Política
Erro m�dico deixa paciente paralisada
Encostada no leito do melhor apartamento oferecido pelo Hospital do Açúcar, a mãe conversa com a filha, que está deitada, com olhar perdido no vazio e o corpo imobilizado: ?Você vai ficar boa, viu Gisela? Está ouvindo a mamãe??. Não há resposta aparente, além da mudança de foco no olhar e do piscar, talvez natural, da professora de inglês da rede pública estadual de ensino, que também não pode questionar mais nada, desde que recebeu a picada da agulha do anestesiologista Audir Marinho de Carvalho Filho, por volta das 16h do dia 13 de abril deste ano. Desde então, o drama vivido por Gisela Patrícia Campos de Oliveira, 35 anos, sensibilizou grande parte dos profissionais da saúde que atuam no caótico Hospital do Açúcar, afundado na maior crise financeira e administrativa de sua história. Mas não é apenas da filha Gisela que sua mãe, Silêda Costa Campos de Oliveira, 55 anos, espera respostas. O silêncio da paciente que foi claramente vítima de erro médico ? ou de uma série de erros ? é compartilhado com as instituições que já poderiam ter agido para punir os responsáveis pelo seu atual quadro clínico de estado vegetativo persistente, ou estado vigil, em que a pessoa não tem mais função voluntária e o cérebro tem apenas reações básicas de reflexo. Anestesiologista se nega a falar sobre suspeita de erro O fato de Gisela Patrícia Campo de Souza estar recebendo assistência médica além do limite de cobertura de seu plano de saúde, no melhor apartamento do Hospital do Açúcar, com fonoaudiólogo duas vezes por semana e um técnico de enfermagem à disposição por 24 horas, é uma ?confissão de culpa? pelo erro médico, interpreta Carlos André Severino dos Santos, noivo da professora do Estado. ?Lá na UTI, os médicos diziam: ?Tá vendo? Foi um erro?, apontando para a Gisela. E diziam que não receberam o prontuário da cirurgia porque ?prenderam? o documento para lá?, revela a mãe da paciente, Silêda Campos. Apesar do tratamento ?atencioso? à paciente sugerir a existência do erro, o caso parece não preocupar o principal acusado pelo que o noivo chama de ?sequencia de horrores?. Polícia ainda não ouviu ninguém Quem também não teve muita coisa a dizer sobre o caso foi o delegado do 4° Distrito Policial da capital, Robervaldo Davino, que recebeu a denúncia da mãe de Gisela em 27 de julho e ainda não ouviu nenhum dos acusados, funcionários ou diretores do Hospital do Açúcar, quase três meses depois. Apesar de iniciar a entrevista afirmando que ?as investigações estão avançadas?, logo confessou que perdeu o prazo para a conclusão do inquérito e enviou pedido de prorrogação ao Ministério Público Estadual (MP). E ainda admitiu não ter tomado depoimentos além do que ouviu dos denunciantes. Nem teve acesso ou solicitou os prontuários médicos porque ?o hospital só libera após decisão judicial?. Davino disse aguardar por um laudo pericial que já teria sido solicitado por ele ao Instituto Médico Legal (IML) e pelo resultado da sindicância instaurada no âmbito do Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal). Médica temia o pior com anestesia Carlos André dos Santos já pediu ao Hospital do Açúcar os nomes dos envolvidos no que considera ser uma tentativa de homicídio contra sua noiva, pelo fato de os profissionais terem assumido o risco de continuar a cirurgia após a primeira parada cardíaca, o que ele diz ter resultado na segunda parada cardiorrespiratória, quando o anestesiologista Audir Marinho também estaria ausente da sala de cirurgia. Entre esses profissionais, a Gazeta somente conseguiu falar com a cirurgiã vascular Janaína Hollanda, na última sexta-feira, um dia depois do primeiro contato frustrado pela negativa de a angiologista receber a reportagem em seu consultório. Ao atender o telefonema, a doutora Janaína não se furtou em dirigir a responsabilidade pela complicação de sua paciente para o anestesiologista Audir Marinho. Ela negou a existência de uma segunda parada cardiorrespiratória durante o procedimento que realizava. Mas admitiu que a ?intranquilidade de seu coração?, após presenciar a parada que Gisela teve logo após a aplicação da anestesia, a fez não concluir a cirurgia. E diz ter confiado no doutor Audir, mesmo diante da opinião do outro anestesiologista, Humberto Lopes Casado, que aconselhou o cancelamento da operação.