Polícia
Quando o perigo est� por tr�s da farda
O toque da campainha esconde a ameaça no outro lado do olho mágico. Por trás da porta, o homem com farda da companhia elétrica esconde a arma e se prepara para anunciar o assalto. As invasões a residências e arrastões em condomínios aumentaram cerca de 40% em todo o País nos últimos cinco anos. Em Maceió, só de junho para cá, foram registrados nove ataques desse tipo. Em três deles, os bandidos estavam disfarçados de funcionários da Companhia Energética do Estado de Alagoas (Ceal). Na última terça-feira, um falso eletricista entrou no condomínio Vivendas do Bosque, no Murilópolis, e tomou R$ 5 mil que estavam guardados no apartamento de uma policial militar. No dia 23 de julho, dois homens com fardas da Ceal atacaram uma mansão no Feitosa. Já em 4 de junho, as vítimas foram os moradores de uma residência no Jacintinho, que também abriram a porta para dois homens que se identificaram como funcionários da companhia. ### Encostou arma e mandou abrir cadeado Oficial da Polícia Militar, filha de um major, irmã de um tenente-coronel e de uma sargento. Nada disso impediu que uma tenente PM, que não quer se identificar, perdesse os R$ 5 mil que passou seis meses juntando para um bandido disfarçado de funcionário da Ceal. Mesmo fazendo parte de uma família de policiais, ela descarta qualquer possibilidade de registrar o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). ?A Polícia Civil nunca vai fazer uma investigação criteriosa mesmo. Não vou ter meu dinheiro de volta, não prestei queixa e nem vou prestar. Trabalho com isso e sei como é malandro mesmo. Se for preso, ele sabe onde eu moro e pode voltar?, revela a PM, lembrando que os dois filhos pequenos passam boa parte do dia no apartamento com a avó. ?Não penso por mim, mas pelo perigo que meus filhos e minha mãe poderiam correr?. ### Investimento para surpreender o ladrão Equipamentos de segurança e profissionais bem treinados são os antídotos para evitar assaltos em áreas residenciais, mas o grande problema são os próprios moradores. A participação nas assembleias é mínima; os síndicos e administradoras enfrentam problemas para aprovar investimentos em segurança e muitos condôminos se recusam a seguir as normas estabelecidas para evitar assaltos. Dono de uma administradora de condomínio e diretor do Sacrem, José Ferreira da Hora Jr., argumenta que a segurança eletrônica de um prédio é fundamental e não custa caro. ?Para deixar o prédio todo coberto, em média, não se gasta mais do que R$ 6 mil, e a contratação de uma empresa de segurança por comodato custa cerca de R$ 150 por mês, isso dividido por todos os apartamentos é um investimento barato e muito bom?. ### Estranho espera morador no meio da rua O porteiro Rosivaldo Nascimento trabalha numa guarita de olho em quem passa na rua e de olho nas oito câmeras. Ele dispõe de um telefone para chamadas de emergência, inclusive contatos diretos com a polícia e a empresa de vigilância, e não tem cerimônia. Quando chega algum visitante desconhecido, manda aguardar pelo dono no meio da rua mesmo. A arma secreta é um botão vermelho de emergência oculto na parte de baixo da bancada. ?Este aqui a gente não pode apertar nem de brincadeira, senão chega a polícia, grupo de antissequestro e os seguranças. É o sinal de que está acontecendo alguma coisa muito grave?, explica. As imagens gravadas pelas câmeras também são monitoradas em tempo real na sede da empresa de segurança e na própria guarita. ### Funcionário deve portar crachá e ordem de serviço A Ceal garante que adota uma série de normas para evitar que seus funcionários ou prestadores de serviço sejam confundidos com assaltantes. Segundo o assistente comercial que representa a direção da Ceal, Edson Lima, os trabalhadores sempre devem estar fardados, portando um crachá de identificação da empresa e uma Ordem de Serviço (O.S.) padrão, com logomarca da companhia energética. ?O carro padronizado também ajuda a identificar, mas quem ainda tiver dúvida pode ligar para 0800 082 0196 e checar se existe mesmo a O.S. para aquela residência?, informa Lima. Em condomínios, os relógios sempre estão na área comum e o medidor nunca precisa entrar no apartamento ou casa. Ele também sempre carrega uma máquina de leitura e entrega simultânea, que parece uma maquineta de cartão de crédito. Quase sempre é o mesmo funcionário ou prestador de serviço que faz as visitas e os porteiros já conhecem o pessoal. ### Polêmica revista em residencial de luxo O medo e o reforço na segurança chegou a tal ponto que alguns condomínios de luxo começaram a submeter os empregados a sessões de revista na guarita de acesso. O caso mais crítico foi registrado no condomínio Aldebaran Beta, onde foi implantada a revista íntima e a Justiça do Trabalho decidiu intervir, após uma ação movida pela Procuradoria Regional do Trabalho (PRT). No início deste mês, o juiz da 7ª Vara do Trabalho de Maceió, Alan Esteves, proibiu o condomínio de realizar revistas nos pertences dos trabalhadores que transitam por sua portaria. ///