Polícia
Com medo, testemunhas desaparecem
MAIKEL MARQUES Repórter Dois Riachos - Robson de Jesus Gomes e João Amaro Leite, testemunhas oculares do assassinato do ex-chefe da contabilidade da Prefeitura de Dois Riachos, José Tarcizo Amorim, fugiram da cidade e tomaram destino ignorado até mesmo pelas autoridades policiais responsáveis pela investigação do crime que impôs rotina de medo e muita desconfiança à população da ?pacata? cidade sertaneja. O funcionário público José Tarcizo Amorim, 43, cidadão simples e muito benquisto, foi fuzilado com oito tiros de pistola disparados à queima-roupa por dois pistoleiros que chegaram ao cenário do crime - a churrascaria Filosofia - numa motocicleta vermelha. Depois de pedir uma cerveja, um dos criminosos sacou a arma e acertou 8 tiros à queima-roupa na cabeça e tórax de Tarcizo. Prisão temporária Uma semana depois do crime que chocou a população de Dois Riachos, o juiz Claudemiro Avelino, da comarca de Cacimbinhas, decretou a prisão temporária de três suspeitos do crime: Laércio Moraes da Silva, o ?Bacalhau? - produtor rural que vive na Bahia; Ubiniel Alves Florêncio - desempregado e filho de comerciantes, e Manoel Pereira da Silva, o ?Manoel Laurindo?, cantor de música brega. ?Trio de amigos? O ?trio de amigos? é ferrenho opositor do grupo político do prefeito Jailton Matias (PTB), que assumiu o comando da cidade depois de 20 anos de predomínio de uma única facção política. A polícia ouviu as testemunhas oculares e chegou aos suspeitos com base na descrição das características físicas dos dois executores. ?São fortíssimos os indícios de que Bacalhau (Laércio Moraes) e Manoel Laurindo teriam sido os autores do crime?, reforça o delegado regional Rosivaldo Vilar, que faz uma ressalva: ?Ainda nos falta uma prova contundente?. A ?prova que falta? poderia vir da acareação entre Laércio Moraes e Manoel Laurindo e as duas testemunhas oculares Robson de Jesus Gomes e João Amaro Leite. ?Robson e João sumiram da cidade?, explica o delegado Rosivaldo Vilar. ### Ex-assessor assassinado falou em lista de morte Segundo apurou a Gazeta, Robson de Jesus era amigo pessoal da Tarcizo e proprietário da Churrascaria Filosofia, hoje uma empresa fantasma em virtude da ausência de clientes. João Amaro estava sentado à mesa ao lado de Tarcizo. Em depoimento ao delegado, Robson e José apresentaram informações contraditórias. ?João afirma que os assassinos usavam bonés. Robson, por sua vez, fala em capacetes. Precisaríamos de uma acareação para esclarecer essa contradição?, explica Rosivaldo Villar. Ele não descarta a hipótese de Robson e João terem decidido não revelar os nomes dos acusados porque temem pela própria vida, numa região onde a estrutura policial é precária e impera a cultura da impunidade. Desafetos Laércio Moraes, principal suspeito de autoria material do crime, é um antigo desafeto do ex-assessor político José Tarcizo Amorim. Em setembro de 2004, Laércio foi preso em flagrante no centro de Dois Riachos por porte ilegal de arma de fogo. Na ocasião, segundo investigação policial, Laércio apontou Tarcizo e Eliel Matias (irmão do então candidato Jailton Matias) como os responsáveis pela denúncia que resultou em sua detenção. ELEIÇÕES ?Meu esposo nunca mandou prender ninguém. A confusão foi grande naquele dia. Estávamos a um mês do dia da eleição. Desde então, quando recebeu jura de vingança, José Tarcizo sempre dizia que estava na lista de morte de Bacalhau (Laércio Moraes)?, diz Josete Amorim, professora da rede estadual de ensino e viúva de José Tarcizo Amorim, que teme pela própria sorte e dos filhos, mas diz confiar na Justiça, pela condenação dos assassinos de seu marido, segundo ela um pacto cidadão. José Tarcizo era ?um homem letrado?, inteligente, de boa conversa. Tarcizo era também professor de História, Inglês e Geografia e, para afinar suas habilidades em estatísticas, números e contas, decidiu apoiar seu amigo prefeito, assumindo a contabilidade da Prefeitura de Dois Riachos. Uma cidade pobre, que praticamente vive dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), da parca lavoura e do gado de corte. ### Viúva não tem dúvida quanto a autoria A viúva de José Tarcizo, Josete Amorim, mãe de cinco filhos e quatro netos, quebrou o silêncio, reuniu parte da família e falou à Gazeta na tarde da última quinta-feira, quando disse ter recebido a informação de que um dos autores materiais do crime teria dito a seguinte frase depois dos disparos: ?Isso é para você nunca mais mandar prender ninguém?. Josete trouxe outra revelação polêmica: ?Bacalhau, Manoel e Ubiniel foram à cena do crime observar o cadáver de meu esposo?. Três dias antes do crime - revela a viúva - José Tarcizo discutiu com Ubiniel Alves Florêncio num dos pontos da cidade. Segundo Josete Amorim, o motivo da discórdia foram palavras de baixo calão proferidas por Ubiniel contra a sua honra. ?Não tenho por que negar que fui muito ofendida?, confirmou Josete Amorim, que ?dá plantão? na delegacia de Santana cobrando apuração rigorosa e punição para os acusados de matar seu esposo. ?Eu só descanso quando houver justiça e punição para os acusados. As evidências apontam para que Laércio Moraes seja o principal interessado na morte de meu esposo. Todos os dias cobro justiça do delegado e do juiz?, avisou a viúva, que leva vida modesta e diz ter ?muito medo de morrer?. MM ### Dois Riachos virou terra de gente desconfiada e muda Depois da morte de José Tarcizo, a cidade de Dois Riachos se transformou num lugar de gente desconfiada e muito assustada. Os secretários da administração Jailton Matias - prefeito que não dá um passo sem os quatro seguranças - mudaram sua rotina diária. Reduziram a freqüência em locais públicos e chegam mais cedo em casa. Por questões de segurança, a Polícia Militar interdita o trânsito para quaisquer veículos todas as manhã na rua onde fica a sede do Poder Executivo e a agência do Bando do Brasil. Se o prefeito Jailton Matias estiver na cidade, a vigilância é reforçada. Segundo apurou a Gazeta, o prefeito Jailton Matias não circula sem a presença dos quatro policiais militares cedidos pelo governo do Estado. A precaução com a vida do prefeito virou ?preocupação? depois da morte de José Tarcizo. ?Não podemos vacilar. Não sabemos quem é o inimigo?, diz um assessor da prefeitura, que pediu sigilo de sua identidade. A reportagem da Gazeta apurou que Jailton Matias, proprietário de uma rede de farmácias, ganhou notoriedade na cidade quando disputou e venceu a eleição para o cargo de vereador. Ao final do primeiro mandato, candidatou-se com apoio de deputados estaduais e venceu a disputa contra o candidato governista Antônio Camilo Neto, representante do grupo político que comandava a cidade havia duas décadas. ?O prefeito chora quando lembra da morte do amigo?, diz outro assessor. Na manhã da última quinta-feira, a portaria de exoneração de José Tarcizo ainda aguardava assinatura do prefeito Jailton Matias. ?Houve muita emoção no momento da confecção do documento. Só falta a assinatura do prefeito. Ainda não houve substituição dele na chefia da contabilidade. O cargo está vago?, revelou outro assessor do Executivo Municipal. No seio do Executivo, o sentimento é um só: todos cobram apuração e punição para os acusados do crime. ?Não mataram um cachorro. Tarcizo levava via humilde, mas tinha procedência familiar?, explicou outro assessor. A reportagem da Gazeta também manteve contato com alguns dos vizinhos da vítima. Sem exceção, todos concordaram em falar sob condição de que suas identidades fossem mantidas em sigilo. ?Não merecia morrer desse jeito?, diz um amigo de longa data. Outro vizinho, que diz ter ouvido os estampidos dos tiros que vitimaram Tarcizo, também cobra punição para os acusados do crime. |MM