Política
O Brasil dos estrangeiros
Mais de quinhentos anos depois do descobrimento do Brasil, o País não conseguiu se livrar dos seus mais remotos estereótipos. Se os primeiros colonizadores trombavam em índias nuas por toda parte e revelavam com espanto em cartas ao velho continente como um povo podia emanar de boas doses de selvageria e ?pureza? ? uma quase ignorância ?, os estrangeiros que hoje visitam o Brasil ainda se mostram boquiabertos com o mesmo ?exotismo? que os próprios brasileiros fazem questão de ostentar. Até nas cerimônias oficiais da Presidência da República, o contato dos convidados do primeiro mundo com a população pobre do ?paraíso perdido? ganha as cores dos cocás, a graça da malandragem e da malícia na capoeira e no futebol, e a excitação do despudor com o eterno samba das mulatas. Tanto agrado aos de fora, fortalecendo uma duvidosa ?identidade nacional?, inspira, inclusive, celebridades internacionais a improvisar piadas, numa contagiante descontração que parece marcar a relação brasileira com seus admiradores ?d?além mar?. Na segunda edição do Fórum Internacional de Sustentabilidade, por exemplo, que aconteceu em Manaus, no Amazonas, nos últimos dias 24, 25 e 26, o ator e ex-governador da Califórnia (EUA), Arnold Schwarzenegger, que tem metas para ampliar o uso de energia renovável em seu Estado, numa entrevista à imprensa apresentou uma alternativa ?criativa? para chegar mais rápido à tão sonhada eficiência energética: usar o corpo das brasileiras. ?Elas passam mais de 24 horas sambando. Daria uma excelente fonte de energia alternativa?, disse ele, arrancando risos da plateia. Visão caricata incomoda Do evento ambiental nos arredores da Floresta Amazônica às solenidades oficiais do governo federal, a figura do brasileiro carrega o símbolo do ?diferente? e desse jeito é exibida aos visitantes estrangeiros, que mantêm até hoje uma visão caricata do Brasil em pleno século 21. Em seu livro Torre de Babel, publicado em 1996, o antropólogo Roberto Damatta já se mostrava incomodado com a situação: ?Dentro de um quadro de notável e cretina ignorância sobre o nosso País, surpreende-me uma imagem unânime e monolítica ? um verdadeiro tijolo simbólico ? do Brasil como o País do café, do samba, das praias, das belas morenas, do carnaval e também dos assaltos, da corrupção, da inflação, das ditaduras?. No trabalho Imagens de um país: da mestiçagem à marca Brasil, apresentado em Brasília, no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em 2006, o antropólogo e doutor em Ciências Sociais da Universidade de Caxias do Sul, Rafael José dos Santos, explica que a transição de um Brasil agro-exportador para um País urbanizado e industrial, nos anos 1930, sob a tutela do Estado Novo, consolidou a imagem brasileira que ainda hoje inspira autoridades do exterior. Havia o interesse político de massificação da identidade nacional, que influenciou também a produção cultural. São desta época a clássica marchinha O seu cabelo não nega, o personagem da Disney Zé Carioca ? o brasileiro malandro e preguiçoso ?, e o sucesso de Carmen Miranda, a mulher sensual e alegre, com ares tropicais, que ajudou a aproximar os Estados Unidos do Brasil.