Polícia
Rebeli�o de presos vira jogo de empurra
EDNELSON FEITOSA Repórter O chefe de disciplina do Presídio Rubens Quintella, José Cristovão Ferreira da Silva, e o comandante do Grupo de Ações Penitenciárias (GAP), Ailton Rosa de Carvalho, prestaram depoimento ontem ao delegado Denisson Albuquerque sobre a rebelião que provocou a morte de dois e ferimentos em outros 11 presos. Segundo o delegado, eles entraram em contradições, não revelaram quem espancou os detentos, nem a identidade dos guardas que efetuaram os disparos que mataram Carlos Henrique Barbosa de Lima, o ?Pipoca?, e Ronaldo dos Santos, que teve o corpo carbonizado pelos companheiros. Ailton negou as agressões que teriam sido praticadas por guardas do GAP na semana anterior à rebelião. O espancamento de cerca de 20 detentos teria esquentado o clima dentro do Presídio Rubens Quintella e culminado com a revolta dos presos uma semana depois. Ele garantiu que Cristovão, o chefe de disciplina no dia, era testemunha de que não ocorreu tortura. No seu depoimento, Cristovão disse que não assistiu à agressão, pois não estava no local. Limitou-se a afirmar que pediu ajuda do GAP, porque precisava realizar revista de celas. Havia suspeita da existência de espetos com os detentos. O delegado informou que o episódio das agressões se tornou um ponto de partida para que os líderes da rebelião convencessem os demais detentos a enfrentar os guardas. No entanto, havia outros problemas como a exigência do pernoite das esposas, que não era aceito pelo diretor José Francisco Lima. Inclusive, os guardas tinham sido informados que os presos conseguiram os espetos, porque pretendiam fazer um guarda refém e exigir que a direção cedesse na questão do pernoite e na reivindicação de terem televisão e fogão dentro das celas. ?Quando faltou água por cinco dias, a situação ficou insustentável, e houve o motim?, esclareceu o delegado Denisson Albuquerque. O chefe de disciplina e o comandante do GAP declararam que não assistiram à confusão que culminou com a rebelião no Presídio Rubens Quintella. Cristovão alegou que não se encontrava no local, enquanto Ailton destacou que o GAP estava proibido de entrar no presídio, desde que ocorreram as denúncias de maus-tratos de presos. O delegado alertou que se continuar o que pode se qualificar como ?jogo de empurra?, vai indiciar todos os guardas que estavam de plantão no dia 11 de junho, quando os dois detentos foram executados a tiros dentro do Rubens Quintella. Denisson revelou que vai ouvir Givanildo Soares de Cerqueira, o chefe de disciplina do dia, para saber se ele estava no local. ### Laudos dirão se houve ou não excessos O delegado Denisson Albuquerque, que apura os casos de espancamento e mortes dentro do Rubens Quintella, afirmou ontem que os laudos do Instituto Médico Legal (IML) podem revelar se houve excesso dos guardas de presídio no episódio do último dia 11 de junho, quando dois detentos foram assassinados e outros 11 saíram feridos durante uma rebelião. No entanto, ele parece convencido de que os guardas abusaram, quando decidiram ir para o enfrentamento com os detentos, pois sequer havia a necessidade da ação, visto que não havia refém. Nesses casos, um negociador é chamado a intervir e intermediar a crise. Outro fato que chamou a atenção do delegado é que, apesar de o Boletim de Ocorrência informar que os detentos estavam armados com facas e espetos, somente presidiários acabaram mortos ou feridos. No conflito, morreram Carlos Henrique Barbosa de Lima, o ?Pipoca?, e Ronaldo dos Santos. Onze ficaram feridos, sendo os mais graves: Fernando Gomes Marinho e Mário Marques Barbosa. Todas as vítimas foram submetidas a exames no IML, que deverá precisar o instrumento utilizado para provocar os ferimentos. A maioria das vítimas foi atingida com tiros. Se as declarações do comandante do GAP, Ailton Rosa de Carvalho, prestadas ontem à polícia, pouco acrescentaram a respeito da questão dos espancamentos do dia 4 de junho, foram fundamentais para determinar que eram guardas do Rubens Quintella, reforçados por agentes penitenciários de outros presídios, que participaram da investida contra os rebelados. Maus-tratos No entanto, foi no depoimento do chefe de disciplina José Cristovão Ferreira da Silva que ficou evidenciado que o GAP estava dentro do presídio quando ocorreram os espancamentos e que foram guardas do grupo que cortaram o cabelo de dois presos para demonstrar que estavam no controle da situação, admitido por Ailton Rosa de Carvalho. Os problemas ocorridos no dia 4, segundo o delegado, resultaram na rebelião da semana seguinte. O advogado Everaldo Patriota, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Alagoas (OAB-AL), acompanha as investigações da polícia. Ele tinha recebido denúncias de maus-tratos no Rubens Quintella, mas não havia conseguido confirmá-las. |EF