Polícia
Seguran�a p�blica abandona Barra de S�o Miguel
Parece história de Trancoso. Uma cidadezinha com 7 mil habitantes passa a ter 30 mil moradores nos feriados e fins de semana, quase todos assustados com o avanço da violência, a invasão de bandidos e o sumiço da polícia. Parece conto de fadas. A população incha para 60 mil, 70 mil pessoas, como um reino encantado que se entope de foliões no carnaval. Isso sem contar os visitantes e turistas. Furtos, assaltos, brigas, arruaças e mortes tomam ruas, becos e a praia. Parece lorota. O telefone da polícia toca, mas ninguém atende. E, mesmo que o policial de chinelos saísse do beliche para retirar o aparelho do gancho, não adiantaria. Ele é o único dentro da delegacia e não pode abandonar o posto. Se tivesse mais homens, também seria em vão, não existe viatura. Quando o carro não está quebrado, dificilmente ele liga a sirene para sair em missão porque falta combustível. ### Delegacia instaura 10 inquéritos nos últimos três meses O número impressiona. A Delegacia da Barra de São Miguel instaurou apenas dez inquéritos nos últimos três meses. Será que é por falta de ocorrências? Tudo indica que não, dada a grande quantidade de moradores e turistas afirmando que não procuram a polícia para não perder tempo. O delegado da cidade, Cícero Rocha, alega que não é fácil combater o crime com apenas uma viatura velha que vive na oficina e quase não tem combustível, além do efetivo reduzido e da inexistência de segurança ostensiva da Polícia Militar. A estrutura precária da delegacia também é notável nas paredes com rachaduras, mofo e infiltrações. ### Normas não permitem ronda de viatura A viatura recém-chegada ao Grupamento da Polícia Militar na Barra de São Miguel teve que ficar parada porque as normas da corporação só permitem rondas com, no mínimo, três PMs. ?Os nossos turnos são de três policiais, mas hoje só estou eu porque um foi prestar depoimento no Fórum e o outro está num curso?, conta o soldado Silva Júnior, pedindo para a equipe de reportagem esperar ele se recompor e colocar a farda para sair nas fotos. Outro problema: o GPM da Barra é subordinado à 3ª Companhia de Marechal Deodoro, que sequer é independente e, por sua vez, responde ao 8º Batalhão, localizado próximo ao aeroporto, em Rio Largo, bem longe da Barra. Os 208 policiais em atividade neste batalhão devem dar conta dos municípios de Rio Largo, Messias, Marechal Deodoro, Satuba, Pilar, Santa Luzia do Norte, Coqueiro Seco e Barra de São Miguel, incluindo povoados como Massagueira, Barra Nova e Francês. ### Prefeito diz que polícia conhece os traficantes Estressado com a proximidade da alta estação e o distanciamento da segurança pública, o prefeito Reginaldo de Andrade solta o verbo. ?Toda a polícia sabe quem são os maiores traficantes do município, mas ninguém age; a questão da segurança é o nosso pior pesadelo, não consigo entender, falta boa vontade para trabalhar, vontade política e um delegado que tenha compromisso para resolver a questão?. Como se não bastasse a ausência de policiais na rua, o prefeito recorda de um susto que teve há alguns meses. ?Já aconteceu da gente procurar o delegado para resolver um problema, mas soubemos que ele estava preso?, conta Reginaldo, numa referência à prisão do então delegado da cidade, Eulálio Rodrigues, acusado de receber propina para soltar o traficante Gil Bolinha. ### Polícia não consegue resolver problema Primeiro foi o susto: de supetão, um homem pula o muro e invade a casa de praia. Veio a reação: o deputado Sérgio Toledo rende o estranho e o tranca num quarto. Em seguida, outro choque: quatro homens do lado de fora batem no portão e querem entrar para capturar o invasor. Ficou a dúvida: o rapaz está fugindo do grupo que quer matá-lo ou tudo não passa de uma armação para assaltar a residência? Depois, a frustração: policiais dizem que não podem resolver este problema. ?É uma aflição, angústia muito grande quando você está desprotegido, descontraído com sua família, num momento íntimo que, de repente, é violado e se transforma em pânico?, conta o parlamentar que estava na casa com a esposa, filhas, sobrinhas e um motorista. ?Mas só eu estava armado. Tenho porte de arma?. ### Depois do episódio, reforço policial Menos de uma semana após a ocorrência, o reforço do policiamento já pode ser visto nas ruas e na orla da Barra de São Miguel. O secretário de Defesa Social, Paulo Rubim, reconhece as deficiências e aponta soluções, mas não se conforma com o que considera falta de iniciativa e de boa vontade dos policiais que atuam na região. ?Eles têm razão quando reclamam da falta de efetivo e de estrutura na delegacia e na PM, o governo tem que investir nisso, mas não se justifica nem se admite que um policial fique de braços cruzados, com as pernas em cima do birô para dizer ?eu não tenho condições de fazer isso??, critica Paulo Rubim. O secretário não poupa críticas e reforça o puxão de orelhas para quem compõe a segurança pública. ### População cansou de esperar polícia Cansada de esperar uma ação efetiva da polícia, em alguns casos, a população tenta fazer justiça com as próprias mãos. Foi o que aconteceu quando a artesã Lucineide da Silva teve o celular roubado. ?Todo mundo viu os ladrões, conseguiram pegar eles, mas a polícia não veio porque não podia sair da delegacia, aí o pessoal só deu umas porradas e deixou os ladrões irem embora?. Deslumbradas ao conhecer o que acharam um paraíso, as amigas mineiras Maria do Socorro, Virgínia Ladeira e Irene Teixeira nem imaginavam que a violência urbana estava tão perto. ?Água quentinha, cerveja geladinha, nenhum sacrifício, tá tudo bom demais da conta?, exalta Socorro. ///