José Cerqueira e do motorista Majelo da Silva. A gravação tem duração de seis minutos. O policial civil e vereador Jesse James fala sobre o estado de saúde da mãe. E promete vingança contra delegados e jornalistas da GAZETA que fazem a cobertura do caso Coruripe. Na gravação, o policial civil diz que ?estão querendo pegar o João Beltrão, e como não podem, querem me pegar?. Escuta A autorização para grampear o telefone de Jesse James foi dada pelo juiz de Coruripe, Carlos Henrique Pitta Duarte. A polícia montou escuta e gravou a conversa do policial com sua irmã no último dia 13 de março. Estranhamente, na gravação, Jesse James diz à irmã que sabe que seu telefone está grampeado. E parece falar para ser ouvido, numa atitude de desafio. As ameaças foram feitas um dia depois de Jesse James ser ouvido no Departamento de Polícia do Interior (Depin). O conteúdo da gravação foi peça decisiva para que o delegado Marcílio Barenco fizesse um novo pedido de prisão. O primeiro havia sido negado pelo juiz Pitta Duarte. ?Vão me pagar? O assessor do deputado João Beltrão diz, na conversa com sua irmã, que os delegados do caso Coruripe e os jornalistas da GAZETA são responsáveis por tudo o que está acontecendo a ele e promete vingança. ?Vão me pagar; de um por um me paga?, afirma num trecho na gravação. O suspeito número um no duplo assassinato de Cerqueira e Majelo é incentivado por sua irmã, quando diz que é inocente e vai se vingar. ?Você tá levando a culpa sem merecer, dessa vez vai levar merecendo?, diz ela ao ouvir do irmão suas ameaças contra os delegados da Polícia Civil e os dois jornalistas citados por Jesse James. ?Vou matar um por um?, afirma Jesse na gravação Jesse James Viana (Neno) conversa com uma irmã (Nena) sobre o estado de saúde da mãe, que está internada. No meio do diálogo, começam as ameaças de morte. A seguir, trechos da gravação feita pela polícia, onde o policial civil e assessor do deputado João Beltrão promete vingança por estar sendo notícia como um dos suspeitos na morte de Cerqueira e Majelo. Jesse James - ?Se minha mãe vier a falecer, aí gente vai pagar. Não tem no mundo quem me segure não. Eu tenho minha consciência tranqüila que não devo nada a ninguém. Se minha mãe vier a falecer, a redação da Gazeta se prepare, entendeu? O que acontecer com minha mãe hoje, a culpa é da Gazeta. O telefone está grampeado. E eles estão ouvindo eu dizer tudo isso?. Nena ? ?Sei?. Jesse James ? ?Eu espero que quem tá fazendo tudo isso comigo ? delegado, a Gazeta ? vão me pagar tudinho. Eu tenho só eu e minha mãe. Alguém me paga, e não vai ser um só não. Vão me pagar, de um por um me paga. Eu sei quem é esse Plínio Lins, que é da Gazeta. Não é um só não. Tem também esse Ednelson Feitosa (...). Aí eu vou dizer a eles: vocês vão ver agora o que é um bandido. Eu vou matar de um por um, de escadinha?. Nena ? ?Já que você tá levando a fama sem merecer, então dessa vez você vai levar merecendo?. Jesse James ? ?Pra mim não vai ter delegado de polícia, pra mim não vai ter diretor, esse Mário Jorge. Pra mim não vai ter esse Plínio Lins, Ednelson Feitosa. Contei e marquei a hora de morrer. Eles sabem que sou inocente, ficam querendo pegar o João Beltrão, e sem poder pegar o João Beltrão ficam querendo me pegar. Mas vou fazer uma escadinha, de um por um?. ?Foi um momento infeliz?, diz advogado O advogado de Jesse James Viana, José Fragoso, tentou diminuir a gravidade das ameaças aos delegados Marcílio Barenco e Mário Jorge Marinho e aos dois jornalistas da GAZETA DE ALAGOAS. ?Jesse James falou aquilo num momento infeliz?, argumentou Fragoso. ?Ele havia perdido o pai recentemente e estava com a mãe na UTI de um hospital. Ele explicou que não tem essa intenção. Tudo isso não passou de um desabafo de uma pessoa que estava passando por um momento difícil?, disse. José Fragoso disse que ainda iria analisar a possibilidade de entrar com um recurso para colocar Jesse James em liberdade antes do prazo de 30 dias da prisão temporária, que pode ser prorrogada ou transformada em prisão preventiva pelo juiz Carlos Henrique Pitta Duarte. ?O nosso prazo é muito exíguo. Como a prisão temporária é de 30 dias, vamos analisar a possibilidade de impetrar um habeas-corpus, mas ainda vamos analisar essas possibilidades?, explicou. Mais perto O delegado Marcílio Barenco disse que a prisão de Jesse James vai ser fundamental para o esclarecimento das mortes de José Cerqueira e do motorista Majelo da Silva. Barenco disse que, em liberdade, Jesse James ?era uma ameaça às investigações, já que ele mantém um forte poder no município de Coruripe?. ?Com a prisão de Jesse James temos certeza que poderemos chegar mais perto do esclarecimento dos crimes. Vamos intensificar as investigações e as buscas de provas, que também inclui outros crimes que têm Jesse James como suspeito?, disse Barenco. O delegado confirmou que o juiz Pitta Duarte acatou o pedido de dilatação do prazo para a conclusão do inquérito policial. Barenco disse que pretende ouvir cerca de 20 testemunhas do caso e realizar novas diligências. O inquérito deve ser concluído até o fim de abril. Para entender o caso Na manhã de 19 de agosto de 2003, antes de deixar a cidade de Coruripe, o vendedor de jóias José Cerqueira e o seu motorista Majelo da Silva tinham no roteiro realizar uma última cobrança de jóias que haviam vendido, na véspera, ao deputado estadual João Beltrão e ao seu assessor Jesse James Viana, o ?Neno?, que marcara um encontro com os dois para as 6 horas da manhã daquele dia. O encontro serviria para Jesse James quitar uma dívida de R$ 320, referente à compra de uma pulseira de ouro. Sem desconfiarem da proposta do assessor do parlamentar, José Cerqueira e Majelo da Silva chegaram ao local combinado no horário determinado. Estavam com pressa e já haviam avisado as suas famílias que estariam de volta a Arapiraca, onde residiam, naquele mesmo dia. O último contato com as duas famílias aconteceu na véspera do dia fatal. Cerqueira contara aos parentes que tinha vendido jóias ao deputado João Beltrão e a pessoas ligadas ao parlamentar. Cerqueira e Majelo foram apresentados ao deputado João Beltrão por José Santos Cunha, o ?Baiano?, que os levou à residência do parlamentar, na praia do Pontal do Coruripe. Na residência de Beltrão, José Cerqueira encontrou Jesse James, assessor e chefe da segurança de João Beltrão, que também se interessou pela compra de uma pulseira de ouro. Segundo testemunhas do encontro dos dois vendedores com Jesse James, no dia 19, Cerqueira e Majelo deixaram a casa de ?Neno? aparentemente contrariados. Meia hora depois de saírem da residência de Jesse James, o veículo de José Cerqueira, um Palio cinza, foi interceptado por dois homens numa moto vermelha. O homem que vinha na garupa da moto desceu atirando e acertou a cabeça de Cerqueira, que morreu no local. O motorista Majelo foi obrigado a descer do veículo e ajudar a colocar o corpo do patrão na mala do veículo. Majelo teria sido assassinado em um canavial próximo à Fazenda Limão, em Coruripe. As ossadas de José Cerqueira e Majelo da Silva foram encontradas no dia 21 de novembro de 2003, em um canavial às margens do trevo de acesso à Usina Guaxuma, em Coruripe. Os assassinos levaram o Palio de Cerqueira, as jóias, avaliadas em R$ 60 mil, e as promissórias das vendas realizadas em Coruripe, inclusive uma, no valor de R$ 1 mil, que referia-se à compra feita pelo deputado João Beltrão. José Guilherme dos Santos, o Zé Bilu, que teria sido o homem que enterrou em cova rasa os corpos de Cerqueira e Majelo, foi executado no dia de Natal do ano passado.

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