Política
Uso medicinal da maconha II
NÃO LEMOS OU NÃO-GOSTAMOS? » ELISALDO CARLINI - Professor titular de Psicofarmacologia da UNIFESP Em 2010 foi realizado o Simpósio Internacional: ?Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?? sob minha presidência, contando com a participação de cientistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, representantes brasileiros de vários órgãos públicos, sociedades científicas e numerosa audiência. Após dois dias de intensas discussões foi aprovado por unanimidade um documento recomendando ao governo federal a oficialização da criação da Agência Brasileira da Cannabis Medicinal. Esperava uma discussão posterior, científica e acalorada, pois sabia de algumas opiniões contrárias à proposta. Entre estas o parecer do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cujos representantes compareceram apenas para apresentar seu parecer, ausentando-se totalmente, antes e depois, de todo o restante do simpósio. Esta havendo sim a esperada discussão, veiculada principalmente através da Folha de S. Paulo, mas num nível de entristecer. De fato, expressões como - ?o dom de iludir?; ?Lobby da maconha?; ?Maconhabras?; ?uma idéia fixa: a legalização das drogas?; ?elementos com pretensa respeitabilidade?; ?paixão dos lobistas?; ?exemplo de indigência intelectual?; ?querem maiores facilitações para o consumo?; ?travestidos de neurocientistas?; - não se coadunam com a seriedade que deve prevalecer em qualquer discussão científica. Os autores de tais infelizes afirmações certamente não leram a célebre frase de Claude Bernard, o pai da medicina experimental: ?em ciência criticar não é sinônimo de denegrir?. Por outro lado, os contrários ao uso medicinal da maconha utilizaram de argumentos inverídicos (para dizer o mínimo) quando tentam criar uma atmosfera de pânico, desviando o foco da atenção (maconha como medicamento). Assim: ? Legalização da Maconha ? O item 6 da carta do Simpósio diz cristalinamente: ?o uso clínico dos derivados da Cannabis sativa L ou de seus derivados naturais ou sintéticos não pode ser confundido com o uso recreativo (não-médico) da planta?. Os autores das infelizes frases não leram, portanto, esta resolução. ? ?O uso médico esta longe de receber aprovações de órgãos como a Agência FDA dos EUA?, dizem os autores das afirmativas. Ora, um princípio ativo da maconha, o ?9-THC, esta aprovado como medicamento por esta Agência desde a década de 1990, sendo o produto Marinol produzido e utilizado nos Estados Unidos, e exportado para vários países há quase 20 anos. Portanto, os autores de tal afirmativa também não leram nada a respeito. Mas não é só isso, pois a maconha e seus derivados também já têm aprovação para uso médico em países como Canadá, Reino Unido, Holanda e Espanha. A então ministra da Saúde da Espanha chegou a declarar ao aprovar o seu uso para a Esclerose Múltipla: ?O uso terapêutico da cannabis é estudado há anos, por isso existem testes clínicos e evidências científicas de sua utilidade em determinadas doenças? ? Dizem ainda os autores das frases: ?O uso terapêutico da maconha não tem comprovação científica. Se recomendado negaria a busca da ciência? por produtos cada vez mais seguros?. A dra. Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA) dos Estados Unidos declarou a uma revista brasileira que ?não existe droga segura?, o que é uma verdade, também para a maconha. Vem daí a necessidade de um médico estudar a relação risco/benefício de qualquer droga que prescreve. Por exemplo, segundo dados do FDA, de 1997 a 2005 houve 196 relatos de suspeita de morte coincidente com o uso de antieméticos (uma indicação também aprovada para a maconha). Não houve nenhuma suspeita de morte pelo uso da maconha.