Polícia
Pol�cia acusada de integrar ind�stria de carro roubado
MAIKEL MARQUES MARCOS RODRIGUES Repórteres A cúpula da Secretaria de Defesa Social (SDS) em Alagoas investiga a possível existência de um esquema de legalização de carros roubados com a conivência de delegados, policiais militares e civis, com ingerência no Detran. A chamada clonagem (cópia de placas) tem origem em Maceió, a partir das ações de roubo de carros, em áreas nobres da cidade como o Farol, Jaraguá, Ponta Verde, Jatiúca e Cruz das Almas. Os veículos roubados devem ser idênticos a um que continuará circulando normalmente sem levantar suspeitas. ?Não podemos concluir nada nesse instante das investigações, até porque todos os dados devem ser checados. Mas também não está descartada a existência de algo maior?, disse o secretário de Defesa Social, Robervaldo Davino. Foco Na cidade de Arapiraca, foco do comércio de ?carros quentes?, os números impressionam. A Delegacia de Roubos e Furtos recebeu, de janeiro a julho deste ano, 50 queixas de roubos de veículos na segunda maior cidade de Alagoas. Desse total, 36 eram motocicletas. No caso dos carros, eles vêm da capital e de cidades pernambucanas. Policiais ouvidos pela Gazeta são taxativos ao afirmar que a indústria do roubo de veículos floresce porque a demanda também é crescente. ?São muitos os compradores de carros e motos roubados?, explica um agente, que pediu para não ter sua identidade revelada. O preço baixo e a facilidade de aquisição são os principais atrativos para quem quer receptar (ou comprar) carro de origem duvidosa no Agreste. A questão dos carros de procedência duvidosa - batizados de ?cabritos?- veio à tona na cidade com a detenção do comerciante Fábio Canuto Silva, que trafegava num Golf com placas frias pertencentes a um veículo registrado legalmente em Maceió. Seu pai, o comerciante José Cícero Marques, o Ciço da Pitu, comprou o Golf MVG 8559 do mecânico Williams Pereira, por intermédio do delegado Gilberto Luiz de França. ?Eu apenas intermediei a venda do veículo?, argumentou em depoimento à delegada Elizabeth Sampaio, na semana passada. O carro clonado apreendido em poder do comerciante Fábio Canuto seria apenas um dos vários veículos que circulam de forma camuflada tanto na zona urbana como principalmente na zona rural, onde não há fiscalização de trânsito. ?A zona rural está infestada de motocicletas sem placas e que foram compradas a preço reduzido. A falta de fiscalização é terreno fértil para os compradores?, aponta outro policial, que pediu sigilo de sua identidade, mas deu a pista: ?Dê uma olhada na zona rural de Feira Grande, Craíbas e Girau do Ponciano?, indicou. Importação As motocicletas de origem duvidosa que circulam na região podem ter sido ?importadas? de estados vizinhos, para onde quadrilhas especializadas enviariam as ?encomendas?. O comércio clandestino de motos roubadas é ?comum? - diz outro policial - na zona rural de cidades do Sertão que fazem fronteira com Pernambuco, Sergipe e Bahia. Outro atrativo do negócio clandestino seria o preço reduzido. Uma motocicleta seminova avaliada em R$ 5 mil, por exemplo, pode ser comprada por, no máximo, R$ 1.500. A regra é semelhante para carros ou caminhonetes, o que leva muita gente a desafiar a legislação e se arriscar a comprar um veículo roubado. ### Corregedoria vai investigar delegado A investigação da clonagem de carros, segundo informou o diretor-geral da Polícia Civil, delegado Roberto Lisboa, terá início a partir dos fatos surgidos em Arapiraca. Ele está convencido de que é preciso esclarecer o episódio que envolve o delegado Gilberto Luiz de França. Segundo Lisboa, mesmo apenas atuando na intermediação, o delegado acabou por expor a instituição, por isso também será investigado em caráter interno, através da Corregedoria de Polícia, sob a responsabilidade da delegada Fátima Fernandes, que preferiu não se pronunciar. ?O depoimento que ele prestou sobre esse caso compõe o inquérito policial, que apura responsabilidades penais, já a parte administrativa e funcional é responsabilidade da Corregedoria?, explicou Lisboa. Experiência Uma dúvida que ainda persiste para a cúpula da Secretaria de Defesa Social, é como o delegado Gilberto Luiz de França se deixou enganar pelos documentos apresentados durante as negociações. Atualmente Gilberto é titular das delegacias de Monteirópolis e Jacaré dos Homens, mas antes atuou como delegado de Roubos e Furtos de Veículos, em Arapiraca. Ele disse que não acreditou haver má-fé no negócio que intermediou, porque sempre trabalhou com o mesmo vendedor. ?Ele é uma pessoa conhecida minha e do Ciço da Pitu. Por conta disso aproximei os dois, pois sabia do interesse do empresário em comprar um carro para o seu filho?, completou Gilberto, demonstrando tranqüilidade. Quanto ao seu envolvimento em alguma irregularidade, Gilberto França foi categórico: ?Minha família tem procedência. E a mim, meu pai ensinou que nunca se deve pegar o que é dos outros?, justificou o delegado. À Gazeta, ele reconheceu que o documento do veículo apresentava irregularidades, mas que elas teriam acontecido em Maceió antes de o carro ser negociado em Arapiraca. Os detalhes do que teria ocorrido foram repassados para o delegado Reginaldo Assunção, que procederá levantamentos que podem levar ao envolvimento no esquema de integrantes da Polícia Militar e servidores do Detran. Morte Em outro inquérito, que investiga uma ação policial da qual participou o delegado Aílton Soares Prazeres, Gilberto França figura como autor do tiro que matou o motorista Cícero Neto da Silva, em Santana do Ipanema. Durante a operação policial, o motorista teria resistido a prisão, quando dirigia o Gol KHD 3285, roubado em Maceió. A SDS quer saber se ocorreu excesso do delegado, culminando com o assassinato de Cícero. |MR ### Barreiras não impedem saída de carros Denúncias de envolvimento de agentes da segurança pública, militar e civil em esquemas de compra, venda e clonagem de carros roubados têm se tornado freqüentes em Alagoas. Há dois meses um veículo foi apreendido com um policial militar nas proximidades do quartel-geral da PM, no Centro. O carro foi reconhecido pela própria vítima, que passava no local e estranhou existir um veículo com as mesmas características e número da placa do que havia perdido num assalto à mão armada, uma semana antes. O caso vem sendo investigado pela Polícia Militar, em caráter sigiloso, para não atrapalhar o resultado final. Entretanto, não está descartada a troca de informações entre a Secretaria de Defesa Social e a PM, para averiguações. Isso pode ocorrer porque a secretaria sabe que os policiais, com as famosas ?carteiradas? nas barreiras de trânsito, costumam seguir viagem sem ser abordados. Esse procedimento, mesmo sendo irregular, acontece com freqüência nas rodovias estaduais e federais. ?Recentemente um oficial dos Bombeiros do Rio de Janeiro foi parado numa blitze transportando armas para uma quadrilha?, lembrou o secretário Robervaldo Davino. DELEGADO Na SDS também corre uma investigação contra o delegado Moisés Marcelo. Depois de uma denúncia anônima, a polícia chegou até uma residência onde ele guardava uma caminhonete modelo S10 com cabine dupla de sua propriedade. Moisés está sendo investigado pela Corregedoria de Polícia e também responde a um inquérito instaurado para apurar responsabilidades. O ritmo das investigações, entretanto, é lento por conta dos recursos impetrados pelos advogados, mas segundo o secretário Robervaldo Davino, ?com certeza terá uma conclusão, porque a sociedade espera isso?, destaca. Influência Os integrantes da cúpula da SDS estão convencidos de que nas transações comerciais, que envolvem carros com irregularidades, a presença de um policial no negócio acaba por ?avalizar? a compra. Um exemplo seria o que aconteceu com o delegado Gilberto França, que por amizade intermediou uma negociação para o empresário José Cícero Marques. ?É essa conduta que nós estamos querendo esclarecer?, observou o diretor-geral de Polícia, Roberto Lisboa. Na sexta-feira (15) a secretaria tinha novas denúncias para serem apuradas, envolvendo negociações de veículos, possivelmente clonados. MR ### Quadrilha monta base em Rio Largo A semana foi marcada por vários fatos relacionados a roubo de carros. Na terça-feira (12) a polícia descobriu um esconderijo utilizado por uma quadrilha especializada em roubo e furto de veículos, localizado na periferia de Rio Largo. Segundo a polícia, pelo menos cinco suspeitos de integrar a quadrilha conseguiram fugir. Na fuga dois carros foram abandonados. Um exemplo de ousadia e do poder de ação da quadrilha é o que ocorreu com o proprietário Hélber Dantas. Horas antes de a polícia localizar o seu carro, uma pick-up Currier, ele havia sido rendido por dois homens armados, que sem violência, levaram seu automóvel. Como o caso aconteceu na área do Tabuleiro do Martins, a vítima foi prestar queixa do roubo, quando identificou o seu carro no pátio da Deplan II. Hélber foi rendido na Via Expressa e levado para a BR-101, na localidade conhecida como Flecha. Segundo revelou, os dois homens queriam ter certeza de que ele não acionaria a polícia imediatamente. Outro carro recuperado pela polícia trata-se de um veículo WG Polo Sedan (MYH 0583), com placas de Natal no Rio Grande do Norte. Nos primeiros levantamentos constatou-se que não existiam ocorrências, o que sugere tratar-se de mais um caso de clonagem. Ou seja, o veículo preenche todos os requisitos de um carro novo e com aparência de legalizado. Facilidades A escolha de um esconderijo em Rio Largo aponta para as facilidades de se roubar carros na Avenida Fernandes Lima e Via Expressa. Ambas são escoamento para o município de Rio Largo, onde a quadrilha mantinha sua base. É por isso que a polícia tenta provocar um trabalho mais integrado com a Polícia Rodoviária Federal. ?Este é um trabalho que deve envolver todos. Digo isso porque numa questão de segundos conseguimos informá-los de um roubo, mas nem sempre é possível mobilizar pessoal. Além disso em alguns casos é como se os carros sumissem sem passar nas barreiras?, reconheceu Davino. Articulação O esquema criminoso montado pelos ladrões de carro em Rio Largo contava com uma casa de apoio, no bairro Mangue Seco. A descoberta do local surgiu a partir de informações prestadas por moradores, que desconfiaram da intensa movimentação de pelo menos oito homens na residência. As investigações sobre o grupo estão sendo realizadas pela polícia e não está descartada a ligação do esconderijo com os casos de clonagem descobertos no interior do Estado. Uma outra possibilidade é ação em consórcio com homens de outros estados apoiados por membros locais. O trabalho de inteligência já começou e pode dar resultados nos próximos dias, segundo admitiu o secretário Davino. A Secretaria de Defesa Social vai trabalhar no levantamento dos dados, realizando conexões com outras investigações que já estão em curso. |MR ### Bairros nobres são ponto de risco As ocorrências de roubo de carro estão se tornando ?comuns? em alguns pontos da cidade. Os bairros nobres e pontos isolados como Via Expressa, no Tabuleiro, são considerados pontos de risco. Os números da Polícia Militar apontam para o aumento de roubo de carros. Segundo os dados da PM, entre junho a julho deste ano foram 19 ocorrências sem vítimas fatais somente em Maceió. O número é 70% maior que o registrado no mesmo período do ano passado. A ausência de agressão ou até mesmo de disparos contra as vítimas revela um detalhe no modo de agir dos assaltantes. Segundo relato das vítimas, eles costumam agir de forma extremamente calma durante o ataque e roubo do veículo. Esses detalhes estão sendo analisados pelos especialistas em segurança para tentar estabelecer um perfil de quem são os homens que agem na capital. Como agem Segundo levantamentos da polícia, a forma de agir dos ladrões de veículos também difere em relação a homens e a mulheres. Em alguns casos as vítimas do sexo masculino são seqüestradas para que não compliquem a fuga acionando a polícia. Já as mulheres, principalmente as estudantes universitárias, são abordadas quando tentam entrar no veículo. Quem viveu essa experiência conta que são minutos que parecem uma eternidade. Confiantes no impacto emocional que submetem as vítimas, os assaltantes costumam agir em dupla e normalmente chegam de carro ou moto. A aparência também não sugere que sejam pessoas perigosas. Isso favorece a aproximação sem chamar a atenção da vítima. Abordagem A Gazeta de Alagoas ouviu uma dessas vítimas. Segundo a mulher que teve um veículo Gol roubado no início do mês, dois homens se aproximaram, em uma das ruas do bairro do Farol e observaram que ela conversava com sua sobrinha. O horário favoreceu a ação, já que ambas voltavam de uma festa de madrugada. ?Um dos homens foi para a frente do carro e confirmou pelo vidro dianteiro, sem película, que só estávamos nós duas no veículo. Depois disso, um apontou a arma para mim e outro para minha sobrinha?, detalhou a vítima que pediu para não ser identificada. Em seguida ele abriu a porta, sentou no carro, ajustou o banco e saiu como se nada tivesse acontecendo. O que foi pelo lado do carona, tentou forçar a vítima a entregar a bolsa. Bastante nervosa, a jovem resistiu e se recusou a entregar a bolsa, sem que os bandidos a agredissem. O caso é mais um que integra as estatísticas da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos. Como a maioria continua sem solução.|MR