Polícia
Caso Macl�ia: Justi�a autoriza a exuma��o
EDNELSON FEITOSA O juiz de Atalaia, Manoel Tenório, autorizou ontem a exumação do corpo que está sepultado no cemitério de Branca de Atalaia e que foi identificado como sendo de Macléia dos Santos Souza, 23. Ela desapareceu no dia 2 de fevereiro e o corpo foi encontrado num canavial em Boca da Mata, no dia 27 do mesmo mês. A identificação foi feita pela mãe de Macléia, Inês dos Santos Souza, a partir de uma sandália, uma presilha de cabelo e restos de roupa. Um pedaço de tecido do cadáver, recolhido para exame de DNA, foi rejeitado pelo laboratório da Ufal, porque estava necrosado e imprestável para o exame. Daí, a necessidade de exumar o cadáver para recolher material mais sólido ? um osso ou dente. Segundo o delegado do caso, Ednaldo Marques, a autorização do juiz para a exumação foi encaminhada ontem mesmo para o Instituto Médico Legal, e o procedimento de retirada do cadáver deve ser feito esta semana. O cemitério de Branca de Atalaia, onde está sepultado o corpo que seria de Macléia, não é seguro. Se alguém quiser, pode trocar o caixão ou retirar o cadáver com facilidade, antes de o IML fazer a exzumação porque não há vigilância, principalmente à noite. Os coveiros estão assustados, pois pessoas estranhas têm rondado o local, perguntando onde fica o túmulo da jovem. A denúncia de que a sepultura pode ser violada ? em tese, para trocar os corpos e impedir a identificação pelo DNA ? partiu da dona-de-casa Inês dos Santos, mãe de Macléia. Segundo ela, moradores de Branca de Atalaia, um povoado distante 7km do perímetro urbano de Atalaia, perceberam uma movimentação anormal de veículos e pessoas desconhecidas nas imediações do cemitério, localizado às margens da rodovia BR-316. ?Tem gente falando que quer roubar o corpo de minha filha para tirar o celular que estava com ela. Outros dizem que é para desaparecer com ela?, afirmou a dona-de-casa. Segundo Inês dos Santos, o problema é tão sério que ?há comentários de que já roubaram o corpo dela na semana passada, para esconder que Macléia morreu e foi enterrada aqui?, afirma, sem entender que sem o corpo não existe crime e os acusados não teriam qualquer pena a pagar. ?Querem abrir o mausoléu para ver se é ela mesmo. Eu posso garantir que é ela, pois fui eu quem fiz o reconhecimento no IML?, continuou ela. ?Uma mãe não se engana. Era ela. O corpo estava quase normal da cintura para baixo. Eu vi as perninhas, que eram fininhas iguais às minhas. Reconheci as sandálias, a presilha, os pedaços de roupa. Era minha filha que estava ali, morta. Pode abrir que eu deixo?, frisou Inês. Defesa Quem levantou a hipótese de o corpo sepultado não ser de Macléia foi o advogado Carlos Pedrosa, que defende a fazendeira Amália Lopes, esposa do juiz Willamo de Omena Lopes, que teve um caso com Macléia, com quem teve um filho, segundo o próprio magistrado admitiu. Pedrosa também é advogado do mototaxista José Sérgio de Azevedo, apontado como autor material do crime. Sérgio teria seqüestrado e assassinado a jovem, a mando de Amália, de quem teria, segundo o inquérito, ganho uma motocicleta. Para Carlos Pedrosa, não existe crime porque o corpo enterrado em Branca de Atalaia não é de Macléia. Agora, com a exumação e o exame de DNA, a dúvida poderá ser desfeita. ### ?Se quiserem levar o corpo, levam? Os coveiros do cemitério de Branca de Atalaia estão com medo. Não vão mais ao cemitério à noite, pois não existe iluminação. Os fios foram arrancados e roubados. ?Aqui é perigoso até durante o dia?, declarou o coveiro Cícero Jeremias, filho do coveiro José Jeremias, o primeiro a trabalhar no cemitério de Branca de Atalaia. ?Esteve gente aqui, de dia, perguntando onde foi enterrada a Macléia. Existem pessoas e carros rondando o cemitério, desde que ela foi enterrada aqui. Não sei qual é o interesse de pessoas estranhas por esse túmulo?, disse o coveiro. Seu colega, o também coveiro José Sebastião da Silva, foi quem fechou o mausoléu quando o corpo de Macléia foi sepultado, dia 28 de fevereiro. Ali também está sepultado o avô de Macléia, João Lourenço, morto há três anos. ?Posso garantir que até hoje [ontem], ninguém mexeu. Está tudo como eu fiz. Mas se alguém quiser vir buscar o corpo, pode ter certeza de que leva. Não tem ninguém tomando conta. Só vem aqui à noite quem tem coragem?, frisou ele. Ele visita o cemitério três vezes, mas só durante o dia. Sebastião se disse preocupado. Jamais um túmulo do cemitério foi dilapidado, apesar de o muro do cemitério ser baixo, pouco mais de um metro e meio, e estar um pouco afastado das casas do povoado. Exame de DNA O corpo identificado por Inês de Souza como sendo de sua filha Macléia está enterrado no cemitério de Branca de Atalaia, desde a tarde do último dia 28 de fevereiro, quando foi reconhecido pela mãe e liberado pelo Instituto Médico Legal Estácio de Lima, que considerou a identificação positiva, mas alertou para a necessidade de exame de DNA. O delegado Ednaldo Marques tomou conhecimento dos problemas no cemitério de Branca de Atalaia por meio da GAZETA. Alegou que não tem pessoal para fazer a segurança do cemitério, pois somente quatro policiais trabalham na delegacia do município. (EF) ### Filho de Macléia não foi registrado A dona-de-casa Inês dos Santos denunciou que está se sentindo ameaçada desde que o mototaxista José Sérgio Azevedo foi colocado em liberdade, por determinação judicial. ?Ele começou a andar aqui na Branca de Atalaia como se pretendesse amedrontar a mim e a minha família. Até meu irmão, Lula, que tem cobrado providências da polícia, está sofrendo ameaças. Uns carros desconhecidos rondaram a casa dele em Atalaia?, garantiu ela. Após o desaparecimento de Macléia, Inês começou a se sentir insegura e se mudou de sua casa, em Atalaia, passando a morar com a mãe, Maria Dalvina Dantas, 82, em Branca de Atalaia, pois poderia receber assistência dos familiares. Ela reclamou do ?desinteresse? do juiz Willamo pelo filho que teve com Macléia, que não tem certidão de nascimento. Ele se limita a mandar o dinheiro (R$ 180) da pensão. Até hoje, a criança, de quase dois anos, tem como único documento uma declaração de nascido vivo, expedida pela Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, datado de 30 de abril de 2004, relatando que o menino nasceu às 15h20. ?Meu neto é um inocente que nem foi batizado. É preciso que ele registre para eu poder batizar?, destacou ela. (EF) ### Diretor admite substituir delegado BLEINE OLIVEIRA O diretor-geral da Polícia Civil, Roberto Lisboa, admite substituir o delegado Ednaldo Marques, responsável pelo inquérito que apura a morte de Macléia dos Santos Souza, se houver necessidade e ?elementos suficientes para justificar uma decisão como essa?. A declaração de Lisboa surgiu em decorrência das críticas feitas ao delegado, que vêm tanto da promotoria de Atalaia quanto da defesa dos acusados pelo crime. O promotor de Justiça Nilson Miranda, da comarca de Atalaia, onde Macléia residia, devolveu o inquérito à Polícia Civil pedindo novas investigações para esclarecimento do crime. ?Pelo inquérito, não dá para saber com certeza nem mesmo se o corpo é realmente de Macléia? ? disse o promotor. Depois de analisar o inquérito, o promotor declarou não ter encontrado elementos suficientes para denunciar Amália Omena Lopes e José Sérgio Azevedo da Silva, apontados como mandante e executor do assassinato. Contratado para defender Amália e José Sérgio, o advogado Carlos Pedrosa também ?disparou? contra o inquérito policial. Para tirar da cadeia o mototaxista apontado pela polícia como a pessoa que executou a jovem cumprindo ordens de Amália Lopes, Pedrosa acusou o delegado de agir ?de forma arbitrária, pois não havia provas suficientes da participação de José Sérgio?. O mototaxista ficou 17 dias preso na delegacia de Atalaia, até ser solto na última sexta-feira, 18. Para Carlos Pedrosa, o delegado concluiu o inquérito com muitas falhas, considerando apenas uma linha de investigação. Em entrevista à GAZETA, o advogado disse que o inquérito da Polícia Civil foi conduzido ?de forma dirigida? para incriminar Amália Miranda Lopes e José Sérgio. ?Não existem provas suficientes para que sejam denunciados?, acrescentou Pedrosa. Ao ser questionado sobre essas críticas, o diretor-geral da Polícia Civil, Roberto Lisboa, disse que Ednaldo Marques pode ser substituído no comando das investigações, se houver fatos que justifiquem a medida. Ele admitiu que o delegado não incluiu no inquérito o fato de Amália ter sido ouvida na Delegacia de Defesa da Mulher pelas ameaças de morte que teria feito a uma médica por ciúmes do marido, o juiz Willamo Lopes. Para o delegado Roberto Lisboa, cabe ao delegado buscar o apoio de seus superiores se estiver enfrentando dificuldades na investigação ou sofrendo qualquer tipo de ameaça ou interferência. ?É um caso difícil, envolve um juiz, por isso as pessoas não prestam esclarecimentos. Mas o delegado deve ter ousadia. Esperamos dele uma conduta ilibada, que cumpra as normas legais, sem prejudicar ou beneficiar quem quer que seja? ? afirmou o diretor-geral. Entretanto, ele ressalta que o delegado Ednaldo Marques ?tem apoio da Secretaria de Defesa Social e permanecerá no caso?.