Política
4 PERGUNTAS - ISA FERRAZ, DIRETORA DE CINEMA
1. Como surgiu a ideia de rodar um documentário sobre o Carlos Marighella? A produção tem por objetivo mostrar um pouco da vida pessoal dele? Venho pensando nesse documentário há muitos anos. Fiz um primeiro roteiro em 1986, mas não consegui recursos para o filme. Com a proximidade do centenário de Marighella ? que, se vivo, completaria 100 anos em 5 de dezembro do ano passado ? achei que havia chegado a hora. Ao todo, foram mais ou menos três anos de trabalho. O nome de Carlos Marighella foi por muito tempo maldito, sinônimo de bandido, assassino. Um nome a ser esquecido. Por isso, Marighella não é um personagem muito conhecido. O que se sabe é pouco e é truncado. Minha vontade de jogar um pouco de luz sobre essa figura polêmica e misteriosa com suas muitas facetas deu origem ao filme. Marighella foi um revolucionário que militou incessantemente por 40 anos. Foi escritor, poeta, um amante do Brasil e do povo brasileiro, que queria para o País uma espécie de socialismo moreno. Um personagem e tanto. Eu queria falar para um público o mais amplo e variado possível, e não para os pares. Assim, fui em busca de pistas, passagens, canais, juntando fato e mito, emoção e informação, poesia. Acho que saímos do filme conhecendo um pouco mais sobre o personagem, mesmo sabendo que nenhum retrato é completo. 2. Como foi a receptividade da crítica especializada com a produção? O filme foi finalista em dois festivais muito importantes: o Festival do Rio e a Mostra Internacional de São Paulo. Já então as críticas foram muito boas. Agora, com o lançamento em várias cidades do País, novas críticas surgiram, também muito boas. Além disso, recebi inúmeros e-mails e telefonemas de pessoas que respeito muito elogiando o filme. A grande alegria, para mim, é que todos dizem: ?Nossa, a gente não sabia mesmo nada do Marighella!?. Há muita curiosidade em torno desse homem-mito. 3. A parte de pesquisa para o documentário foi difícil, penosa? Quais as dificuldades que você teve pelo caminho, além da carência de mais registros históricos? Pesquisamos muito, encontramos muitas dificuldades. Fomos atrás de material sobre Marighella no Brasil e no exterior ? inclusive Cuba, Rússia e China ? e não encontramos quase nada. Em seus muitíssimos anos de clandestinidade, Marighella foi apagando seus rastros de maneira bastante radical, e não deixou nenhuma imagem em movimento. E pouquíssimas fotos. O que encontramos foi o registro de sua voz em uma entrevista longa e fantástica dada à Rádio Havana Cuba, em 1967. Optei por desenhar seu retrato por meio das poucas pistas que ele deixou e dos depoimentos de quem o conheceu. Esses depoimentos geraram um material denso e extraordinário, relatos profundamente íntimos e humanos. Assim, se por um lado eu não tinha imagens e documentos de Marighella, tinha muitas verdades sobre ele. Verdades filtradas pela memória, mas sempre verdades. Havia que encontrar formas de construir uma narrativa diante de tantas dificuldades: por um lado a falta, por outro o excesso. Em nossas pesquisas, encontramos materiais fílmicos e iconográficos muito ricos, parte dos quais inéditos no Brasil. Os depoimentos também geraram um material extraordinário, e tudo isso resultou num primeiro corte que considerei bom com 4 horas e meia! Tive que cortar muito. Foi doloroso. 4. O período da ditadura no Brasil sempre pautou discussões acaloradas. Houve até quem usasse expressões como ?ditabranda?. Como sobrinha de Marighella, que foi declarado ?inimigo número um? do regime, e também como cidadã brasileira, o que a senhora acha dessas colocações que tentam minimizar o regime? Não, a ditadura militar que se instalou no Brasil a partir de 1964 não foi uma ?ditabranda?, e cada vez mais os fatos que vão sendo revelados mostram isso. Foram anos de terror, de violência, de perseguição, de censura, de tortura e morte. E de muita truculência, inclusive com um sadismo criminoso por parte dos torturadores, que tinham requintes indescritíveis de crueldade. Há muito para ser investigado e julgado, e a Comissão da Verdade terá muito trabalho para realizar e muita gente para punir. Apenas com os depoimentos que obtive para o Marighella, eu poderia, se quisesse, ter feito um filme dramático, brutal, tal a natureza das experiências vivenciadas e descritas pelos depoentes. Meu objetivo, no entanto, não era este, e por isso não fui por aí. A minha inquietação era conhecer e mostrar um pouco mais sobre Carlos Marighella. Tenho todo esse material extraordinário não utilizado em mãos, e estou projetando realizar uma série para a TV. KF ?