Política
A educa��o precisa se transformar em um projeto de na��o
O filósofo Mário Sérgio Cortella é um dos maiores conhecedores da educação que se pratica no Brasil. Autor de vários livros sobre o tema e ex-secretário de Educação de São Paulo, ele trabalhou ao lado de um outro nome importante na área, o educador Paulo Freire. Cortella esteve em Maceió recentemente para fazer mais uma de suas concorridas palestras, que atraem milhares de professores País afora pela riqueza de conteúdo, ideias inovadoras e um carisma incomparável. Seja nos livros, nos programas de TV e de rádio que participa ou nas palestras, o filósofo-educador faz uma abordagem extremamente rica em que cruza o tema educação com vários temas, entre questões existenciais, a política e o excesso de informação dos dias atuais. Em entrevista à Gazeta, Cortella faz uma breve análise dos péssimos indicadores educacionais do estado de Alagoas e aponta o que ele considera como caminhos para uma transformação de verdade. ?Sem a transformação da educação escolar em um projeto de nação, fica cada dia mais turbulento. Educação nacional não deve ser projeto de governo, volátil e passageiro junto com os mandatos; é preciso um pacto da sociedade civil?, diz. Gazeta. Alagoas amarga, historicamente, um dos piores indicadores educacionais do País. O que justificaria, na opinião do senhor, essa realidade tão cruel quanto imutável? Mário Sérgio Cortella. Cruel sem dúvida, imutável jamais. Não há nada que justifique, isto é, torne justo, mas sim o que explique, entre essas o descaso de alguns governos, o desprezo e temor pela escola pública de parcela da classe média e a prevaricação de certas elites predatórias quando responsáveis pela gestão pública da economia e das finanças. Contudo, não é imutável, como nada é; é difícil, sem ser impossível. Como a pobreza e a corrupção política podem afetar esses indicadores? Quando há hemorragia de recursos financeiros, vazando para destinos espúrios, acaba ocorrendo um sequestro das verbas que ajudariam a elevar as condições da educação escolar; a pobreza, resultante de uma produção econômica exuberante sem uma repartição decente, agrava os desempenhos pedagógicos, embora não sejam causa exclusiva. Temos aqui um dos piores desempenhos no aprendizado de Português e Matemática. Quem é o responsável por isso, a escola, o método de ensino, o professor ou o aluno? Não há em educação escolar uma única variável para iluminar a fonte das deficiências. A formação docente precária, em função também da penúria das condições de trabalho, quando somada a metodologias anacrônicas e discentes oriundos de famílias próximas da indigência, tem como consequência a fragilidade de compreensão dos códigos matemáticos e linguísticos.