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Política

� UMA MEDIDA DE CAR�TER ELEITOREIRO

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Que ninguém se iluda com as recentes medidas anunciadas pela Presidência da República para ?resolver? o problema da saúde pública no Brasil. Trazer médicos estrangeiros ou obrigar acadêmicos de medicina a trabalhar no interior não vai melhorar a assistência médica à população, porque aqui não faltam médicos. O que falta no Brasil são ações estruturantes para fixar o médico no interior e falta uma carreira de Estado, como a de juízes e promotores, que remunere dignamente e atraia os profissionais para as localidades mais remotas. O governo brasileiro quer que os médicos aceitem trabalhar em locais distantes, com salário vil, contratos precários, em unidades de saúde improvisadas, sem água, sem tratamento sanitário, sem segurança, sem acesso a recursos e diagnósticos adequados, apenas para fingir que oferece assistência de saúde à população. Por que o médico tem que aceitar trabalhar nessas condições, sofrendo por não ter recursos para dar à população o atendimento necessário? Para fixar o médico no SUS, o governo precisa primeiro investir na estruturação de uma rede de atendimento. Montar unidades básicas de saúde minimamente estruturadas para atender à demanda, possibilitando ao médico receber e examinar decentemente um paciente, dando acesso aos exames básicos e aos mais complexos que forem necessários. Mas isso não existe. E você não precisa ir para uma região remota para constatar que um paciente retorna seis meses depois de uma consulta sem levar um hemograma que foi solicitado pelo médico, porque não conseguiu fazer o exame ? que é o mais simples que se pode pedir. Com a rede de saúde que dispomos hoje ? desde as UBSs pelo interior até os grandes serviços de urgência e emergência das grandes cidades ?, não adianta o governo trazer médicos de Cuba, da China ou de Saturno, que as pessoas vão continuar morrendo por falta de assistência. Vão continuar morrendo porque não tem como fechar um diagnóstico sem exames básicos ou sem uma tomografia, porque faltam leitos de UTI, porque o centro cirúrgico está sucateado e funciona apenas com uma sala e uma equipe para atender a toda a demanda. E porque não há como fazer medicina preventiva num posto de saúde onde você não tem nem onde deitar um paciente para fazer um exame clínico elementar. Se o governo tivesse mesmo interesse em melhorar a assistência de saúde à população, a presidente não teria vetado os 10% do Orçamento Geral da União para a saúde. Trazer médicos estrangeiros sem revalidação dos diplomas e aumentar em dois anos a duração do curso de Medicina para obrigar os novos médicos a trabalharem para o SUS não são medidas simplesmente equivocadas. São medidas demagógicas, de caráter eleitoreiro e, pior de tudo, inócuas. No caso específico do serviço civil obrigatório, há o agravante da flagrante inconstitucionalidade. A ideia do governo beira a escravização do médico e nós não vamos nos sujeitar. As entidades médicas brasileiras já entraram em ação e, em todo o país, somos 400 mil médicos mobilizados, na luta para que nossa profissão não seja jogada na lama. A população precisa ficar do nosso lado e entender, definitivamente, que o médico não é o inimigo. O médico do SUS é tão vítima quanto seus pacientes. O inimigo a ser combatido é o governo, com seus decretos eleitoreiros e a economia de investimentos na saúde a cada dia mais sucateada e caótica. ?A medida chega em boa hora, porque nem a saúde nem a população pode esperar mais?

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