Polícia
Sert�o vira cen�rio de assaltos e mortes
CARLA SERQUEIRA Repórter O cenário não mudou. A seca castiga durante o ano inteiro e a chuva de agosto faz florir o Sertão. O carro-de-boi e os caminhões pau-de-arara ainda são os meios de transporte mais usados. A feira continua sendo a maior aglomeração de pessoas e os bandidos atacam em bandos, como na época do cangaço que fez da cabeça de Lampião a mais valiosa do Nordeste. Não fossem os anos passados, as regiões agreste e sertão de Alagoas poderiam ainda figurar naquela remota década de 20. A ousadia das quadrilhas e a falta de segurança nas rodovias são tão grandes que, há dois anos, R$ 300 mil foram roubados de um carro-forte, próximo a Penedo. Na operação, os ladrões explodiram o veículo usando dinamites e metralhadoras PT 50, de uso exclusivo do Exército, própria para derrubar helicópteros. Enquanto isso, os seguranças da empresa estavam armados com escopetas e revólveres. Em Teotônio Vilela, ano passado, um bando prendeu policiais na carceragem da delegacia e roubou todo o armamento. Na década de 90, Batalha foi invadida e baleada por vinte minutos. Mais de 200 tiros foram disparados. Nos últimos dias 2 e 12, Arapiraca e Canapi, respectivamente, voltaram a temer a ação de quadrilhas. Em dez dias, quatro pessoas morreram em dois assaltos. Fortemente armados, os bandidos balearam na cabeça todas as vítimas, fugiram e até hoje a polícia busca pistas. No primeiro ataque, na AL-101, entre Arapiraca e Coité do Nóia, o policial militar José Romero Nunes dos Anjos, 36, foi assassinado às 11 da manhã. Seu companheiro, José Romilton da Silva, 38, conseguiu escapar da morte; uma bala pegou de raspão em sua cabeça. O alvo dos bandidos era o dinheiro que transportavam. Armados com fuzis, cerca de 10 assaltantes levaram os malotes dos Correios que Romero e José Romilton escoltavam com mais dois policiais. O segundo ataque do mês foi em Canapi, a 252 quilômetros de Maceió. Um assalto não consumado deixou um saldo de três mortos dentro da única agência bancária da cidade. A Gazeta esteve em Canapi e ouviu relatos impressionantes dos reféns e das famílias das vítimas. O clima ainda é de medo. ?Ninguém jamais vai esquecer aquela manhã de sexta-feira?, disse um dos moradores. ### Terror em Canapi deixa órfãos e viúvas Canapi parou na sexta-feira, dia 12. Em frente à única agência bancária da cidade, o terror atraiu os poucos moradores do lugar. Lá dentro, três mortos estendidos no chão. Cerca de 15 minutos antes de abrir, o banco foi invadido por dois assaltantes. O primeiro, armado com uma pistola, rendeu o gerente e o subgerente que acabavam de chegar e os obrigaram a desativar o sistema de segurança. O segundo, com metralhadora e pistola, deteve cerca de oito clientes e funcionários reféns na área dos caixas eletrônicos. Na sala onde fica o cofre, o assalto ia se consumando como fora planejado. ?Ele trouxe uma sacola para colocar o dinheiro?, contou o subgerente Cícero José Soares, ?quando já íamos abrir o cofre, ouvimos um estampido?. Foi o tiro dado por Maurício Ferreira Queiroz, militar reformado de 47 anos, um dos reféns. Minutos antes, ainda em casa, a 200 metros do banco, Maurício havia terminado de tomar café com o irmão, Sebastião Ferreira Queiroz, 56, conhecido apenas como Queiroz, também policial. Os dois trabalhavam na segurança do prefeito. Na saída, Maurício, um viçosense que há 18 anos morava em Canapi, deixou com a esposa o dinheiro do aluguel e expressou o desejo de comer sururu. ?Ficamos, eu e a minha vizinha, debulhando o feijão para ele comer com sururu quando chegasse?, relatou Claudísia da Silva, 27, esposa de Maurício e mãe de Laíne da Silva Queiroz, 6, única filha do casal. ?Não deu dez minutos?, disse ela, ?chegou a enfermeira do posto gritando: ?Chega, nêga, minha fia, mataram Maurício e Queiroz?, fiquei sem ação. Minha filha ouviu tudo?. Os dois iriam ao encontro do prefeito quando Maurício resolveu fazer um depósito no banco. ?Foi terrível?, disse o vigilante da agência Iran de Lima, também refém, ?quem chegava era obrigado a deitar de bruços e dar as costas ao bandido. Não deu para ver o rosto deles?. Durante o assalto, para amedrontar ainda mais os reféns, o assaltante puxou Queiroz e o manteve com uma pistola apontada para a cabeça. ?Na certa, Maurício não aguentou ver o irmão naquela situação. Eles eram muito unidos e ele deve ter se sentido na obrigação de fazer alguma coisa?, imagina Claudísia. Depois do disparo efetuado por Maurício, um tiroteio foi iniciado. Cerca de 15 tiros foram dados dentro da agência. Nenhum dos bandidos foi ferido. Da mesma forma que Maurício e Queiroz, João Custódio, 66 anos, também resolveu ir ao banco naquela manhã de sexta-feira. O dia ainda estava escuro quando ele, um aposentado dono de meia dúzia de cabeças de gado, deixou a Serra do Exu numa caminhonete que, diariamente, às 5h da manhã, percorre 33 quilômetros em duas horas, num estreito caminho de barro, até o Centro da cidade. Seu objetivo era adquirir um financiamento. ?Um dia antes, pai estava decidido a ir para Manari (PE) que fica até mais perto. Quando acordou, mudou de idéia e foi para Canapi?, contou o único filho de João, Aparecido Custódio Ferreira, 17, adotado aos 5 anos de idade. Cedo, João Custódio chegou na agência. ?Ele só ia para a cidade nas quartas, dia de feira?, comentou Aparecido. Quando entrou no banco, João se tornou refém. ?O policial foi baleado e caiu por cima dele. Ele tentou sair debaixo e levou um tiro na cabeça. Acho que o bandido pensou que meu pai também iria reagir?. Aparecido mora agora apenas com a madrasta, Josefa Pereira, de 68 anos. Com a cabeça baixa, ele contou como recebeu a trágica notícia. ?Um rapaz numa moto parou na escola para perguntar onde morava João Custódio. A professora disse que eu era filho dele. Trouxe o moço até em casa e ele contou para a minha mãe. Ela quase desmaiou na hora. Teve que ser levada ao hospital?. Maurício, Queiroz e João Custódio, lutando contra a morte, viajaram ainda duas horas até chegar na Unidade de Emergência de Arapiraca. Em Santana do Ipanema receberam bolas de soro. Todos eles foram baleados na cabeça. Nenhum resistiu. Morreram no caminho. CS ### Rodovias favorecem fuga de quadrilhas ?A polícia local só chegou 20 minutos depois?, frisou o subgerente Cícero José Soares, preocupado com a segurança de Canapi que conta com um efetivo de apenas dois policiais civis por dia e nenhuma viatura. ?Está quebrada há uma semana?, avisou um funcionário da delegacia que se apresentou como ?uma espécie de escrivão? e que não quis revelar o nome. ?O reforço policial, de Delmiro Gouveia e Santana do Ipanema, só chegou aqui uma hora depois do assalto. Os bandidos já estavam longe?, disse o subgerente. O posto da Polícia Rodoviária Federal foi acionado por telefone minutos depois da tentativa do assalto. Os bandidos deixaram a cidade em uma Parati prata (MUI 8484), roubada em Maceió, conduzida por um terceiro homem. Apenas dois policiais fazem o plantão por turno. ?Muita gente se aposentou?, comentou o policial Beneval. Barreiras foram montadas nas rodovias próximas, principalmente perto das fronteiras com Pernambuco, mas os assaltantes não foram localizados. A seis quilômetros do posto e a 14 do Centro de Canapi, na BR-423, o carro utilizado na fuga dos bandidos foi abandonado. ?Eles devem ter fugido a pé?, disse o policial rodoviário Geovani. ?A suspensão do veículo quebrou por causa da velocidade em que vinham em estradas acidentadas?. Região de divisas Canapi, por estar numa região de divisas, é cheia de estradas vicinais na direção de Itaíba, Manari e Inajá (PE), Ouro Branco, Maravilha, Poço das Trincheiras, Mata Grande e Inhapi (AL) e até para Paulo Afonso, na Bahia. O acesso, mesmo sendo por uma rodovia federal, a BR-316, é de barro. São 14km de terra até o Centro da cidade, enfrentando poeira e buracos. A BR-316 não é asfaltada apenas em Alagoas. São 49 quilômetros de Carié, povoado de Canapi, até Inajá, Pernambuco, completamente de barro. A rodovia liga Maceió a Belém do Pará. Outro posto da Polícia Rodoviária Federal mais próximo só em Palmeira dos Índios. Em Ouro Branco, divisa de Alagoas com Pernambuco, o posto da Polícia Rodoviária Estadual foi desativado. O problema é sempre o mesmo: falta de estrutura física e pessoal. O delegado que investiga o assalto ao banco de Canapi, Rômulo Monteiro, trabalha em Delmiro Gouveia, a cerca de 70 quilômetros da cidade. ?Em estradas vicinais, os bandidos conseguem entrar em Pernambuco percorrendo apenas 3 ou 5 quilômetros. Tem muita rota de fuga na região?, diz ele. Uma média de três ataques de quadrilhas no Sertão foi registrada pelo delegado este ano. ?Nossa dificuldade pode ser resumida em três deficiências?, enumerou Rômulo, ?falta de comunicação, falta de viaturas e falta de recurso humano?. O crime mais comum nas rodovias da região é roubo de motos. ?Eles roubam para assaltar em outras cidades e estados?, comenta. É comum observar na região motos e carros sem placas. A grande parte circula na região entre as zonas rurais. O meio de transporte mais usado, tendo em vista as péssimas condições das estradas, ainda é o carro-de-boi. CS ### Fugitivos de SE são suspeitos por assalto em Canapi Na mira dos policiais alagoanos está uma quadrilha que fugiu recentemente do presídio Nossa Senhora da Glória, em Sergipe. Entre eles, podem estar os dois bandidos que assaltaram uma agência bancária em Canapi, na manhã do último dia 12. ?Temos o nome de cinco. Estamos desconfiados de que o assalto ao banco teve a participação destas pessoas e de mais um sexto?, revelou, sem querer adiantar detalhes. ?Temos até fotos do bando, estou levando para Canapi para ver se o refém reconhece os integrantes?, disse. O sexto homem, segundo Rômulo Monteiro, tem família em Canapi. ?As pistas levam a crer que ele participou do assalto?, acredita. ?Tem 90% de chances?, adiantou. Após os disparos dentro da agência, os dois bandidos desistiram do dinheiro e correram pelo centro de Canapi cerca de 300 metros até alcançarem a Parati que os aguardava. A bolsa que levaram para depositar o dinheiro roubado foi abandonada dentro do banco. Nela, uma pistola 380 foi encontrada. ?Está sem registro?, afirma o delegado Rômulo Monteiro, ?a perícia tenta identificar as impressões digitais?, diz ele, revelando não entender porque as câmeras de segurança não registraram a ação dos assaltantes. ?O gerente me disse que os equipamentos estavam quebrados. Como pode funcionar um banco sem este apetrecho básico de segurança?, questionou. Sem pistas concretas As investigações sobre o assalto aos policiais que escoltavam dinheiro dos Correios de Arapiraca para abastecer as agências de Coité de Nóia, Tanque d?Arca e Belém, contam com o apoio da Polícia Federal, mas não avançaram. ?Temos muitas informações, mas nada concreto. Não dá nem para constituir uma linha de investigação?, disse a delegada de Roubos e Furtos, Elisabeth Sampaio. ?Temos a impressão que o bando é da região mesmo?, acredita. Na opinião da delegada, a ação dos assaltantes foi muito bem arquitetada. ?Eles sabiam de tudo?, diz ela, ?a hora que os policiais pegariam o dinheiro nos Correios e escolheram um trecho que facilitou o ataque, por ser uma área com ladeiras e muitas curvas, além da ponte?. A quadrilha usou uma picape L200 e um Gol. O bando levou também as armas que os policiais usavam no ?serviço extra?. CS ### Bandos agem com cobertura de profissionais Criada há dois anos, a Promotoria de Combate ao Crime Organizado em Alagoas acredita num trabalho conjunto entre polícias e Ministério Público para coibir a prática de quadrilhas. ?O que acontece, muitas vezes, é a dispersão de informações, o que acaba dificultando as investigações e favorecendo os bandidos?, afirma o promotor Luiz Vasconcelos, um dos membros da equipe que desbaratou a gangue fardada em 1997. Os crimes organizados, na maioria das vezes, são planejados com a ajuda de profissionais que conhecem os sistemas de segurança. ?Infelizmente, hoje, a constatação é de que quando a criminalidade está organizada, ela fatalmente tem envolvimento de pessoas ligadas à área de segurança?, revela Luiz Vasconcelos, que falou também da burocracia enfrentada pela polícia para se aparelhar. ?A burocracia para que eles consigam estrutura, pessoal, equipamentos, é muito lenta. Já os bandidos conseguem comprar uma arma de primeira qualidade no Paraguai e entra e pronto. A gente está sempre correndo atrás do prejuízo?. A globalização, na opinião dele, também favorece ao crime organizado. ?Hoje, na Internet, é possível saber exatamente como se fabrica explosivos, por exemplo?, comenta. Os bandidos que agem de forma organizada geralmente migram entre estados. ?Por isso é necessária uma ação conjunta das polícias, inclusive na esfera nacional?, afirma o promotor Luiz Vasconcelos.|CS