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“A imprensa fiscaliza o governo – e quem fiscaliza a imprensa � a sociedade”

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Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Eugênio Bucci é uma referência na produção de conhecimento sobre mídia e comunicação no Brasil. Autor de vários livros, entre eles Sobre Ética e Imprensa, Bucci transita com desenvoltura entre o mundo acadêmico e a atuação no jornalismo. É colunista da revista Época e colabora em outros veículos, incluindo TV. Na última semana, ele falou no 9º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado durante dois dias num hotel de São Paulo. Seu tema foi a autorregulamentação do setor. Em sua palestra, o professor ressaltou a importância da Associação Nacional de Jornais (ANJ) dedicar atenção ao assunto. Na entrevista a seguir, Eugênio Bucci detalha sua visão sobre os aspectos mais urgentes na gestão da imprensa brasileira. Defende a adoção de mecanismos que garantam a transparência e protejam o leitor de erros. Para o professor, no entanto, governos não podem criar embaraço ao livre exercício do jornalismo. ?Governos devem se abster de qualquer movimento na direção de fiscalizar a imprensa?, diz. Confira a entrevista. Gazeta. O 9º Congresso Brasileiro de Jornais tratou, bastante, de como ?monetizar? o negócio. Você esteve lá para falar de ética, liberdade de expressão e interesses da sociedade. Como equilibrar as duas demandas? Eugênio Bucci. Não vejo uma contraposição entre as duas demandas: a primeira, de ganhar dinheiro, e, a segunda, de levar à sociedade uma cobertura factual objetiva, com disposição de ouvir opiniões divergentes e também de reconhecer e corrigir prontamente os erros. Se você olhar a história dos grandes jornais do mundo, verá que, até aqui, a conduta ética, ao menos no caso da imprensa, não é inimiga do bom desempenho econômico. Bom jornalismo pode dar lucro. Você acha que os jornais, e a imprensa de um modo geral, estão muito longe do ideal em termos de ética e transparência? Se nos basearmos no quadro que Ricardo Pedreira, da ANJ, nos apresentou, a resposta é afirmativa. Estamos ainda longe. Veja que são poucos os jornais, menos da metade dos 154 que estão filiados à ANJ, que têm como regra reconhecer e corrigir erros. Poucos têm códigos de ética. Só dois ou três têm ombudsman. Ainda estamos longe, sim. Também por isso, a iniciativa da ANJ de começar a falar em autorregulação é corajosa e meritória. Devemos aplaudi-la. O que há de melhor e pior no jornalismo diário brasileiro quando se fala em princípios éticos? É difícil generalizar. Eu não saberia responder de modo conclusivo. Há vários pontos a observar. De positivo, temos uma imprensa que, ao menos no que vemos nos nossos grandes jornais, procura investigar e fiscalizar o poder. Isso é bom. Boa parte do que a nação começa a investigar em matéria de má conduta das autoridades públicas nós devemos a boas reportagens publicadas na imprensa. De negativo, talvez, a falta de pluralismo. O Código de Ética da ANJ, em seu artigo 5º, diz que os jornais da entidade se comprometem a ?assegurar o acesso de seus leitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade?. Agora, pense bem. Será que isso é de fato uma norma natural dos diários em nosso país? Eu acho que aí temos um ponto que merece um exame um pouco mais profundo. Eis aí um bom tema de reflexão para os interessados no assunto. Acho que, na média, a imprensa brasileira é menos plural do que promete ser. Não meço a pluralidade pela minha régua pessoal, mas pelas afirmações dos próprios veículos e de suas entidades representativas. Nesse aspecto, poderíamos estar num nível melhor. Quais os desafios principais para a imprensa na nova realidade, transformada pela internet e suas redes sociais? O desafio ético é conquistar a confiança dos novos públicos. A audiência, na internet, ainda acredita que a informação jornalística é algo que vem de graça, que não tem valor, algo que abunda, que existe à vontade em toda parte. E, pior, algo que não merece tanta confiança assim. O desafio, então, é conquistar um público que veja pertinência em pagar pelo acesso a notícias de qualidade porque confia nos veículos. É um paradoxo: o jornalismo tem mais leitores hoje do que tinha há dez anos e, ao mesmo tempo, as receitas, ao menos nos países desenvolvidos, vêm caindo. A internet trouxe mais leitura mas não trouxe, ainda, mais faturamento. O desafio ? ético e também negocial ? passa por aí.

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