Política
Temas pol�micos na disputa nacional
O tema está na ordem do dia, teve repercussão nacional e virou uma espécie de ?arma? dos adversários contra a candidata à Presidência da República Dilma Rousseff (PT). Há tempos o assunto aborto não tinha sido tão debatido quanto nos últimos dias. Assim está sendo porque Dilma teria se declarado favorável à descriminalização do aborto. Suas convicções a respeito do assunto teriam levado as eleições de presidente para o segundo turno, quando pesquisas indicavam a vitória da candidata do presidente Lula no primeiro turno. Criticada por grupos contrários à prática, Dilma negou que um dia tenha se colocado a favor do aborto. Para a oposição, a polêmica ?caiu como uma luva?. Estava lançado o debate em torno do que o eleitor brasileiro considera ?certo ou errado?. O alagoano não ficou alheio à discussão. Para saber o que pensam os candidatos ao governo do Estado sobre os assuntos, a Gazeta ouviu Teotonio Vilela (PSDB) e Ronaldo Lessa (PDT) e traz, na próxima página, os conceitos dos pretendentes ao cargo sobre temas que dividem a opinião do eleitor. TÉO E LESSA DÃO OPINIÃO SOBRE ASSUNTOS | NIVIANE RODRIGUES - Repórter Não é apenas no campo da disputa presidencial que os temas aborto, descriminalização da maconha, união civil entre pessoas do mesmo sexo e religião são considerados ?espinhosos?. Durante duas semanas, a Gazeta tentou ouvir os dois candidatos ao governo do Estado, Teotonio Vilela Filho (PSDB) e Ronaldo Lessa (PDT), sobre os assuntos. A ideia era saber o que eles pensam. Mesmo diante da resistência das assessorias, os candidatos se dispuseram a falar tranquilamente, conforme o leitor acompanha abaixo: RELIGIÃO E SOCIEDADE TEOTONIO VILELA Sou católico, apostólico, romano, batizado, crismado, fiz primeira comunhão. Sou uma pessoa, graças a Deus, espiritualizada. Faço minhas orações todos os dias, com muito amor e muito fervor. Se religião conduzir a pessoa para a espiritualidade, ajuda muito. Porque tem pessoa que é religiosa mas não consegue desenvolver a espiritualidade. A espiritualidade, essa que é a mais importante. Para isso, a pessoa pode ter qualquer religião ou não ter nenhuma religião e, no entanto, ser uma pessoa dotada de espiritualidade. Eu estou falando aqui de amor, de compaixão, paciência, tolerância, noção de responsabilidade, de harmonia, o espírito de coletividade, solidariedade humana. É isso o que eu chamo de espiritualidade. Isso não depende da religião. RONALDO LESSA Eu sou católico por formação, mas não sou uma pessoa praticante, portanto eu diria que hoje a religião que está mais próxima de mim é o kardecismo. E como gestor público eu procurei fazer sempre com que se respeitasse a sociedade. Por isso criei um centro ecumênico no Palácio e depois um outro na beira da lagoa para que a sociedade se expressasse, os católicos, evangélicos, todo mundo, as religiões afrodescendentes, acho muito importante. A religião contribui muito para a sociedade. As igrejas têm ajudado muito, nas horas de calamidades, no combate às drogas. As igrejas contribuem muito, ajudam o Estado em vários fatores. DESCRIMINALIZAÇÃO DA MACONHA TEOTONIO VILELA Essa é uma outra questão que precisa ser aprofundada. Há países que adotaram a legalização da maconha e se deram bem, conseguiram equacionar. Existem outros que isso só incentivou o consumo de outras drogas e o resultado foi extremamente danoso. De modo que essa é uma discussão, num País grande como o Brasil, cheio de diferenças sociais, que precisa ser discutida com muita profundidade. Confesso a você que eu não tenho uma opinião formada. Se fosse para decidir hoje, eu sou contra a legalização da maconha. RONALDO LESSA Não sei em que ajuda isso. Sinceramente eu não sei. Num primeiro momento, quando você descriminaliza qualquer tipo de droga, você pode imaginar que prejudica a ponte, que é o fornecedor, que produz. A maconha é a mesma coisa do crack. O crack diz que é o subproduto da cocaína, que é a droga da elite. Eu acho que a gente precisa é combater lá em cima. Será que nós no País não poderíamos estar juntos, numa eficácia maior? Pelo amor de Deus. Ou é por que é gente importante que está dentro disso? É preciso que a gente coloque as coisas como elas são e vamos às causas principais disso. UNIÃO CIVIL MESMO SEXO TEOTONIO VILELA Defendo que as pessoas tomem as decisões que as fizerem felizes, de acordo com as suas convicções, com a sua consciência, que procurem trilhar o caminho do bem. RONALDO LESSA Sou contra o casamento entre o sexo oposto, quanto mais do mesmo sexo! Acho que não é isso que dá a garantia. Agora, acho absolutamente natural que os direitos da convivência conjugal sejam reconhecidos como hoje a lei já faz. Têm juízes de alguns lugares que reconhecem e as pessoas recebem pensão, essas coisas todas. Acho absolutamente correto isso. POLÊMICA E ELEIÇÃO TEOTONIO VILELA Olhe, nós vivemos numa democracia. Na democracia todos os temas podem ser debatidos e devem ser debatidos. Não se pode é em um País com tantos problemas centralizar a discussão em um ou dois temas. O Brasil e o Estado de Alagoas têm problemas de toda natureza. Alagoas principalmente ainda tem indicadores sociais muito complicados. Não pode numa eleição você centralizar a discussão em um ou dois temas. RONALDO LESSA Acho que essa discussão foi puxada nesse momento para tentar prejudicar a Dilma [Rousseff ? candidata do PT a presidente da República]. Pelo menos toda vez que eu vejo esse viés é para tentar colocá-la numa saia justa. Acho absolutamente desnecessário. É preciso que a gente trate essas questões maiores com a profundeza que elas devem ter, com a seriedade que elas precisam ser tratadas. Abrir para a sociedade, aprofundar a discussão. Não ter medo da discussão. A gente deve expor nossos pensamentos e ouvir também os dos outros. O País cresce na medida que isso acontece. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ATENDER AS MULHERES TEOTONIO VILELA Veja, isso compete à esfera nacional. Um tema desse não é da amplitude do Estado. Essa é uma matéria para ser tratada pelo Congresso Nacional. RONALDO LESSA A gente também não pode cair na hipocrisia. É preciso que o Estado funcione como um instrumento para não permitir que essas mulheres morram como acontece hoje. É preciso que a gente tenha eficácia nisso, para não criminalizar. Que se possa encontrar mecanismos para não ter tanta mulher morrendo por causa do aborto clandestino. É preciso que a gente encontre um caminho. Não tem fórmula. Agora, evidentemente como isso é uma visão que está fora da minha alçada, não posso dizer que tenho tal proposta. A discussão precisa ser efetivada no País para que a gente possa encontrar os caminhos. ABORTO TEOTONIO VILELA Bom, eu defendo que as pessoas tomem as decisões que lhes fizerem felizes e que ajam de acordo com suas consciências; que procurem trilhar o caminho do bem. Essa é uma discussão muito complexa, exige tempo para ser aprofundada. RONALDO LESSA A vida é a coisa mais sublime que pode existir. Então ninguém pode ser favorável, por exemplo, ao aborto. Aborto para ser feito é preciso ser em circunstâncias absolutamente especiais e a sociedade deve discutir isso. Ampliar essa discussão. Mas não acredito que ninguém que creia em Deus admita a banalização do aborto. Não pode. É como a vida. Você tem que valorizar isso como o maior bem que se pode ter.