Polícia
Faculdades na rota dos assaltos e seq�estros em AL
NIVIANE RODRIGUES Repórter Início da manhã e os portões são abertos para mais um dia de atividades. Entre os profissionais e estudantes que chegam o clima é de insegurança e medo. Este tem sido o dia-a-dia na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Com uma população de 15 mil pessoas, entre alunos, professores e técnicos, a Ufal se tornou espaço aberto para a ação de assaltantes que agem a qualquer hora, colocam em risco a vida de alunos e profissionais e ameaçam o patrimônio público. Uma situação que transformou a segurança no campus universitário no principal desafio da atual administração. Em agosto deste ano, o estudante Guilherme Oiticica foi levado por ladrões do campus da Ufal, por volta do meio-dia. Ele estava em seu carro, um Polo, e foi deixado pelos bandidos horas depois, em Cabo de Santo Agostinho (PE). O carro foi roubado. Insegurança e medo também rondam universidades particulares em Maceió. O ataque a um aluno do curso de Jornalismo dentro de um dos prédios do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac), no Farol, no último dia 23, trouxe à tona a discussão sobre a vulnerabilidade na segurança das faculdades da capital. Chegar ou sair da Faculdade de Alagoas (FAL), em Jaraguá, é quase sempre um dilema para professores e estudantes. A violência é a mesma que acabou afastando a clientela dos bares e restaurantes do bairro histórico. No local são constantes os relatos de arrombamento de veículos e ataque a alunos. O mais grave completa um ano no próximo dia 4 e envolveu o economista e administrador Carlos Stuart Buriti, que foi seqüestrado quando deixava a faculdade, levou três tiros e hoje tenta se recuperar das seqüelas psicológicas que o trauma deixou. Para mostrar o drama de quem precisa estudar e trabalhar nas faculdades em Maceió, a Gazeta percorreu unidades de ensino superior; ouviu alunos, diretores e comerciantes e relata nesta reportagem como as pessoas estão tentando se proteger da violência que vai além das ruas e invade as comunidades universitárias. ### Ladrões atacam estudantes de Comunicação O que parecia ser mais um encontro para discutir a reforma universitária proposta pelo governo federal e melhorias para a universidade gratuita, acabou se tornando um pesadelo para estudantes de cursos de Comunicação Social de todo o País. Reunidos no campus da Ufal no período de 4 a 10 de setembro, no Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom), os cerca de 1.300 universitários alojados em quatro blocos viveram momentos de tensão e medo. Os ladrões ?invadiram?o campus e atacaram os estudantes. Um aluno perdeu um relógio e outro um celular. Inseguros, eles apelaram para a reitoria, que reforçou a segurança no local para que o encontro pudesse continuar. ?Essa reação dos bandidos já era de certa forma esperada por nós. Afinal, além de sua dimensão, o campus não é cercado por muros?, afirma Rafael Soriano, do Diretório Central dos Estudantes da Ufal e da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação. Ele diz que essa situação favorece o vandalismo e os roubos dentro da universidade e defende investimentos na iluminação para conter a onda de violência. ?Essa questão faz, inclusive, parte de nossa pauta de reivindicações à universidade, que já reforçou a segurança patrimonial?, diz. Segundo Rafael Soriano, numa conversa com os estudantes a reitora da Ufal orientou que eles andem sempre em grupos. Assustados, os estudantes da Ufal preparam uma mobilização pela iluminação do campus, pró-greve na universidade e contra a reforma universitária. |NR ### Polícia Federal investiga roubo na Ufal Construído na década de 60, o campus A.C. Simões, da Ufal, está localizado na BR-104, na saída de Maceió. Ao longo dos anos, com o crescimento populacional, o desemprego e o aumento da pobreza, os arredores da universidade foram cercados por favelas. A exploração desordenada da região acabou favorecendo o crescimento da violência. Sem muros, ?protegido? apenas por cercas de telas, o campus virou alvo fácil dos bandidos, que não escolhem hora para agir. A situação é tão grave que o sinal de alerta é dado pela própria reitora Ana Dayse Dórea. Assustada com tamanha violência, ela mandou retirar dos departamentos placas de bronze das turmas de formandos e guardá-las em local protegido. As placas estavam sendo levadas pelos assaltantes para serem revendidas em ferros- velhos e reaproveitadas. O caso mais grave envolve o roubo de produtos químicos. Utilizados corretamente, eles servem para pesquisas laboratoriais. Roubados, são usados como substância entorpecente. Por se tratar de uma instituição federal, o caso foi encaminhado pela reitora Ana Dayse à Polícia Federal (PF) em Alagoas, que abriu inquérito e está investigando suspeitos. Várias pessoas, entre funcionários e alunos da Ufal, já foram ouvidas em depoimento na PF, que também enviou agentes ao campus universitário para investigar o sumiço dos reagentes químicos. No entanto, há suspeita de que alguém do próprio campus tenha praticado o roubo. Outros bens públicos são alvo dos assaltantes. Equipamentos caros como computador, câmeras fotográficas e gravadores foram levados de vários departamentos. Os ladrões também roubam fios da rede elétrica, tampas de esgoto e janelas com esquadrias de alumínio, que são vendidas em ferros-velhos. 20% do orçamento Para tentar conter a violência quase desenfreada, a reitora está reforçando a segurança no campus. ?Segurança é nosso maior desafio. Mais até do que a busca por recursos para manutenção da universidade?, afirma Ana Dayse. Com um orçamento anual de R$ 14 milhões, segundo a reitoria, a Ufal gasta hoje 20% desses recursos, ou seja, quase R$ 3 milhões com segurança. ?Além do apoio que recebemos das polícias Militar, Civil e Federal, que nos momentos mais críticos aumentaram as rondas aqui no campus, tomamos medidas para reforçar a proteção da comunidade universitária. Autorizamos a entrada da PM na universidade e estamos instalando circuito interno de câmeras nos prédios. Estamos buscando ainda recursos para instalar uma guarita na lateral do campus, que funcionará com vigilância 24 horas. Existe projeto também para instalarmos segurança eletrônica na entrada do campus. Para isso estamos tentando viabilizar recursos nos bancos?, revela Ana Dayse. Outro procedimento que vem sendo discutido entre a reitoria e a prefeitura é a circulação interna de ônibus apenas para a comunidade universitária. NR ### Universitários preparam ato de protesto Cansados de esperar uma providência da instituição e do poder público, estudantes do Cesmac decidiram promover uma passeata em protesto contra a falta de segurança na instituição. O ato deve ocorrer esta semana e a proposta é reunir cerca de dois mil alunos de todas as universidades de Maceió, inclusive da Ufal. ?Vamos cobrar maior atenção do poder público e das universidades para a questão da segurança?, revela Renaldo Júnior, presidente do DCE do Cesmac. O Cesmac tem 18 mil alunos. Na Rua Cônego Machado, no Farol, estão localizados os prédios mais antigos. No local também concentram-se as principais queixas sobre a ação de bandidos na chegada ou saída da instituição. ?Pagamos nossos impostos e uma mensalidade alta para termos segurança?, diz o líder estudantil Renaldo Júnior. Segundo ele, entre assaltos, furtos, roubo e arrombamento de veículos na Cônego Machado são registradas 6 a 8 ocorrências por mês. ?Tivemos aqui até um seqüestro relâmpago?, relata. Mas para o comandante da Companhia de Policiamento da Capital (CPC), coronel Antônio Brito, cabe ao próprio Cesmac garantir a segurança interna em sua universidade. ?O Cesmac precisa parar de economizar e gastar dinheiro com segurança. Da nossa parte, o Batalhão Escolar tem mantido rondas com duas duplas de policiais em motos, ou seja, o policiamento ostensivo fora da universidade, que é o que nos cabe?, diz o comandante. Ataque a comerciantes Mas não são apenas os estudantes que estão assustados. Os comerciantes também decidiram se unir aos alunos para exigir segurança. Na madrugada da última terça-feira, uma loja de aparelhos celulares foi arrombada. O ladrão só não levou nada porque o alarme disparou. A mesma sorte não tiveram os funcionários Daniele Honorário Duarte e Manoel Carlos Soares. Há um mês, dois homens entraram na loja às 18h45, apontaram armas para eles e levaram 27 celulares e cartões telefônicos. ?Trabalho porque é o jeito, mas tenho muito medo que eles voltem?, afirma Daniele Duarte. Na esquina, o gerente de uma loja de fotocópias, inaugurada há três meses, decidiu reforçar a segurança e instalou circuito interno de câmeras, que monitoram o movimento no local 24 horas por dia. ?Vivemos uma tremenda insegurança aqui; tivemos, inclusive que reduzir o horário de funcionamento e estamos contrando um vigilante?, revela Robert Freitas. NR ### Tensão e revolta acompanham alunos No prédio do Cesmac no antigo Colégio Guido, bairro do Farol, onde funcionam cursos de Comunicação Social, licenciatura e pós-graduação, a insegurança tomou conta dos alunos desde que o estudante Fred Monteiro foi atacado por um bandido dentro da instituição. Ele chegava à universidade, às 8h30, quando um homem colocou uma arma em sua nuca e o obrigou a entregar o celular. A amiga que estava com ele, Thaysa Rocha, gritou por socorro e o bandido fugiu. O assalto ocorreu há pouco mais de uma semana, durou cerca de 40 segundos, mas o trauma se mantém. Tanto Thaysa quanto Fred andam assustados e redobraram a cautela na hora de entrar na faculdade. ?Já desço do ônibus olhando para um lado e outro?, diz Fred, que tem faltado inclusive às aulas. O pai de Fred, José Luiz Monteiro, confessa que desde o assalto o filho anda abatido e não dorme direito. ?Espero que a direção da faculdade tome providências, porque pagamos caro para ter segurança?, observa. Entre os estudantes o clima é de revolta. ?Logo em seguida ao assalto a direção do Cesmac mandou um segurança para reforçar a proteção do prédio. Isso foi numa sexta-feira. Na segunda, o segurança não veio mais?, reclama Élida Miranda, do Centro Acadêmico de Comunicação Social. O único segurança a que ela se refere fica na entrada do prédio, que tem 1.380 alunos e 47 salas. Plano de segurança. O diretor do Centro Universitário de Formação de Professores do Cesmac, José Bartolomeu Barros, diz que todas as providências para garantir a segurança dos estudantes começam a ser tomadas. Ele admite que a segurança interna é de responsabilidade da instituição, mas que cabe à polícia fazer a vigilância nas ruas. Ele também reclama da falta de iluminação na região. ?Desde 2002, quando nos instalamos aqui, havia dois policiais fazendo a ronda nas ruas e nenhuma ocorrência foi registrada. Com a saída dos policiais, os ataques vêm ocorrendo. Segundo o diretor, durante uma reunião na última semana foram discutidas medidas emergenciais, como o reforço na segurança monitorada por rádio feita por uma empresa privada e a instalação de uma catraca na entrada. As medidas valem para todos os prédios do Cesmac. A segurança interna também será reforçada, com instalação de câmeras. As medidas valem para todos os prédios do Cesmac. O diretor lembra ainda que ?este foi o primeiro caso de assalto registrado dentro da instituição em 31 anos de existência? e diz que o aluno será ressarcido do prejuízo. |NR ### Economista relembra um ano de seqüestro O economista e administrador Carlos Stuart Buriti, 38, cursava o 6° período de Comércio Exterior na Faculdade de Alagoas (FAL), em Jaraguá, quando foi vítima de três seqüestradores. Eram 22 horas de uma segunda-feira, quando ele saiu da faculdade e se dirigiu ao seu veículo. Três homens se aproximaram e o renderam; ele foi jogado dentro de seu próprio carro, um Fiesta, e levado pelos bandidos. Os assaltantes tomaram os cartões do estudante, pararam em bancos e fizeram saques. Seguiram para o Sítio São Jorge, onde obrigaram Carlos Buriti a descer do carro em um matagal, mandaram que se ajoelhasse e dispararam três tiros. Acreditando que a vítima estivesse morta, fugiram do local. Acionada por estudantes da FAL, a polícia encontrou Carlos Buriti agonizante em um canavial. Ele passou um mês internado. Tentou voltar ao curso, mas acabou abandonando os estudos. Os três bandidos, Carlos Antônio da Silva, o ?Chuchu?, 23, Dayvison Leandro da Silva, 24, e Daniel da Cunha, 23, estão presos e aguardam julgamento. Esta semana, a Gazeta esteve com Buriti no local do seqüestro. Abalado, ele lembra que no dia 4 completa um ano do crime. FAL cobra iluminação O gerente da unidade Jatiúca da FAL, Valdeci Victorino, diz que uma empresa de vigilância garante a segurança patrimonial dos prédios da instituição, mantendo, inclusive, rondas de patrulheiros. Quanto à segurança externa dos prédios, tanto na Jatiúca quanto na unidade de Jaraguá, ele atribui a responsabilidade à polícia. ?O poder público não tem nos oferecido condições, como iluminação e policiamento nas ruas, cada vez mais raros. Mas estamos fazendo nossa parte, tanto é que nenhum caso de violência dentro de nossas faculdades foi registrado até hoje?, diz. |NR