Polícia
Delegados agora est�o atr�s das grades
Do topo da hierarquia de uma delegacia de polícia para o outro lado da grade. O mandado de prisão chega como uma bomba para quem perde o status de autoridade e passa a ser um preso. Três delegados alagoanos vivem essa experiência nos últimos dias e engrossam a lista de exemplos registrados na cúpula da Polícia Civil em que ?os caçadores passaram a ser a caça?. Esta semana os delegados Aylton Prazeres e Gilberto França foram retirados do convívio social, acusados por dois assassinatos, e se juntaram ao delegado Osvanilton de Oliveira, trancado na Delegacia de Repressão ao Narcotráfico há mais de um mês, depois da condenação pelo crime de tortura. Nos últimos anos, a lista de ?xerifes? que passaram por essa inversão de papéis em Alagoas é considerável. ### Inquérito tem falhas na investigação Os fatos que levaram a Justiça a mandar prender os delegados Aylton Prazeres e Gilberto França aconteceram num período de vinte dias no município de Santana do Ipanema, Sertão de Alagoas. 20 de maio de 2005. O então delegado municipal de Ouro Branco, Gilberto França, dá plantão na Delegacia Regional de Santana do Ipanema e recebe um chamado do delegado titular da região, Aylton Prazeres. A missão: interceptar um veículo gol roubado. Prazeres encontra França e os dois saem em diligência sem nenhum policial acompanhando. ### Nirco assume apuração do crime O novo inquérito da morte de Timba será agora conduzido pelo Núcleo Integrado de Repressão ao Crime Organizado (Nirco) da Polícia Civil, com o acompanhamento de um grupo de delegados designados especialmente para o caso e de dois promotores de Justiça. Um dia após as prisões, na terça-feira, a promotora de Santana do Ipanema, Tânia do Nascimento, solicitou afastamento do caso alegando acúmulo de trabalho com outras comarcas e juizados eleitorais no Sertão. No lugar dela, o promotor Hamilton Carneiro assume a 2ª Vara Criminal e atua em parceria com o promotor Maurício Wanderley Amaral, que denunciou os delegados junto com a promotora Tânia. ### Delegados têm ar-condicionado na cela A Gazeta de Alagoas e a Gazetaweb tiveram acesso exclusivo ao local onde os delegados Aylton Prazeres e Gilberto França estão presos na Delegacia de Repressão ao Narcotráfico. O espaço é fechado em quatro paredes, mas não pode ser chamado de cela. Com televisão, ar-condicionado, isopor de bebidas e ventilador está mais para uma espécie de quarto ou sala vip no xadrez. A falta de fechadura ou até mesmo maçaneta na porta revela que os delegados entram e saem do quarto quando querem. Também se vê no local uma feira com frutas, biscoitos, pães, caixas de leites e de sucos, dois colchões no chão, um birô, malas com roupas e uma pequena estátua de Santo Expedito, o santo das causas impossíveis. ### Casos polêmicos levaram à prisão de quatro delegados As prisões de quatro delegados de polícia entre os anos de 2005 e 2006 revelam uma conexão entre vários crimes que de alguma forma se relacionam com o enigmático assassinato do tributarista Sílvio Vianna em 1996. As mortes de testemunhas-chaves como o pistoleiro Ebson Vasconcelos, o ?Êto?, o fazendeiro Fernando Fidélis e o pistoleiro Cícero Belém calaram depoimentos e queimaram arquivos que poderiam incriminar pessoas influentes em Alagoas. Entre elas, os delegados Valdir de Carvalho, Valter Gama, Jair Macário e Robervaldo Davino entraram para a lista de suspeitos e ainda respondem na Justiça. Apontado como um dos executores de Sílvio Vianna, o pistoleiro Êto foi assassinado depois de ameaçar contar o que sabia sobre o caso. ### Prisões não denigrem imagem da polícia Para o delegado-geral da Polícia Civil, Marcílio Barenco, a condução de investigações contra colegas de profissão não é novidade. Ele foi o presidente do inquérito que investigou a morte de Fernando Fidélis e indiciou o chefe de serviço da Delegacia de Coruripe, Jesse James, quando era delegado daquele município. Marcílio Barenco alega que estes casos não denigrem a imagem da instituição policial e mostra que a polícia alagoana ?corta da própria carne? se for necessário. A seguir, algumas perguntas sobre o assunto, que foram respondidas por Barenco por e-mail. Gazeta - Até que ponto a prisão de delegados ou mesmo simples suspeitas denigrem a imagem da Polícia Civil? Marcílio Barenco - Toda e qualquer atividade profissional possui problemas de ordem comportamental. O que devemos é separar a instituição da atitude isolada de seus integrantes. A Polícia Civil é composta de mais de dois mil integrantes. Desse total apenas uma parcela ínfima responde por atos desabonadores para a postura policial. E para corrigir possíveis desvios de comportamentos a instituição conta com sua corregedoria, que vem trabalhando com afinco na apuração de todos os casos que chegam ao seu conhecimento. A orientação da Delegacia Geral é de que todos os atos tidos como desabonadores sejam investigados com profundidade, e caso haja a comprovação de culpa, os responsáveis sejam punidos de acordo com o que determina o próprio Estatuto da Polícia Civil. Portanto, a prisão, não apenas de delegados, mas de quaisquer de seus membros, não denigre a instituição, ao contrário, mostra que a instituição está atenta e acompanhando qualquer denúncia que envolva seus integrantes, sempre levando em consideração o princípio constitucional da presunção da inocência. ### Adepol discorda de ação do MP Todos estes casos que geraram a prisão de delegados têm uma particularidade: a participação de promotores nos inquéritos ou mesmo investigações paralelas. A Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) reage. ?O Ministério Público não tem competência para investigar, essa atribuição é da polícia?, dispara o presidente da Adepol, delegado Antônio Carlos Lessa. Lessa aponta que os delegados estão virando suspeitos por causa de acusações de criminosos. ?O Valdir de Carvalho foi denunciado pelo Garibaldi, que havia sido condenado, estava preso e podia falar qualquer coisa para ganhar a delação premiada. Já o Osvanilton é acusado por condenados da famigerada gang fardada, o Valter Gama foi impronunciado e a palavra do Davino é confrontada a de um marginal preso que acusa só por ouvir dizer?. /// Desde a prisão, Aylton Prazeres e Gilberto França estão recolhidos a uma das celas da Delegacia de Repressão ao Narcotráfico. Foto: Robson Lima