loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Boataria � novo “inimigo” da Defesa Social

Ouvir
Compartilhar

A história até agora está mal contada, mas uma coisa é fato: nenhum assalto, nenhuma rebelião, nenhuma ação do crime organizado abalou tanto o governo como a notícia, falsa ou não, de um arrastão no Centro de Maceió. Domingo, 18 de dezembro, um dia para ser de lucro e alegria entre os lojistas. Uma manhã para ser de compras natalinas para os maceioenses. De repente, tudo virou correria. O povo se atropelou apavorado numa fuga desembestada. Só a hipótese de virar mais uma vítima da violência no Estado onde mais se mata no Brasil foi o bastante para o pânico em cadeia tomar conta da cidade inteira. O boato de um arrastão teve a força de um tsunami. Em pouco tempo, o medo percorreu o Centro, o Mercado da Produção, bairros da parte baixa e alta da capital e até o interior alagoano. O prejuízo foi inevitável. O desespero perturbou a população como nunca. E como nunca, o governo foi forçado a dar uma resposta rápida em público, na tentativa de convencer que em meio aos caos generalizado, a segurança pública seguia inabalada, no controle da situação. FALSOS ARRASTÕES E ATENTADOS A ÔNIBUS MOBILIZAM O GOVERNO Na entrevista à TV Gazeta, Teotonio Vilela Filho falou da insegurança no Estado. ?É triste, mas ao mesmo tempo desafiador?, disse o tucano, generalizando a problemática. ?A questão da violência é de Alagoas, é do Brasil, é do mundo inteiro. Há um mês, fui a uma reunião de governadores do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. A pauta era a partilha dos royalties do pré-sal. Após os governadores discutirem os royalties durante meia hora, durante três horas e meia o assunto foi segurança pública, violência, droga, o crack, que é terrível. Então, essa é uma questão que preocupa a todos?, explicou o governador, que lamentou as estatísticas de homicídio, responsabilizando a gestão passada. Ainda na entrevista, Vilela confirmou a presença do PCC no Estado. ?Houve e está havendo uma reação de chefes do crime organizado que estão presos. Criamos um presídio de segurança máxima e eles estão completamente isolados dos seus aliados do lado fora, que fizeram essa movimentação dos ônibus. Mas estamos atentos?. Sobre os boatos de arrastão, o governador foi enfático. Relatos ?contaminaram? diversos bairros de Maceió Na Jatiúca, na Ponta Verde, na Ponta Grossa, no Vergel do Lago, no Bom Parto, no Clima Bom, no Benedito Bentes, na Gruta de Lourdes, e em outros bairros de Maceió, o lazer dominical foi interrompido pela notícia do arrastão no último dia 18. Certos de que a insegurança em Alagoas é facilitadora para esta nova modalidade do crime por aqui, donos de bares e de supermercados encerraram imediatamente o expediente, convidando clientes a irem embora. A conta chegava na mesa e surpreendia o consumidor. Alguns empresários receberam a notícia do arrastão por telefone e prontamente desceu as portas. No Tabuleiro, até crianças foram arrancadas do campinho de futebol por pais desesperados. ?O arrastão está no Centro e lá já mataram três. Dizem que ele está vindo para cá e você quer ficar na rua jogando bola?, dizia à criança o pai apavorado. As redes sociais ajudaram a repercutir a boataria. Já a divulgação do clima de terror rendeu críticas à imprensa. ?Boatos não partiram do PCC? O presidente do Conselho Estadual de Segurança Pública, Paulo Brêda, na segunda-feira após a confusão no Centro, pediu uma audiência com o secretário de Defesa Social, Dário Cesar. ?Fui ouvir dele o que estava acontecendo, até para eu saber o que dizer, caso fosse questionado pela imprensa ou outros setores da sociedade?, explicou ele, ao avaliar a força do suposto arrastão. ?O que podemos tirar disso tudo é uma constatação muito triste. A população vive num estado de pavor constante. Isso todo mundo já sabia, mas nunca havia tido uma demonstração tão ampla como esta. Poucas ocorrências foram capazes de causar um caos imenso como esse?. Paulo Brêda disse que o pânico provocado pelo boato foi alimentado pelas notícias dos ônibus incendiados. ?Alagoas já tinha visto incêndios a ônibus, mas no noticiário nacional. Agora os alagoanos começam a sofrer nas ruas com a reação de dentro dos presídios, com os atos terroristas. Esta é mais uma mazela para o poder público administrar?, comentou o presidente do Conselho, sem ligar um fato ao outro. PARA SOCIÓLOGA, NÃO BASTA SÓ INVESTIR EM EQUIPAMENTOS UM OLHAR DA CIÊNCIA SOBRE OS ARRASTÕES EM MACEIÓ » Ruth Vasconcelos - é professora da pós-graduação em Sociologia da Ufal. A Sociologia tem muitos estudos que nos ajudam a refletir sobre os fenômenos de massa e seus efeitos na dinâmica social. Penso que o que aconteceu em Maceió foi um fenômeno de massa que se concretizou como uma reação coletiva a um comando vindo de alguém (conhecido ou desconhecido) que produziu um efeito social, independentemente da veracidade do que foi anunciado. A única forma de evitarmos esse tipo de acontecimento é quando agimos preventivamente. E aqui, já podemos dizer algo, uma vez que não tenho condições de me posicionar quanto à questão de se ocorreram ou não os arrastões em Maceió. Não fui testemunha ocular de nenhum deles; não estava na cidade de Maceió nesse fim de semana, e apenas estou acompanhando as controvérsias em torno dessa situação. Como não me sinto à vontade para falar sobre esse fato tão controvertido, sugiro descolarmos um pouco o foco de nossa análise para refletirmos sobre o sentimento de insegurança, medo e pânico e que estamos vivenciando há muitos anos no Estado de Alagoas que se revela uma sociedade de risco para todos, independentemente de classe social. Evidentemente, não podemos responsabilizar uma voz, que ainda não se sabe ao certo de onde partiu nem a que veio, pelo sentimento de insegurança que levou as pessoas a reagirem coletivamente com desespero, buscando proteger suas próprias vidas, com os instrumentos de que dispunham. Precisamos evitar juízos de valor acusando as pessoas que reagiram, da forma como puderam, afirmando que as mesmas poderiam ter agido de forma mais racional. Os sociólogos afirmam que em grupo agimos e reagimos de forma absolutamente diferente de quando estamos sozinhos. É por isso que esse conhecimento é elementar para os gestores que precisam zelar pela vida das multidões. Tem que agir preventivamente, antecipar-se aos fatos, para que evitem ações e reações desprovidas de racionalidade e responsabilidade social. Quanto mais desagregada estiver a sociedade, quanto menos nos reconhecermos uns nos outros, mais estaremos inseguros em partilhar espaços coletivos. A imprevisibilidade torna-se mais contundente quando desconhecemos o que o outro é capaz de fazer contra nós mesmos. A fragilidade dos laços sociais ajuda a acreditarmos que a qualquer momento podemos ser golpeados, por qualquer pessoa, em qualquer situação. Isso é muito grave, e demonstra o quanto estamos sendo penalizados pela crise das instituições, pela crise de valores e pela crise de autoridade que estamos passando nos últimos tempos. Prova disso é que está sendo difícil acreditarmos nas versões apresentadas pela mídia. Todos podem estar falando a verdade, mas todos também podem estar mentindo, mobilizados pelos interesses mais diversos: uns para defender o governo, outros para defender a manutenção do consumo, outros para viverem seu momento de heroísmo etc. A crise de legitimidade das instituições produz esse tipo de incerteza que contribui para ampliar ainda mais nosso sentimento de insegurança. Os baixos índices sociais de Alagoas são importantes para entendermos porque vivemos numa sociedade de risco, porque estamos tão inseguros, porque não nos sentimos protegidos pelo Estado, e porque estamos perdendo a capacidade de confiarmos e nos reconhecermos uns nos outros como sujeitos de direitos. A desigualdade social é perversa e ela cria conflitos das mais variadas matizes. A crise de valores somada à realidade de desamparo, injustiça, exclusão e ausência de perspectiva forma uma conjuntura que nos deixa absolutamente inseguros, pois incapazes de saber o tamanho do ressentimento que outro vive por não ser reconhecido como um sujeito de direitos. É preciso que o Estado pense nisso, que os gestores assumam o seu quinhão nesse desafio que também é de todos nós que vivemos no mundo atual. Se foi verdade ou mentira o fato dos arrastões, é bom que se investigue. É importante sabermos se foi realmente uma ordem vinda do sistema prisional ou foi uma fala de um cidadão comum que inventou essa mentira para se divertir com o pânico das pessoas. As duas alternativas são muito graves: a primeira porque revela a crise e fragilidade do sistema prisional, a segunda porque revela a falta de respeito e de responsabilidade com o outro. Não há tempo a perder! Precisamos construir uma política de segurança preventiva, cidadã, propositiva; e isso pressupõe garantirmos saúde, educação, moradia, trabalho, lazer, cultura e reconhecimento social. Quem quiser fazer segurança tem de pensar nos sujeitos que vivem na sociedade, e não apenas em armas, câmeras e prisões.

Relacionadas