Polícia
Transporte de carga acaba em trag�dia na BR-101
EDNELSON FEITOSA Repórter Uma viagem de 788 quilômetros que três sergipanos fariam entre Itabaiana (SE) e Natal (RN), levando uma carga de batata doce, acabou muito antes e de forma trágica. Eles foram vítimas do ataque de uma quadrilha especializada em roubo de cargas que age na rodovia BR-101, na Chã do Pilar, território alagoano. O grupo deixou Sergipe na noite de sábado no caminhão Mercedes-Benz 1620, placa KDU 2647/SE. O motorista Edivan Alves Peitoxo, 34, deveria se comunicar com o patrão, Nivaldo Góes Oliveira, 31, e com a família assim que chegasse, no mais tardar domingo à noite. CARONA Edivan estava na companhia do ajudante José Carlos de Oliveira, 31, e de Francilene Zeba, 33, esposa do motorista Nailson Cardoso, funcionário da mesma empresa, que tinha viajado para o Sul do País. Francilene pegou uma carona para Natal, para apanhar sua filha, de 10 anos, que estava passando uns dias na casa dos avós. ### Corpos foram encontrados crivados de bala em canavial O silêncio começou a preocupar Nivaldo Góes, patrão de Edivan Alves que, desde segunda-feira, tentava descobrir o que tinha acontecido com eles, visto que os clientes de Natal e de Mossoró, onde a carga deveria ser entregue, garantiam que o caminhão não havia chegado ao Rio Grande do Norte. Assustados com o sumiço e preocupados, pois sabiam dos riscos de assalto que correm os motoristas de caminhão que trafegam pela BR-101, parentes de Edivan, José Carlos e Francilene decidiram procurar Nivaldo para que juntos iniciassem uma busca para localizar o grupo. A primeira parada foi em Alagoas, onde eles descobriram, por meio de uma ligação telefônica, que haviam sido localizados os corpos de três pessoas na Chã do Pilar: dois homens e uma mulher. De imediato, o dono do caminhão e os parentes das vítimas rumaram para Maceió, onde, na manhã de ontem, fizeram o reconhecimento dos cadáveres. Edivan, José Carlos e Francilene tinham sido encontrados num canavial, em adiantado estado de decomposição, fato que leva o comerciante Nivaldo a crer que foram executados na madrugada do último domingo. Eles estavam amarrados com uma corda e apresentavam perfurações à bala em diversas partes do corpo, inclusive na cabeça. Matar as vítimas deve ter sido a solução encontrada pelos assaltantes para evitar que se soltassem e procurassem ajuda da polícia. Destino trágico O comerciante Nivaldo Góes de Oliveira revelou na manhã de ontem, em frente à Delegacia do Pilar, onde começaram as investigações do caso, que já desconfiava do destino trágico do grupo de sergipanos, desde que o motorista Edivan deixou de manter contato telefônico. No entanto, foi o telefonema para o IML que apressou a viagem para Alagoas. ?Soube que tinham sido encontrados três corpos e decidi vir imediatamente?, frisou ele, ressaltando ter sido a primeira vez que um de seus caminhões foi roubado no Nordeste. O comerciante Arivaldo Alves Peixoto, 64, pai de Edivan, destacou que o filho era um motorista experiente. Dirigia caminhão desde os 12 anos de idade e costumava viajar para todo o País. ?Conhecia muito bem os perigos das estradas do Nordeste. Sabia que não podia vacilar na BR-101, principalmente em São Miguel dos Campos, onde presume que tenha ocorrido o assalto?, assegurou ele. A estudante Fernanda Silva Santos, 16, sobrinha de Francilene, revelou que a tia estava morando em Itabaiana há dois anos, porque o marido tinha mudado de emprego. ?Não penso em outra coisa, sei que foi assalto?, disse. A delegada do Pilar, Paula Francinete, começou as investigações, ontem, no entanto, é possível que o caso seja transferido para a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas. Na manhã de ontem, os parentes das vítimas e o patrão foram ouvidos pela delegada. |eF ### Só este ano foram roubadas 33 cargas Os ladrões de carga estão indo além dos assaltos. Somente este ano, em Alagoas, já foram instaurados 33 inquéritos policiais. Entre os casos que estão sendo investigados, quatro pessoas foram mortas em rodovias que cortam o Estado. Ontem, os corpos de dois homens e de uma mulher foram encontrados em adiantado estado de decomposição em um canavial na Chã do Pilar. A carga era de batata doce e o motorista viajava de Sergipe com destino ao Rio Grande do Norte. Em maio passado, mais um homem foi morto e uma mulher estuprada numa rodovia que corta o município alagoano de Teotônio Vilela. A polícia tem um mapeamento completo dos locais mais visados pelos assaltantes. Sabe também que existem seis quadrilhas que atuam em Alagoas com a participação, inclusive, de policiais. Cada grupo tem, no mínimo, oito pessoas e age com a cobertura de pelo menos quatro carros. ?Sabemos que tem um ex-policial militar de Alagoas e outro policial civil de Pernambuco, além de um guarda do Presídio Cirydião Durval envolvidos com quadrilhas?, afirmou o delegado de Roubos e Furtos de Cargas, Manoel Wanderley. Pessoas da Paraíba também compõem as quadrilhas. ?Mas sempre tem alagoano no meio?, frisou o delegado. As rodovias mais perigosas para os caminhoneiros são as federais, principalmente, a BR-101. Geralmente, os assaltantes escolhem trechos enladeirados para render o motorista. O maior número de ocorrências foi registrado na ladeira do Varrela, entre Pilar e São Miguel dos Campos. ?Essa área condensa 60% dos assaltos?, diz o delegado Wanderley. Outros pontos considerados de risco estão entre as cidades de Porto Real do Colégio e São Sebastião, próximo ao posto de combustíveis Burgos; em Teotônio Vilela, perto da usina Seresta; em Pilar, nas imediações da usina Terra Nova e da ladeira próxima à Pedreira Monteiro; em Rio Largo, perto das pontes e da entrada das usinas Uruba e Santa Clotilde. Na BR-316, o perigo é maior em Satuba, na região do clube Lindoya; em Atalaia, num trecho próximo à usina Ouricuri; em Maribondo, na região de Campina; e na divisa com Sergipe, perto de Mata Grande. Nas rodovias alagoanas, também já ocorreram assaltos a caminhões este ano. Na AL-220, os bandidos se escondem num trecho da estrada entre Arapiraca e Batalha; e na AL-115, na região das Pinhas em Palmeira dos Índios. De acordo com o delegado, os assaltantes escolhem, geralmente, entre 18h e 23h para atacar. ?O mais comum é fazer de refém o motorista por oito horas, até descarregar a carga?, disse Manoel Wanderley, acrescentando que os assaltantes já sabem para onde levar a mercadoria roubada. ?A carga é comercializada em mercadinhos e até supermercados?, afirmou. Segundo ele, uma parceria entre a polícia e a Secretaria da Fazenda de Alagoas está sendo firmada para vistoriar os estoques desses estabelecimentos. ?Assim, vamos poder ter mais pistas sobre as quadrilhas?, acredita. Carga valiosa Alimentos e eletrodomésticos são as cargas mais visadas pelos assaltantes. Em seguida, vem o carregamento de cigarro. De acordo com a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, apenas 28% da mercadoria é recuperada pela polícia. As prisões também são raras. Este ano foram presas 26 pessoas, mas calcula-se que atuam no Estado mais de 40 bandidos. O maior problema, segundo o delegado, é a carência de policiais. CS ### Famílias não acreditam na ação policial A falta de policiamento nas rodovias brasileiras não é novidade para os caminhoneiros. Muitos afirmam que a polícia, quando realiza blitze, só está interessada em propinas e, quase nunca, pede documentos. Outro dilema para quem ganha a vida transportando cargas é o estado de conservação da malha viária. ?Se tem buraco, o jeito é diminuir a velocidade e é aí que os bandidos aproveitam?, disse Raimundo Gomes Feitosa, de 47 anos e que há 20 dirige caminhão. Ele tem dois filhos e afirma que ninguém dorme até ele dar notícias. ?Tem que ligar todos os dias?. Raimundo chegou ontem de Salvador e passou cinco dias na estrada levando de Maceió para a capital baiana polietileno, uma espécie de plástico. Outro fato que explica o perigo na estrada, segundo os caminhoneiros, é a carga horária que têm que enfrentar. Raimundo comparou o trabalho de um motorista de ônibus com o de um caminhão. ?Uma viagem de ônibus interestadual de Recife até São Paulo é feita por seis motoristas; o caminhoneiro para trazer mercadoria de São Paulo para cá recebe 72 horas de prazo?, afirma. Em sua avaliação, esse é um dos motivos de assaltos à noite nas rodovias. ?O caminhoneiro é obrigado a correr durante o dia, podendo bater e acabar prejudicando outras pessoas, para não rodar na madrugada?. A família de Juarez Vicenzi, 38, está há três meses na estrada. Veio de São Marcos, cidade do Rio Grande do Sul, transportando ferro. ?Nunca me pediram documentos. Quando existe fiscalização policial, é o dinheiro que interessa?, revela. Ao seu lado viajam a esposa Rosileny Vicenzi e a filha de três anos. ?É o jeito. Passamos muitos dias na estrada e não temos como deixá-la no Sul?, disse Rosileny, explicando que nunca foram vítimas de assalto. ?Mas temos que ter cuidado redobrado?. A família de Juarez viaja até as 23h. ?Temos que arriscar até este horário, senão deixamos de cumprir os prazos de entrega?, contou. Para garantir a segurança de quem trafega em solo alagoano, a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas conta apenas com duas viaturas e uma dúzia de policiais que se dividem entre os trabalhos de investigação e de prevenção, como as blitze. De acordo com o delegado Manoel Wanderley, em 2002 o efetivo era muito maior, chegando a 28 policiais e quatro carros. ?Mas muitos passaram em concursos públicos e deixaram a delegacia para ganhar salários melhores?, conta, afirmando que ?o incentivo eram os adicionais noturnos que o governador cortou?. |CS