Política
Rolezinhos em shopping center - II
LUXO PARA TODOS » BOANERGES BALBINO LOPES FILHO - Jornalista, professor universitário, doutor em Comunicação pela UFRJ A invasão, a conquista e a colonização da rede de relações pelas visões de mundo e padrões comportamentais inspirados e feitos sob medida pelos mercados de produtos, assim como as fontes de ressentimento, dissensão e ocasional resistência às forças de ocupação e a questão dos limites intransponíveis ao domínio dos ocupantes são alguns dos temas tratados pelo sociólogo polonês Zygmund Baumann em suas obras. Associados às ideias do psicólogo italiano Roberto Panzarani sobre o surgimento de uma nova sociedade global com o alargamento da classe média, mudança de conceitos, onde questões ? por exemplo, como o luxo ? antes restritas aos grupos privilegiados, e que hoje interessam e estão ao alcance das massas, podem nos ajudar a entender fenômenos como o atual ?rolezinho?, envolvendo jovens de áreas periféricas em algumas regiões do Sudeste do País. Existem pelo menos dez deles previstos até fevereiro, um deles convocado para hoje, no Shopping Leblon, no Rio. Há anos esses jovens são bombardeados de todos os lados por sugestões de que precisam se equipar com um ou outro produto fornecido pelas lojas de departamento dos cada vez mais sofisticados shopping centers no intuito de alcançar e manter a posição social que desejam, bem como desempenhar suas obrigações sociais e proteger a autoestima, além de serem vistos e reconhecidos por tudo isso e não se sentirem inadequados e abaixo do padrão ao não responderem com prontidão a esses apelos. Nessa sociedade de consumidores-mercadorias, e do fetichismo da subjetividade, o mais importante é não deixar-se dissolver na massa cinzenta, sem face e insípida. Mas, sim, tornar-se uma mercadoria notável, comentada. Tudo isso atrelado a um período etário em que os mecanismos psicobiológicos são ativados em seus cérebros gerando buscas e identificações próprias, onde a necessidade premente é a de encontrar suas próprias identidades e independências, desencadeando um processo anárquico que faz com queiram afastar-se de ícones até então poderosos ligados às condições principalmente familiares. Ou seja, enxergar-se de uma maneira diferente da de seus pais ? ou de qualquer autoridade vigente ? e usar ou fazer coisas que eles criticam é o que os movimenta, o que os impulsiona, o que os move e que cultivam em seus desejos e sonhos. Convivem ainda com uma crise acentuada de legitimidade em boa parte das escolas, instituições caducas inseridas em um modelo de sociedade caduco, onde os espaços de criatividade estão distantes das possibilidades de renovação e inovação, impedindo a multiplicação de redes de conhecimento que impulsionem condições de cidadania. E onde os financiamentos também patrocinam, prioritariamente, outras áreas distantes daquelas que podem incrementar o desenvolvimento humano - espaços de lazer e convivência em suas comunidades. Vivenciam com isso um processo agonizante, incerto e desmotivador. Das causas, justas e que precisam ser pensadas e transformadas em medidas coerentes e ágeis, faz-se uma consequência imprescindível, antes de qualquer ação precipitada e paliativa - truculenta ou punitiva: a de ter calma. E a de agir tendo como referência bons exemplos como a do guarda-chuva transparente, poderoso na cultura japonesa. Em alguns centros populacionais do Japão, onde nas esquinas se cruzam em torno de duas a três mil pessoas em apenas 40 segundos, além de proteger da água, o objeto auxilia a visualizar o outro e não agredir o próximo. Nessas cidades, por onde circula tanta gente, o código cultural e simbólico aponta para algo muito importante na vida em sociedade: o respeito ao direito de ir e vir e o espaço de cada ser humano.