Polícia
Delegado contesta rod�zio em inqu�rito
| REGINA CARVALHO Repórter Uma semana após a divulgação da reportagem ?Polícia tira delegados de casos polêmicos?, publicada pela Gazeta, sobre a constante mudança de delegados em inquéritos considerados emblemáticos, a matéria ainda repercute no meio policial. Ouvido pela Gazeta, o diretor-geral da Polícia Civil, Roberto Lisboa, além de descartar o ?rodízio? entre delegados fez críticas quanto à morosidade de alguns deles. As acusações atingiram em cheio o delegado Dênisson Albuquerque que reagiu, atacando a cúpula da Secretaria de Defesa Social. Dênisson comandava o inquérito policial sobre o motim no presídio Rubens Quintella, em junho, que culminou com a morte de três detentos, quando foi mandado para o 10º Distrito Policial. ?Me disseram que esse rodízio era mandado pelo Robervaldo Davino. Por mim tudo bem. Vou trabalhar em qualquer lugar. Não tenho problema com isso?. Gazeta- Sabe qual foi o motivo da sua transferência do Deic para o 10º DP? Entrevistado -Não sei qual foi o motivo. Quero acreditar que minha transferência não tem relação com algum caso que eu estava investigando, como o do motim no Rubens Quintella. Eu tenho a ficha limpa. Nunca tratei mal ou torturei alguém. Pode perguntar a qualquer preso na delegacia. Não sei porque eu estou sendo perseguido. Ainda não consegui entender. E porque resolveu entregar o caso da rebelião que o senhor já estava apurando há algum tempo? Com a minha transferência para o 10º DP, que fica no Eustáquio Gomes, não dava para conciliar com um inquérito como o da rebelião. No Deic o volume de trabalho era bem menor do que na delegacia em que estou hoje. Uma delegacia de bairro cuida de tudo, até de briga de vizinho, é uma demanda grande de trabalho. Além disso, peguei na delegacia quase 400 inquéritos parados e uma bagunça total. Até contratei uma pessoa para limpar o prédio e ainda estou organizando várias coisas. A situação estava muito complicada, mas começou a melhorar. Pagou do seu bolso para limpar a delegacia? Sim. Antes quem fazia a faxina na delegacia era a mãe de um preso. Agora fizemos uma cota eu e os policiais e estamos pagando uma pessoa para limpar. Até comprei material de limpeza num supermercado do Tabuleiro. Quem lhe mandou para o 10º DP? Me disseram que esse rodízio era mandado pelo Robervaldo Davino. Por mim tudo bem. Vou trabalhar em qualquer lugar. Não tenho problema com isso. Qual a sua reação ao ler a matéria? Não queria polemizar, mas me senti ofendido com o que o Lisboa falou de mim na matéria. Dizer que eu nunca fui exigido como profissional? Um absurdo. Além do que ele falar em mandado de prisão. Ele sabe que não existe vaga para mandar preso. Me senti na obrigação de falar da minha trajetória profissional de 17 anos na instituição. O diretor-geral da Polícia Civil, Roberto Lisboa, disse que o senhor deixou de cumprir seis mil mandados de prisão quando estava à frente da Delegacia Especializada de Investi- gações e Capturas. Isso realmente aconteceu? Sim. Deixei de cumprir muitos mandados de prisão, foram aproximadamente 5.500, mas porque não existem vagas nos presídios. Algumas vezes eu liguei para o Davino (Robervaldo Davino, secretário de Defesa Social) e ele mandou que eu deixasse o preso na delegacia. Também liguei para o Valter Gama (secretário de Ressocialização) e nunca tinha vaga para colocar os presos. A situação dos presídios em Alagoas é caótica. Todos estão superlotados. No caso do Rubens Quintella, que é o antigo São Leonardo, é um problema sério. Os presos que ficam no andar de cima são os mais quietos e os de baixo, os mais perigosos. Eles têm que ficar separados, porque senão é um perigo. Pode contar um desses casos em que o senhor teve de improvisar? Uma vez prendi um arquiteto, condenado por abuso sexual a uma enteada. Como ele tinha direito à prisão especial, foi improvisada uma sala da administração no presídio Rubens Quintella. Sempre fui uma pessoa de confiança do Roberto Lisboa. Não sei por que ele falou coisas como as que eu li no jornal. Por que diz isso? Atuei em vários casos rumorosos como o do eletricista José Joaquim e do golpe do seguro de vida. Atendi ao pedido do próprio Lisboa para apurar esses inquéritos, que eram bastante delicados. O mesmo Lisboa ligou para mim e pediu para eu ir buscar o coronel Cavalcante em São Paulo e levar para o Recife e até paguei as despesas com meu dinheiro, nunca fui atrás para receber. Transferir uma responsabilidade como essa, de buscar o Cavalcante, só pode ser porque alguém confia em você, no seu trabalho. Inclusive fui até chamado para cursos fora do Estado. Não recebeu da Secretaria de Defesa Social o dinheiro gasto no Recife? Não. Nunca fui ressarcido. Paguei alimentação e hospedagem minha e dos três policiais do Tigre que também foram ao Recife fazer esse trabalho. Paguei com meu cartão de crédito, deu por volta de R$ 200. Ficamos em um hotel simples, em Olinda. Os policiais me disseram que não tinham dinheiro para arcar com as despesas. Por isso paguei. O senhor também tem problemas com o secretário de Defesa Social? Sim. Por dois motivos. Isso foi em 92, quando eu era corregedor-geral de Polícia e o Davino era diretor-geral da Polícia Civil. Uma vez Davino revogou uma convocação que eu tinha feito para uma reunião de trabalho e outra vez porque recebi a denúncia de que tinha um caso de tortura na delegacia de Rio Largo, então resolvi mandar o corregedor Simplício ao município para apurar a situação. Na época, o delegado era o Oldemberg Paranhos. Quando Davino soube não gostou e ligou para mim, reclamando porque eu não tinha comunicado a ele a minha decisão. O Robervaldo Davino quer que as pessoas sejam submissas a ele e eu não sou. Faço o meu trabalho. Acha que talvez o fato de Lisboa ser ligado ao Davino pode ter contribuído para o diretor-geral de Polícia ter feito as declarações contra o senhor na imprensa? Não sei. Meu desentendimento com o Davino já tem muito tempo e nunca mais ficamos próximos. Um dia desses ele até secou os pneus de uma viatura da minha delegacia, porque não estavam mais em condições de uso. Isso foi dentro da Secretaria de Defesa Social. Não precisava disso, eu já ia trocar. Acho que ele não gosta de mim também porque eu não vou a gabinete de diretor. Meu trabalho é na delegacia e não na Secretaria de Defesa Social. Sou delegado desde 1988. Tenho mais experiência do que muitos que estão aí. Passei por cinco delegacias no interior e pela Corregedoria de Polícia. O senhor pode destacar outro fato que comprove a perseguição? No dia 13 deste mês pedi férias e elas foram negadas. Disseram que eu já tinha tirado férias em janeiro. Tudo bem, mas tenho direito a férias referentes ao ano de 2003. Não entendi por que fizeram isso comigo. Perdi minha irmã recentemente e não estou satisfeito com as coisas. Pretende levar adiante essa questão das férias? Vou consultar meu advogado e pretendo entrar com mandado de segurança para garantir minhas férias e licença especial. Está sem estímulo para trabalhar e por isso quer férias? Diante desse clima, não tem como dar continuidade, por enquanto, ao meu trabalho como delegado. Está havendo retaliação. Eu não me sinto bem em exercer minha atividade, enquanto o Lisboa e o Davino estiverem à frente, no comando. A violência está aí e quem perde com isso é a sociedade. Respeito não se impõe, se adquire. Vou esperar o próximo ano e ver como ficarão as mudanças. Teme alguma coisa? Sei que depois dessa matéria devo ir para a Corregedoria. Mas estou consciente do que estou fazendo. Sou delegado há muitos anos e nunca tive problemas. As pessoas me conhecem. ### QUEM É Nome: José Denisson de Albuquerque Sousa Cargo: Delegado Principal curso: Gestão em Segurança Pública, realizado no Rio de Janeiro e promovido pelo Ministério da Justiça Outros cargos: foi corregedor-geral de Polícia