Polícia
Viol�ncia deixa favelas e invade bairros de Macei�
?Moradores do Gama Lins cercados pela violência?. ?População do Jacintinho ameaça se armar contra os bandidos?. ?Empresas de ônibus mantêm toque de recolher?. A violência urbana cada vez mais presente nas manchetes dos jornais e no cotidiano das pessoas começa a mudar, para pior, a história de Maceió. Fora a violência política, marcada por batalhas sangrentas de grupos familiares em disputa pelo poder; as histórias do cangaço e os crimes de pistolagem, que tinham focos fechados, Alagoas nunca teve, antes, seu nome vinculado a um histórico de violência urbana, que atinge toda sociedade. Pelo contrário. A segurança de morar e andar pelas ruas de Maceió sempre esteve, até poucos anos atrás, entre os principais enfoques das campanhas publicitárias para vender o destino turístico. ### FÁTIMA ALMEIDA Repórter A ousadia de práticas criminosas, antes conhecidas pelos noticiários trazidos das grandes cidades, agora faz parte do cotidiano de bairros de Maceió. Grupos criminosos ditam regras e estabelecem domínios onde a polícia não chega (ou tarda a chegar). A violência das grotas; da periferia, vai saindo às ruas de cara lavada e fechando o cerco na capital alagoana. Os mapas da polícia mostram pontos críticos do Tabuleiro ao Jacintinho; do Vergel do Lago a Jacarecica. A sociologia urbana explica as relações estreitas entre a miséria e a criminalidade. E é exatamente dos principais bolsões da miséria que a violência avança. Segundo levantamentos do setor de informação da Polícia Militar, os pontos mais críticos são o conjunto Gama Lins, no complexo Benedito Bentes; a favela do Galpão, no Vergel do Lago; parte do Trapiche da Barra, em confluência com o Vergel; Vila Brejal; favela do Andraújo, em Jacarecica; Grota do Cigano, no Jacintinho; e Grota do Arroz, em Cruz das Almas. A maior preocupação, segundo o comandante de policiamento da capital, coronel Marcos Brito, está nas favelas do Benedito Bentes (área do 5º Batalhão), onde fica o Gama Lins; e a região do Vergel e Trapiche, mais próximos do centro da cidade. Essas áreas, segundo ele, batem a região do Jacintinho, que já foi a principal referência de violência urbana de Maceió. Algumas dessas comunidades viraram domínio de gangues que controlam o tráfico de drogas. ### Sem policiamento, bandidos ditam as regras nas favelas O comandante do CPC diz que é impressionante a incidência de práticas criminosas com a participação de adolescentes entre 13 e 16 anos de idade. Segundo o policial, eles chegam a representar 40% das pessoas detidas. ?Mas como manda a lei, são liberados em seguida e voltam para o crime?, diz ele, destacando que os organismos de segurança acabam sendo escravos da lei. O problema é o de sempre: não existe, no Estado, uma instituição para realizar um trabalho de resgate social desses menores, que permanecem no ambiente e nas condições sociais que os induziram à delinqüência. ?A família falha e o sistema também. O Estado tem que ter uma estrutura melhor para evitar que esses menores, pegos em situações de risco, como assaltos, voltem a roubar?, reflete o coronel Brito. O bandido tem medo da polícia, mas quando ela não está presente, ele estabelece seus domínios. O comentário casual foi feito pelo comandante do CPC, durante a entrevista. ?É a tal história: quando o gato não está em casa os ratos comem na mesa?, compara ele. O problema é: por que os gatos não estão em casa? O coronel Brito destaca que, hoje, a polícia está mais equipada. No entanto, ele não esconde alguns pecados de estrutura que prejudicam no combate ao crime. ?Estamos resolvendo algumas situações, como o 190 (telefone de comunicação com a polícia), que é um problema sério?, diz. Ele confirma que a PM atua com apenas 47% do efetivo previsto. Seriam necessários 16 mil policiais, a corporação tem pouco mais de 7 mil, dos quais cerca de 4 mil estão na capital. A Organização das Nações Unidas (ONU) considera ideal a média de um policial para cada 200 habitantes. ?Estamos longe dessa proporção?, destaca o oficial. O último concurso foi em 2002. Entraram apenas 500 pessoas. ?Esse problema de pessoal é mais grave do que os problemas estruturais. Precisamos oxigenar a polícia. A média de nossos policiais tem 13 anos de serviço. Estamos esperando a realização de concurso para a entrada de mais 1.500. A contratação de soldado voluntário também ajudaria porque poderíamos colocar nas ruas o efetivo que está nos quartéis, fazendo tarefas administrativas?, destaca o comandante do CPC. Por causa da falta de pessoal, o PM-Box construído pela comunidade no conjunto Denisson Menezes permanece fechado. Não tem efetivo para mantê-lo aberto, admite o comandante do CPC. |FAL ### Da Faixa de Gaza a Favela da Rocinha ?Fomos para a linha vermelha. Que Deus nos ajude!?. O recado, assinado por um profissional que atua na Estratégia de Saúde de Família, foi escrito no quadro de avisos do Posto de Saúde do Conjunto Denisson Menezes, na última quarta-feira. Era dia de visita à comunidade do Conjunto Gama Lins, no Tabuleiro do Martins, um dos pontos críticos da violência urbana em Maceió. A alusão à região carioca, conhecida como uma das áreas mais violentas do País, onde a ação dos bandidos e os tiroteios entre a polícia e traficantes de drogas são uma rotina, não é brincadeira. Assim como os moradores, comerciantes e toda a comunidade em torno do Gama Lins, os profissionais de saúde se expõem a riscos em áreas dominadas pelos bandidos, que ditam regras e imprimem o regime do medo. O conjunto, que nos últimos dias virou símbolo do domínio de criminosos na periferia de Maceió, também tem outras denominações, igualmente inspiradas no perfil da violência: Faixa de Gaza e Favela da Rocinha são algumas delas. ?Depois das quatro horas da tarde não fica ninguém por aqui. Cada um vai saindo e o posto fica vazio?, declara um agente de saúde. Ele afirma que já trabalhou sob regime declarado de toque de recolher. Agora a ordem é implícita. ?Quem sai depois das três horas, sabe que está se arriscando?, diz ele. No posto, onde funcionam três equipes de Saúde da Família, a maioria já sofreu algum tipo de ameaça, incluindo médicos e dentistas. ?As ameaças são por qualquer coisa. Até para ser atendido antes dos outros. Tem uns que dizem que sabem por onde a gente passa; tem mulher que diz que vai mandar o marido nos pegar. A situação está se complicando?, diz um funcionário do PSF. ?Eles arranham os carros, deixam recados. Já teve casos de agentes ameaçados nas ruas. Tem alguns que se drogam no portão para intimidar as pessoas?, relata o profissional. Por causa da violência, um médico já pediu transferência do local. ?Nos sentimos desprotegidos. Já pedimos apoio, mas ninguém garante segurança. Ninguém quer vir para cá?, destaca outro profissional de saúde. O PM-Box fica a poucos metros do posto, mas não funciona. Quando tem fuga dos presídios que ficam nas imediações, o medo aumenta. ?Não fica ninguém na rua?, comenta um usuário. FAL ### Padre e policial vivem sob ameaças O estado de sítio é geral nos arredores do Gama Lins. Nas ruas, as pessoas evitam falar com a imprensa. O dono de um mercadinho, que já foi assaltado duas vezes, diz que preferiu não arriscar a vida e obedecer às ordens dos bandidos: não prestou queixa à polícia. Ele também prefere não usar armas. ?Reagir seria aumentar o risco. Seguramente eles têm mais prática com as armas do que eu?, diz o comerciante. Da primeira vez, os bandidos chegaram à noite. Levaram mercadorias, cigarros e dinheiro. Da segunda vez, assaltaram às 15 horas, com gente nas ruas. ?Eles escolhem o que querem, pegam e vão embora. Não usavam nada para cobrir o rosto, e saem tranqüilamente pelas ruas, com o produto do roubo. Se a gente reagir, morre?, diz o comerciante. A dona-de-casa M.S.C., 28 anos, também fala no anonimato. Segundo ela, os bandidos estão mais agitados devido à presença de um policial na comunidade. ?Eles não querem o seu Aldair por aqui?, diz ela, complementando, no entanto, que se não fosse a presença do policial na comunidade, ?era todo dia um morto?. M.S.C. tem dois filhos, de 4 e 6 anos, e teme quando sai para trabalhar. ?Às vezes acontece tiroteio?, diz ela. Também já forçaram a porta de sua casa, à noite, mas não conseguiram entrar. Com medo, M.S.C. já deixou até de freqüentar a casa do policial. Tem medo de ficar marcada pelos marginais. ?Eles mandam recado. Quem vai na casa dele vira inimigo dos traficantes também e pode morrer. Até mesmo os mototaxistas deixaram de ir lá. Eles nem andam mais depois das 10 horas, porque podem ser assassinados no meio da rua?, diz ela, abraçada à filha de 4 anos. No complexo residencial, que abrange o Denisson Menezes, Gama Lins, Santa Helena e Lucila Toledo, vivem cerca de 10 mil pessoas. Em determinadas áreas, o tráfico de drogas é a atividade predominante, e o alerta é geral: ?é melhor não chegar até lá!?. Até mesmo o padre já foi ameaçado de morte, e a igreja já foi invadida por bandidos. O policial militar Aldair recentemente foi vítima de uma emboscada e mandou as filhas para outra cidade, para evitar uma tragédia. Ele se sente perseguido pelos bandidos, mas garante que não vai deixar o local. FAL ### Ônibus mudam rota; morador protesta Os riscos da comunidade de Gama Lins não são exclusividade do local. Em outras comunidades, como Vergel do Lago, a violência também dita regras. Há mais de um ano as empresas de ônibus tiveram que mudar a rota para não passar, à noite, pela Vila Kenedy, por causa da ação dos marginais. Há pouco tempo um motorista da empresa Veleiro foi atingido por dois tiros durante um assalto nas imediações da Igreja Virgem dos Pobres, também no Vergel. Escapou por pouco. O trecho passou a ser evitado no horário noturno. Essa não foi a única vítima de uma modalidade criminosa que cresceu assustadoramente em Maceió. Mais de 200 assaltos a ônibus foram contabilizados pelo Sindicato dos Rodoviários nos últimos seis meses. A região mais perigosa fica próxima ao chamado ?Beco da Morte?, entre o conjunto Virgem dos Pobres e o Joaquim Leão. No Tabuleiro, o Gama Lins também entra na rota do medo, das empresas e de profissionais dos transportes coletivos. ?Existem áreas proibidas. No Gama Lins, depois de determinada hora, não dá para circular. No Vergel, o ônibus volta do terminal, no final da Rua Formosa, para não entrar na Vila Kenedy depois das 18 horas. O Clima Bom, depois das 22 horas, também zona de perigo para os motoristas, cobradores e passageiros, assim como a região do Dique Estrada?, relata Divanildo Ramos, presidente do Sindicato dos Rodoviários. Mobilização social Mais de 30 assaltos à mão armada; arrombamentos a residências e pontos comerciais, estupros, e mais de 18 carros roubados. Com esses números, o Movimento Popular dos Moradores da Serraria foi às ruas, esta semana, numa mobilização social para mostrar o medo e a revolta que domina o bairro, e pedir mais ação policial contra a violência urbana. Segundo a presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Residencial José Tenório, Cleonice Alves, a situação está ficando crítica, e a cada dia aumentam as ações e a ousadia dos criminosos. ?As mulheres não têm direito de andar com o celular que o bandido passa, leva, e fica olhando para a sua cara. Eles agem de cara lavada, de forma ousada, em qualquer hora do dia?, diz ela. Na sua avaliação, os conjuntos habitacionais e os bairros mais afastados do centro estão ficando sem segurança e os marginais já perceberam a ausência da polícia, e resolveram estabelecer seu domínio. ?É preciso reagir e mudar essa situação. O cidadão está perdendo a liberdade?, conclui ela. |FAL