Polícia
Morte revela face cruel da pobreza
BLEINE OLIVEIRA Repórter Mesmo traumatizado com a morte da filha, a adolescente Liziane Pereira da Silva, de 14 anos, o servente de pedreiro João Pereira da Silva, 45, está atento ao dinheiro que deve receber do seguro obrigatório, como é mais conhecido o Seguro de Danos Pessoais de Veículos Automotores e Terrestres (DPVAT). Procurado pela advogada Sandra C. C. de Andrade Batista ainda na madrugada de domingo, 10, quando o corpo da adolescente estava no Instituto Médico Legal (IML), ele já assinou a procuração para encaminhar à seguradora o pedido de pagamento da indenização pela morte da filha. O seguro, no valor de R$ 10.300,00, é pago em casos de atropelamento e acidentes envolvendo carro ou transporte coletivo - ônibus locais, interestaduais ou internacionais. O próprio pai mostrou o cartão da advogada, dizendo que ?estava tudo certo? em relação às despesas do funeral. ?A doutora já providenciou tudo?, disse João Pereira. Em estado de choque com a morte violenta de Liziane, ele conta que estava no ônibus que atropelou e matou a estudante. Morando com a mulher e quatro filhos num barraco de papelão numa ladeira do povoado Ipioca, o servente diz que estava voltando da casa de parentes por volta das 20h30 quando de repente ouviu uma batida forte. Mesmo assim o motorista do ônibus da empresa Atlântica, identificado como Jessé Batista, 37 anos, seguiu em frente até ser alertado pelo cobrador que lhe disse: ?Rapaz, tu atropelaste o pessoal?. O pai de Liziane diz que ao ouvir isso o motorista parou o ônibus alguns metros à frente. Como havia poucos passageiros no coletivo, todos desceram e seguiram em direção ao ponto onde ocorrera a batida. ?Não acreditei ao ver que era minha filha?, afirma João Pereira. Ela vinha de carona na bicicleta conduzida por Alexandre Marques da Silva, que sofreu fraturas na bacia (também chamada de pelve) e está internado na Unidade de Emergência. O pai conta que o motorista desenvolvia velocidade excessiva para o local e que atingiu os dois no momento em que fazia a manobra para entrar na pista de acesso ao povoado Saúde. ?Segurei na direção para obrigá-lo a me ajudar. Mas não adiantou, ele fugiu e me deixou ali, com minha filha morta?, relata João, acrescentando que foi ajudado por um rapaz que parou e telefonou para o Samu. Ontem, ao lado da mulher e dos filhos, João sepultou o corpo de Liziane, no cemitério de Ipioca.