Polícia
Esposa de juiz � indiciada no caso Macl�ia
EDNELSON FEITOSA A proprietária rural Amália Miranda Lopes, esposa do juiz de Anadia, Willamo de Omena Lopes, foi indiciada em inquérito como suspeita de mandante do seqüestro, assassinato e ocultação do cadáver de Macléia dos Santos Souza, 23, que morava em Atalaia e foi encontrada morta, por estrangulamento, no último dia 27 de fevereiro, na zona rural do município de Boca da Mata. Também foi indiciado o mototaxista José Sérgio Azevedo da Silva, que está preso, por determinação judicial, como autor material do crime. As investigações foram concluídas e remetidas à Justiça ontem pelo delegado de Atalaia, Ednaldo Marques, que precisou ouvir o padre da cidade, José Arnaldo da Silva, para concluir que o mototaxista mentiu nos quatro interrogatórios prestados à polícia. Segundo o delegado, o crime teve motivação passional: Macléia teve um filho num relacionamento com o juiz Willamo Lopes. Contradições ?José Sérgio entrou em várias contradições?, disse o delegado. ?A principal foi quanto ao horário em que supostamente havia deixado Macléia numa praça de Atalaia. Sérgio declarou que a vítima ficou no local às 20 horas, por causa da procissão da padroeira que passava pela praça. No entanto, o padre declarou que a procissão terminou às 19h30?. Macléia dos Santos Souza desapareceu de casa na noite do dia 2 de fevereiro, conforme declarações de sua mãe, a dona-de-casa Inês dos Santos. Ela informou ao delegado que a filha disse que iria com o mototaxista a Teotônio Vilela, pois José Sérgio havia prometido lhe emprestar R$ 50,00 de um dinheiro que teria que receber naquele município. Na queixa, a mãe de Macléia afirmou que a filha não tinha inimigos declarados, a não ser Amália Lopes, esposa do juiz Willamo. Macléia e o juiz tiveram um caso amoroso do qual nasceu um filho, hoje com um ano e nove meses. Foi Inês quem indicou o mototaxista como suspeito da morte da filha, dizendo que Sérgio chamou Macléia para uma viagem sem volta. *** Suspeitos entram em contradições Inês dos Santos, mãe de Macléia, revelou também fatos confirmados em outros depoimentos: o interesse de Amália Miranda Lopes afastar sua filha em definitivo do juiz. Segundo Inês, no ano passado Amália esteve em sua casa quase mandando Macléia ir embora de Atalaia, por não aceitar que a amante de seu marido continuasse, com o filho de ambos, na mesma cidade em que ela vive, onde tem casa e fazenda. Nas investigações, ficaram igualmente evidentes as ameaças veladas de Amália, quando mandou o soldado PM Joab, uma espécie de segurança da mulher do juiz, insistir na proposta de que Macléia fosse morar em outro lugar. Joab, de acordo com o relato de Inês, chegou a retirar as munições de seu revólver e apontar a arma para Macléia e acionar o gatilho, dizendo: ?Veja como é fácil matar uma pessoa?. Amália, em seu depoimento, segundo seu advogado, disse que Joab pressionou Macléia por ordem do juiz Willamo, e não dela. A localização do corpo da vítima num canavial de Boca da Mata levou o delegado a apressar as diligências, intimar o soldado PM Joab, interrogar pela quarta vez o mototaxista e intimar a esposa do juiz para prestar depoimento à polícia. O delegado revelou ter levantado indícios de que José Sérgio seqüestrou Macléia a mando de Amália, e que o plano começou a ser montado no ano passado, após a esposa do juiz tomar conhecimento do relacionamento do marido com a jovem. Segundo o delegado Marques, a principal pista é a compra de uma motocicleta por parte da proprietária rural, supostamente para Sérgio trabalhar como mototaxista. Amália afirmou que financiou a motocicleta para Sérgio a pedido do irmão dele, Aparecido, filho de criação dela com o marido Willamo. No entanto, existem testemunhas de que a compra da moto foi o primeiro passo da trama que resultou no assassinato de Macléia. Outro ponto que levou o delegado a concluir pela culpa de Amália no crime foram as contradições de seu depoimento. Enquanto Sérgio entrou em várias contradições, sua suposta cúmplice se complicou em duas colocações. Primeiro, quando destacou não saber quantas vezes e quando ligou para o mototaxista e afirmou que recebeu ligações dele, assustado com a hipótese de ser interrogado pela polícia no inquérito sobre o desaparecimento de Macléia. *** Quebra de sigilo comprova ligações O mototaxista José Sérgio declarou à polícia que realmente ligou para Amália Miranda, mas para falar sobre o pagamento da prestação da motocicleta. Amália garantiu em seu interrogatório que quem ligou para perguntar sobre o pagamento foi ela. No entanto, a quebra do sigilo telefônico de Amália provou que houve muito mais troca de ligações do que eles estão afirmando. Na última quinta-feira, Inês dos Santos, mãe de Macléia, foi levada por policiais da Delegacia de Atalaia para o Instituto Médico Legal Estácio de Lima, para que fosse coletado sangue que será usado no exame de DNA de material recolhido do cadáver de mulher achado em Boca da Mata. Inês identificou o cadáver como sendo de sua filha, por meio de uma sandália, uma presilha de cabelo e restos de roupa. Estrangulamento O delegado Ednaldo Marques contou que, no laudo cadavérico, consta que a vítima morreu estrangulada, em virtude de graves lesões na laringe. Ela teve, ainda, fratura numa das costelas. No entanto, a carbonização ocorreu quando ela já estava morta, provavelmente na véspera de o corpo ser encontrado, quando houve queimada no canavial onde foi feita a desova do cadáver. Não havia como identificar indícios de tortura ou de violência sexual: mesmo que existissem sinais, seriam mascarados pelo adiantado estado de decomposição do corpo. O inquérito concluído foi encaminhado ao juiz Manoel Tenório de Oliveira, no Fórum de Atalaia. Ele deve abrir vistas ao promotor local, que poderá ou não oferecer a denúncia dos dois acusados. Caso contrário, ele devolverá o processo à polícia, para que sejam realizadas diligências complementares. O processo, por envolver ? por enquanto indiretamente ? um juiz, corre em segredo de Justiça. (EF)