Política
Uso da p�lula do dia seguinte II
CUIDAR DA VIDA É FUNDAMENTAL » MANOEL HENRIQUE SANTANA - Padre e teólogo A Igreja Católica concebe à vida um valor divino, dom de Deus, Senhor da vida; e com isso a Igreja, de forma absoluta, defende a vida. Esta Igreja nunca se esqueceu do legado deixado por Jesus: ?Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude? (João 10,10). Conhece a Igreja as várias formas de ofender este dom, bem como de exterminá-lo em nome da própria ciência ou de outros interesses escusos, como soe acontecer entre as grandes multinacionais da assim chamada indústria da saúde. Conhece a Igreja as práticas de venda de órgãos, com a prática correspondente da morte. Os interesses econômicos conflitam sem muita ou nenhuma ética com os valores maiores que defendem apenas os interesses pessoais e ou de grupos, quantas vezes apresentados a título de progresso da própria ciência, através de uma prática de extermínio e de uso de cobaias humanas. A Igreja também reconhece que muita diferença faz em defender a vida somente com palavras ou documentos, quando a vida está inscrita numa realidade bem mais complexa, de uma dureza cruel e maldita. Diferença faz, como se expressava, no Brasil, o papa Francisco, em cuidar da vida como por correspondência, e cuidar da vida como uma mãe que embala seu filho nos braços. Diferença agora existe para a Igreja que cuidar da vida significa estar junto, ao lado, sem julgamentos preconcebidos, catalogados segundo uma classificação rígida e engessada pela moral cristã. Não se pode, porém, duvidar dos cuidados da Igreja com a vida, basta olhar para todas as suas obras assistenciais contra as doenças e males que têm atingido a humanidade, como fez com a hanseníase, ou a exemplo de dom Paulo Evaristo Arns ao construir o primeiro hospital para cuidar dos soros-positivos, em São Paulo. Quem mais salvou crianças brasileiras vitimadas pelo mal da diarreia, com o milagroso soro caseiro, senão a Igreja quando entregou à benemérita dra. Zilda Arns a ?Pastoral da Criança??! Atualmente, o cuidado com os dependentes químicos fez a Igreja criar a Instituição Fazenda da Esperança. No passado, cuidou das meninas e meninos órfãos, ou vivendo situações de abandono familiar, além de ter contribuído com sua educação, nas escolas paroquiais ou como, em Alagoas, fez o saudoso padre Teófanes, ao criar uma rede de ?Escolas da Comunidade?. A Lei 12.845/2013 [que sanciona uso de pílula do dia seguinte para vítimas de estupro] apresenta uma disposição explícita de servir a vida naquelas situações de vexame e violência à mulher. A intenção exposta visa oferecer à vítima ampla e integral assistência, também jurídica, com o sentido de identificação do agressor. A Igreja, através da CNBB, manifesta-se preocupada pelo pouco tempo de discussão da questão aprovada, com receio de fáceis interpretações favoráveis ao aborto. A Igreja não pode impedir que essas providências sejam tomadas e devidamente regulamentadas, apesar de suas justificadas preocupações pastorais. Convém ainda não nos esquecermos de que os órgãos responsáveis pela saúde no Brasil são dotados também de seriedade ética, ao lado de sua competência científica na área própria. Não somente a Igreja Católica pode se julgar como única defensora da verdade sobre a vida. Ainda lembrados das palavras de papa Francisco, a Igreja se coloca a serviço da vida, ao lado de outras instituições humanas ou religiosas, na sua proposta da mediação do encontro, da proximidade e do diálogo. As divergências de posicionamentos em matéria de moral têm causado muitas discussões e divisões internas na Igreja, pois, elas provêm de correntes diferentes. As teorias e correntes atualmente em disputa dentro da Igreja não podem deixar a vida humana, principalmente das mulheres, com suas reais situações de conflito e violência, à mercê de opiniões diversas. Jesus na história da Parábola do Bom Samaritano cuidou imediatamente do caído ao chão, sem até hoje ter discutido quem era a vítima.